Inquieto e versátil. Simples e complexo. Álamo Facó é tudo isso e muito mais. É um artista que segue no fluxo do seu tempo, da sua inspiração e da sua motivação. Com a real noção do poder que a arte tem, questiona e faz a sua parte dentro de uma sociedade intolerante, ignorante e omissa. Levantando questões em torno de tabus relacionados à sexualidade, saúde e morte, nos faz refletir sobre outro prisma. Pai, filho, ator e cidadão, ele segue sua trajetória de forma socialmente esclarecedora e encantando a todos com seu talento. Como alguém que viu nas artes a sua real vocação, Álamo, definitivamente, já faz parte daqueles que lutam ou lutaram por um mundo mais livre, com menos preconceito e injustiça.  O ator e autor acaba de estrear no Sesc Copacabana, no Rio,  seu novo espetáculo “Trajetória Sexual”. Imperdível!

Álamo, pelo que já percebemos parece que a versatilidade é uma das principais características suas como artista. Concorda? Essa pergunta faz sentido. Busco, sim, me reatualizar a cada trabalho e renovar o meu olhar sobre o mesmo. Talvez essa pesquisa por inovação resulte em uma versatilidade que nasce depois de muito trabalho.

Como foi sua formação e quando despertou que queria ser ator? Minha formação foi iniciada no teatro O Tablado. Com 17 anos, ingressei para um intercâmbio de um ano na Inglaterra, onde me aprofundei como ator e autor. Na volta, estudei interpretação na UNIRIO e fiz uma série de cursos nesse período. Quando tinha sete anos de idade, estudava em uma escola muito empenhada em artes cênicas. Já nessa época, pude perceber uma inclinação para as artes que, mais tarde, veio a se confirmar como uma vocação.

 

Você começou através do teatro, com peças mais densas e visitou vários países por conta disso. Como esse período influenciou no artista e na pessoa que você é hoje? Essas peças puderam me levar a conhecer diferentes culturas e diferentes plateias. Levar um texto contemporâneo brasileiro para países como a Escócia e Alemanha, é uma aventura enlouquecedora que exige muita responsabilidade. Essas experiências me tornaram mais consciente sobre o meu trabalho e sua continuidade.

Com essa base de teatro forte, ir para a TV foi um caminho natural ou necessário para se manter na profissão? Sempre fui apaixonado por audiovisual. Quando adolescente, eu assistia todos os filmes em cartaz. Todos. Assinava revistas sobre cinema e me imaginava em sets de filmes como “Apocalipse Now” e “O poderoso chefão”. A ida para o TV e o cinema foi natural e desejada.

Você acredita que ator que só faz TV fica mais limitado quando pretende ir para o teatro? Existe isso? Não. Pense na Glória Pires… Seu carisma, sua energia, reverbera na tela da televisão. Ela nunca fez teatro. Marlon Brando estudou teatro, mas, depois que passou a fazer cinema, tomou um ódio terrível por aqueles figurinos pesados das peças de Shakespeare. Já seu amigo Al Pacino, sempre transitou pelos dois com maestria.

Ao longo da sua carreira você tem escrito espetáculos solos como “Talvez”, “Mamãe” e agora o “Trajetória Sexual”. Como escolhe os temas e o quanto eles falam do artista que você é? Acredito na arte útil. São temas que acredito serem relevantes de serem debatidos no teatro. Os temas surgem a partir de uma necessidade de gritar para o mundo algo que acredito e imagino ser necessário propagar. Inevitavelmente, as opções que eu fizer como autor e ator irão falar sobre o artista que eu sou.

Por sinal, o solo “Mamãe” terá uma temporada internacional. Não é isso? Quais os desafios de um projeto como esse? Em tempos de cortes de verbas para a cultura, a oportunidade de apresentar um espetáculo, que nasceu de forma artesanal em um festival internacional, exige a dedicação de muitos profissionais. Não são tempos fáceis para a cultura. Há um desmonte declarado e a cultura é um dos seus alvos. Mas ficar parado não me parece a melhor escolha. É hora de se posicionar e reverberar aquilo em que se acredita.

Foi um desafio maior do que o imaginado criar o espetáculo “Mamãe” tendo passado por um período difícil ao lado da sua mãe, vítima de um tumor cerebral? O que você queria passar com o espetáculo? Viver cem dias ao lado de uma doente terminal, assisti-la entrar em coma e acompanhar os erros médicos, me levaram à necessidade urgente de contar essa história. Ao mesmo tempo que foi difícil voltar a este assunto, também me foi revelador notar que nele havia a cura para o que poderia permanecer um trauma. Quis falar, com o espetáculo “Mamãe”, que todo o ser humano deveria ter direito ao seu corpo na saúde e na doença.

Como você vê o cenário nacional em relação às artes? O cenário é dos mais preocupantes. Mesmo na ditadura, havia uma comissão para censurar uma obra. Hoje, censura-se a torto e a direito. Os artistas, que ainda conseguem criar, sentem-se com as mãos atadas ao falarem de recursos e são cerceados ao falarem de liberdade de expressão. Por outro lado, poucas vezes vimos artistas tão inquietos e transformadores como nos tempos de hoje.

O que poderíamos (o cidadão ou os empresários) fazer sem depender de órgãos públicos? Viver num mundo sem impostos?

“Trajetória Sexual” é seu mais novo espetáculo. O que podemos esperar dele e o que ele traz de provocante para a plateia e para você como autor/ator? Pude perceber que falar sobre algo tão íntimo e pessoal causa enorme fricção ao ser colocado em um espaço público. Ao mesmo tempo que me trouxe muito vigor, também me exigiu muita coragem e desprendimento.

Com tanta liberdade e informação, parece que estamos regredindo em muitos aspectos como em relação ao respeito pelas escolhas do indivíduo (seja na vida sexual, religiosa ou cultural). Por que isso acontece? Como você enxerga isso? São tempos de desvelamento. Agora, que o mundo está conectado em todas as suas áreas, nada mais fica velado. Descobrimos, nos últimos anos, mais de quarenta nomes para designar identidade de gênero e orientação sexual. Isto é um desvelamento. Assim como também é um desvelamento descobrir que pessoas temem uma performance que contenha nudez.

Falar de sexo com o público, com um texto inteligente, é uma forma de combater a intolerância e a ignorância neste aspecto? Sim. O Brasil é a população que mais mata população LGBTQ+ no mundo. Me parece que muita gente está sabendo disso, mas, o que poucos sabem, é que este também é o país que mais paga para transar com travesti no mundo. Não se contendo em ser o país mais violento, é, também, o mais hipócrita no mundo. Quando crio um personagem que se apaixona por sua amiga trans, vejo que aí está a minha colaboração para esta causa. Ele não a vê como uma trans, ele a vê como uma mulher, pois é assim que ela é e quer ser vista.

Quando jovem você tinha liberdade para falar de sexo em casa? Acha que isso é uma forma de base para ser um adulto sem traumas, pudores ou preconceitos? Sim, falava de sexo em casa, mas hoje noto que essas conversas não foram suficientes. Esta peça também é escrita para o Álamo de 16 anos, suas inseguranças e incertezas sobre o assunto. Acho que a conversa é fundamental para a formação de um adulto sem traumas e conflitos internos sobre o assunto.

Como homem e como ator você enxerga algum tabu em você? Se sim, qual (se puder contar)? E como lida com isso? Todos nós temos tabus. Estamos sempre em transformação. Em um relacionamento, a bissexualidade pode ser um tabu. Em outro, o desejo por ter um relacionamento aberto também pode ser. Esses tabus perpassam por minha vida. Lido com eles jogando para a cena. É no teatro que esses tabus devem ser esgarçados. Para que não fiquem presos em nós.

E como é Álamo pai? O que tenta passar e o que tem aprendido? Sou apaixonado por meu filho. Explico pra ele que o pai dele está lançando um novo trabalho e que isso só acontece de tempos em tempos. Quando me pergunto se eu deveria estar no ensaio ou com ele, procuro pensar que um dia ele sentirá orgulho dessas peças que sempre lutaram por direitos humanos e a liberdade.

Se sente mais realizado ou realizando? Durante o período de ensaio me sinto realizando, plantando. Depois que estreia, se a peça atravessa as pessoas e as transforma, me sinto realizado.

O que te distrai nas horas vagas? Cinema, teatro, dança, praia, cachoeira, literatura e brincar com meu filho.

O que curte ler, ver e ouvir? Gosto de ler Bataille, Vitor Heringer, Hilda Hilst, Marguerite Duras, Terrence Mackena, Davi Kopenawa. Gosto de ouvir The Blaze, Ana Cláudia Lomelino, Letrux. E gosto de ver filmes da Nouvelle Vague.

Daqui há alguns anos como gostaria de ser reconhecido? Como alguém que lutou por um mundo mais livre e menos injusto.