Nascido no Espírito Santos, o cartunista Alpino vem de uma família grande de oito irmãos (5 homens e 3 mulheres), nos quais quatro dos homens desenham. O quinto, Arildo, o quinto irmão é músico. Ou seja, uma verdadeira família de artistas. “As meninas, não desenham, mas são incríveis contadoras de histórias. Na presença delas você não nota o tempo passando enquanto as ouvem contar e aumentar histórias de nossa família (risos). Então posso dizer que a vocação pelos quadrinhos vem de berço”, comenta Alpino.

Essa vocação para o desenho levou Alpino para criar personagens, quadrinhos e muitas vezes trazendo um tom de crítica social ou política. Isso o levou a ser ilustrador do jornal Folha de São Paulo, posteriormente chargista do portal de comunicação Yahoo! Brasil e cartunista da revista PLAYBOY. Em 2013 teve seu trabalho premiado com o Troféu HQMix de Desenhista de Humor Gráfico. E o traço de Alpino foi ficando cada vez mais inconfundível, assim como suas personagens Luzia, para o Caderno Dois, e Samantha para A Gazeta. Hoje, com três postagens diárias, ao meio-dia, às 18 e 21 horas, Alpino apresenta no seu Instagram, o @cartuns.alpino sua visão bem humorada sobre o cotidiano em duas linhas de cartuns: ‘vida moderna’ e ‘vida saudável’. Alpino conversou com a MENSCH trazendo um pouco do seu humor sempre apurado e atual. Não é à toa que ele está aqui conosco.Os quadrinhos sempre foram um forte arma de crítica social. Você sempre pensou nisso? Não. Quando entrei em contato com os cartuns foi através da revista Seleções. Na minha infância sempre tinha algum exemplar em algum canto da casa. Os cartuns me fizeram abandonar aos 10 anos as revistas da Disney. O traço rápido e o texto impactante de apenas uma frase, me fisgaram imediatamente. Adeus Tio Patinhas e companhia. Nos cartuns não há a grande aventura dos quadrinhos para entreter ou mesmo as dezenas de páginas para contar uma história. No cartum, a maravilhosa e complexa existência humana está ali, resumida e descrita com traços econômicos, num único quadradinho.

O politicamente correto tira um pouco da liberdade de criar? Acho que sim. Quando você trabalha para um veículo de comunicação ou entretenimento é preciso, antes de chegar ao público, que tudo passe por diversos setores e filtros dentro da empresa para não renderem processos judiciais. Tendo isso em mente, o cartunista contratado precisa também passar sua ideia inicial por diversos setores e filtros, em sua mente, antes de chegar à mesa do seu editor.

Algum trabalho seu já foi criticado por ser machista? Por que você acha que acontece isso? Já aconteceu. Foi na Playboy, em 2016. Após o término da publicação na Abril, onde publiquei a página de cartuns entre 2013 a 2015, entrei em contato com os novos proprietários da revista e fui contratado. Após enviar a tradicional página de cinco cartuns, recebi um e-mail da editora me dizendo que não ia rolar. Ela explicou que a revista havia mudado de rumo. E meus cartuns refletiam a antiga Playboy. Pedi desculpas, fiz novos cartuns e enviei. Dos cinco cartuns, dois foram recusados. Pedi desculpas e fiz novos. Tudo bem até sair a revista e receber novo e-mail: eu não me enquadrava. Fiz novos e novos cartuns e a página de cartuns sobreviveu mais três edições, sendo cortada da nova Playboy. Enviei um e-mail aos proprietários, me despedindo e agradecendo por aquele curto período que frutificou numa amizade mantida até hoje. Eles me convidaram a permanecer, mas apenas na versão online, colocando os cartuns no Instagram da revista. Pagariam menos, mas eu continuaria ligado à Playboy. Aceitei e tivemos excelentes índices de compartilhamentos, curtidas e comentários. O leitor de Playboy me fez entender que ele queria os cartuns, a revista não. Foram quase trezentos cartuns com muito humor, erotismo, lindas mulheres e insinuações de felizes experiências sexuais. Os cartuns pararam em janeiro deste ano, após o fim do contrato da editora com a matriz norte-americana. Ficaram as boas lembranças, a amizade com todos e até com as coelhinhas. Garotas incríveis, bem-humoradas e generosas.

Por um bom tempo você falou das fantasias do universo masculino. Qual (ou quais) a mais divertida de retratar? Acho que o ménage à trois ganha de longe de todas as fantasias masculinas. Digo isso pelo alcance e recordes de repostagem de cartuns que traziam esse contexto. Desenhar o corpo feminino é sempre divertido. Retratar um ménage sempre era ainda mais porque as mulheres ficavam em posições diferentes, como num quadro de natureza morta, espalhadas pela cama.

Alguma de suas ilustrações tem mais de você? Aquela que você olha e diz: minha alma está aqui. O sedentário no sofá (risos)

Você já contribuiu com importantes veículos de comunicação como o portal Yahoo Brasil, Folha de São Paulo e a própria revista Playboy. Que importância teve para sua carreira? Agradeço a cada uma delas e editores pelas oportunidades de crescimento pessoal e profissional. No portal Yahoo! Brasil comecei com cartuns e me convidaram para a charge diária, que fiz com grande alegria de 2010 a 2017. A charge diária me ensinou a ler tudo e sobre tudo, cruzar fontes sobre a mesma notícia, construir meu senso crítico e trabalhar com a síntese. No período no portal, se me lembro bem, apenas uma charge foi recusada. Nela, um senhor assistindo na TV a vários escândalos envolvendo políticos corruptos, chega à conclusão irritado que sua única opção seria o Bolsonaro. Era uma crítica ao péssimo material humano na política e o menos pior, o Bolsonaro. Isso foi a três anos atrás, antes de Jair Bolsonaro virar moda. Meu editor entendeu que a charge levaria o leitor a concluir que estávamos elogiando Bolsonaro.

Na Folha de São Paulo entrei através do concurso de ilustração. É uma casa maravilhosa para trabalhar. Recebia os pedidos de ilustrações pelo e-mail e precisava correr contra o relógio como se vê naqueles filmes que retratam as alucinadas redações de jornal. Depois de algumas semanas, entrei no ritmo. É divertido trabalhar, mesmo à distância, com editores e jornalistas no mesmo compasso. Playboy foi uma coisa não planejada. Numa manhã no final de 2012 eu estava no meu barbeiro. Quando acabou de fazer o meu corte trimestral de cabelo, ele me disse que ia mudar de endereço e estava se livrando de algumas revistas. Ele sabia que eu tinha o hábito, ainda tenho, de ler compulsivamente. Aceitei de presente uma caixa de revista que levei para casa sem saber o que tinha dentro. Eram Playboy’s. Não comprava uma a muito, muito tempo. Como homem casado, eu sabia que esposas não gostam muito de seus maridos comprando mulheres nuas de papel. Quando as folheei, revi aquele prazer do adolescente dos anos 80, tendo em mãos a criação do senhor Hugh Hefner. Me dei conta que agora haviam menos cartuns que antes, além da aposentadoria ou morte dos cartunistas que eu amava. Fiz então uma página com cinco cartuns e enviei um e-mail para o editor, meu querido Edson Aran. Fui aceito na mesma tarde.

Por muito tempo você ficou bem conhecido pelas tiras de “Samanta”. Como surgiu a ideia? Foi sua personagem mais querida? Sim, ainda é até hoje. No início eu tinha uma personagem de nome Luzia, o mesmo de minha esposa. A criei tendo como base uma foto sua aos oito anos, de cabelos escorridos, enfezada e segurando um diploma escolar. Luzia estreou em A Gazeta em Novembro de 2001. Em Maio de 2004 publiquei em seu lugar Samanta, mesmo nome de minha filha que acabava de nascer. A tira teve um sucesso instantâneo, sendo publicada em vários jornais brasileiros, permanecendo ainda hoje em quatro. Samanta é a mulher moderna, com todos os desafios do cargo após a desconstrução do papel imposto à mulher por tanto tempo: tratamento desigual, pouco estudo, casamento e filhos. Ela trabalha em uma imobiliária e divide o apartamento com seu cão Platão e a deprimida Milu. Me divirto ainda hoje ao fazer cada tira.

Como está o mercado atual de quadrinhos aqui no Brasil com a diminuição de revistas e jornais? A tendência é ir se estreitando a cada ano. Normal, a plataforma mudou. Não podemos agir como o famoso banqueiro que se recusou a emprestar dinheiro ao jovem Henry Ford, dizendo: ‘…o carro é uma moda passageira, o cavalo está aqui para ficar’. Hoje, embora os veículos impressos estejam diminuindo, as redes sociais estão dando ao artista gráfico um público gigante como nunca sonhamos ser possível. Hoje tenho leitores no Japão, China, Europa, países árabes e às vezes me dou conta que estou dando retorno a mensagens vindas dos confins da Rússia. O conteúdo é o mesmo, desenho e humor. A plataforma mudou, o negócio não.

Quem são seus ídolos e o que você acompanha nessa área de quadrinhos? Não curto muito os novos quadrinhos. Há um excesso de tudo, até de músculos. A sofisticada e precisa linha editorial de Stan Lee e traços econômicos de um Steve Ditko ou John Buscema são coisas de um passado distante e difícil de ser reproduzida pelos novos talentos das editoras. Pena.

Onde busca inspiração para criar? Gosto de citar Bill Watterson, o criador de Calvin, para responder essa pergunta. Resumidamente ele disse que ‘o talento de um cartunista é olhar para uma folha em branco, até que um anjo desça e o presenteie com uma boa ideia. É muito parecido com vagabundear’. Basicamente é isso. Em outras e raras ocasiões, se dá por acaso, como numa de minhas idas a praia de bicicleta. Cheguei no pier e vi ali um coco de cachorro. Ao olhar para a praia, imaginei aquele cenário a milhões de anos atrás, quando o coco dos animais não era tão pequeno quanto aquele à minha frente. Daí surgiu o cartum que segue nessa edição.

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