Com 10 anos de carreira, cria do teatro, o ator Eduardo Speroni, 25 anos, fez sua estreia na TV com a novela “O Sétimo Guardião” e trouxe à tona um tipo de preconceito pouco visto na televisão. Seu personagem simplesmente queria ser um dançarino mas ele sofria preconceito por parte do pai que não aceitava essa vocação do filho. Ao longo da trama o público pode conhecer um pouco mais do talento desse jovem ator que se revelou uma grande aposta da nova geração de jovens atores. “Um artista tem que ser curioso, precisa de referências, e nunca pode parar de aprender. Cada projeto é uma história diferente, lidamos com o novo o tempo inteiro”, comentou Eduardo. Vamos lá conhecer um pouco mais desse rapaz que ainda vai dar muito o que falar.

Você fez sua estreia em novelas com “O Sétimo Guardião”. Qual o maior desafio de se fazer TV pra quem vem de teatro como você? Teatro e televisão são diferentes. Mas posso dizer, com toda certeza, que a minha formação no teatro me ajuda. Principalmente no momento de criação e composição do personagem. Onde essa experiência teatral me traz uma segurança, uma capacidade intuitiva de sentir o que pode funcionar em cena ou não. Além de toda a consciência coletiva que o teatro traz, o aprimoramento do “fazer em grupo”. Porém na execução, a interpretação tem outro tom. A televisão acaba sendo mais naturalista. O audiovisual como um todo tem isso, devido ao ponto de vista da câmera, que é muito mais minucioso. Trazendo assim, o desafio de dosagem, de não extrapolar o tom. Por outro lado, o teatro, assim como qualquer outra forma de arte – música, dança, literatura, entres outras – são importantes para manter o artista em constante pesquisa e desenvolvimento. Senão, nosso conhecimento pode estagnar. Um artista tem que ser curioso, precisa de referências, e nunca pode parar de aprender. Cada projeto é uma história diferente, lidamos com o novo o tempo inteiro. E o teatro, assim como a televisão, é um território fértil onde se permite muita experimentação, capaz de aflorar o instinto criativo do artista.

Aliás, você tem 10 anos de carreira e só agora está fazendo trabalhos na TV (como “Impuros” e “Sob Pressão”). Por que demorou tanto tempo a fazer TV? Porque eu não me cobrava em estrear na TV. Sempre tive interesse, mas não via como uma cobrança. A televisão era um território desconhecido pra mim. Estou muito contente em poder desbrava-lo agora. O ator tem que experimentar. Portanto, ter a oportunidade de passar por todos os meios, visto que já vinha atuando em teatro e cinema, é muito gratificante. Além disso, tenho a consciência do peso de um trabalho como a novela das 21h. Ela é assistida por milhões de brasileiros. Portanto, estou me esforçando e agarrando com unhas e dentes essa história. A pressão é grande. Mas, para mim, a cobrança deve estar no processo e não no resultado. Por isso, a cada dia, me esforço em dar ao público e à crítica um trabalho em constante desenvolvimento.

E como foi fazer Bebeto em “O Sétimo Guardião”? Muito satisfatório! Tocamos em temas polêmicos – entre eles o machismo e a homofobia – que na minha opinião, devem ser criticados e levados a debate. Com isso, sinto que somos capazes de transformar culturalmente a sociedade. Além disso, a oportunidade de trabalhar com esses dois artistas de peso, Marcelo Serrado e Carolina Dieckmann, tem sido muito importante para mim. Aprendo muito com eles todos os dias. São duas pessoas muito generosas, que fazem questão de jogar junto – olho no olho, como falamos.

Também estou muito contente que a dança entrou na minha vida por causa da novela. No teatro, sempre trabalhei o corpo. Sendo um instrumento muito presente em alguns espetáculos que fiz, principalmente no mais recente, o “Caranguejo Overdrive” da Aquela Cia. de Teatro. Mas dançar profissionalmente era algo que nunca tinha feito. Portanto, antes de começarem as gravações, fiz quase dois meses de preparação de dança, onde tive aulas com a Sonia Destri Lie (Cia. Urbana de Dança). Mas o aprendizado não acaba nunca. Ao longo da novela, continuei fazendo aulas de dança com a coreógrafa Dandan Firmo. A dança é uma grande forma de expressão artística. O corpo é capaz de provocar estímulos no espectador que a palavra muitas vezes não consegue. Depois da novela, não penso em seguir carreira de dançarino. Mas com certeza pretendo usar a dança em futuros trabalhos como ator. É uma bagagem que vou levar para a vida.

O que aprendeu com Bebeto e o que “deu” seu para o personagem? A família tem que ser o nosso maior suporte. O pai de Bebeto, Nicolau (Marcelo Serrado), não aceita os desejos do garoto e por isso vive uma grande frustração. Acredito que essa relação familiar retratada na novela está sendo muito importante para mostrar aos pais e mães desse Brasil que eles não devem interferir nos sonhos e talentos de seus filhos. O mais importante é que eles sejam felizes. Para isso acontecer é necessário suporte. Quanto mais apoio e respeito, maiores são as chances de sucesso e felicidade.

Também aprendi muito sobre a desconstrução da figura do “macho”. Devemos acabar com esses padrões que querem definir o que é masculino e o que é feminino. Como homens, não precisamos mais ficar afirmando nossa masculinidade. Eu me considero um homem feminino, e isso não interfere na minha sexualidade. Prezo e tenho respeito pela diversidade. Por isso, no meu convívio social, estou cercado de pessoas de todo tipo, que resistem e lutam por uma transformação social. Por fim, assim como o Bebeto, também tive que lutar, dentro e fora de casa, para me impor e conseguir o respeito quanto a minha profissão. O que me ajudou a entender e me identificar com os dilemas desse jovem. Além disso, já tive a idade do Bebeto, já vivi essa “pré-maioridade”. Sei que é uma fase de muitos sonhos, desejos e, também, de muita pressão. É o momento de traçar caminhos – vestibular, profissão, futuro, etc. Os pensamentos e o corpo vibram, pois os hormônios estão à flor da pele. Ter passado por essa fase me traz uma memória afetiva que me ajuda a compor.

O espetáculo “Caranguejo Overdrive” do qual você participou foi muito elogiado e premiado. Fale um pouco de como foi fazer esse projeto e os desafios para um ator. E poderemos vê-lo de novo nos palcos com esse espetáculo? Pensando em trajetória profissional, o “Caranguejo Overdrive” com certeza é um divisor de águas para mim. Pois foi um espetáculo muito assistido, já fizemos em torno de 250 apresentações, em mais de 30 cidades do Brasil. Essa popularidade de certa maneira traz um reconhecimento ao trabalho do ator. Nós produzimos arte para o público, fazendo um trabalho de pesquisa que aborda temas latentes a sociedade, levando o espectador a se identificar. Esse reconhecimento e identificação do público acabaram sendo muito importantes para minha caminhada como artista. O “Caranguejo Overdrive” é uma peça de extremo desgaste físico. O preparo físico com certeza é o maior desafio como ator nessa peça. Temos uma temporada prevista para o final de 2019 no Rio de Janeiro. Ainda não está 100% confirmada, mas há grandes chances.

Como tem sido o retorno dos fãs? A identificação com o público foi bem forte. Recebo muitas mensagens de espectadores em repúdio ao Nicolau, por causa do seu pensamento machista e conservador. Também recebo inúmeras mensagens de incentivo ao Bebeto – pessoas dizendo que acreditam em seu sonho e torcem por ele. Já tive até casos onde espectadores se abriram e me contaram que tinham largado a dança, mas que o Bebeto estava dando força e estímulo para eles retomarem. Estou muito feliz, essa prova de transformação social é algo muito gratificante para um ator. 

 

Bebeto é um personagem que aborda um tema muito atual, o machismo (pelo fato do pai achar que não é coisa de homem o filho dançar). Como você analisa essa trama? Acha importante levantar essa discussão na TV? Como no caso do Bebeto, muitos jovens brasileiros ainda enfrentam um pai que acredita que dança não é coisa para homem. Portanto, com muito teor crítico, estamos mostrando que devemos acabar com esse estigma. Esse tipo de opinião, que cria padrões para separar homens e mulheres, não pode mais ser aceito. Devemos lutar por uma igualdade entre os gêneros. Na maioria das vezes são cenas de forte embate dramático – o que acaba exigindo mais concentração. Estamos mostrando situações delicadas, de intolerância e violência, que necessitam de cuidado e esmero na hora de serem retratadas.

O preconceito e o machismo ainda estão presentes na realidade do jovem brasileiro. Entretanto, tento ser otimista. Acredito que estamos caminhando para uma sociedade menos preconceituosa. Mas estamos longe. Precisamos dar muitos passos à frente. Infelizmente, muitos jovens continuam sendo vítimas de homofobia nas escolas.  Muitas garotas ainda são vítimas do machismo social. Dentro de casa, o patriarcado dominador e a figura machista do pai ainda estão muito presentes. Isso tem que mudar. O jovem precisa ter sua liberdade individual garantida. A diversidade deve ser respeitada. Portanto, é de suma importância estarmos falando de preconceito no horário nobre, a novela pode ser assistida em todo o Brasil, somos capazes de comunicar a milhões de cidadãos sobre um tema latente – uma doença social que necessita de uma cura urgente. 

Você fez faculdade de cinema. Pensa em se tornar diretor? E como a faculdade ajuda na carreira de ator? Sim, penso em trabalhar com direção, mas sempre em paralelo com a atuação. Esse foi um dos motivos de ter me formado em Cinema na PUC-Rio. Com essa graduação, pude ter um entendimento maior do que acontece por trás das câmeras. Dirigi dois curtas metragens ao longo do curso (“Teto Parede” e “Meio Disso”) que me ajudaram a compreender ainda mais a linguagem do audiovisual. Antes da faculdade, o teatro já estava presente na minha vida, mas a interpretação para câmera era algo que pouco tinha experimentado. A principal ajuda que a faculdade me trouxe foi a possibilidade de treino, pois eu estava cercado de futuros cineastas, com muitas ideias de filmes e equipamentos disponíveis, mas com pouquíssimos atores à disposição. Acabei fazendo inúmeros curtas metragens como ator, desde filmes experimentais, de 2 a 3 minutos, até projetos de finalização dos veteranos, de 15 minutos. Foram experiências muitas vezes difíceis, devido à estrutura (equipamentos e dinheiro) quase mínima e ao conhecimento ainda em desenvolvimento que geravam muitos erros de gravação, mas que para mim serviram como aprendizado e me ajudaram a construir uma carapaça – uma resistência aos problemas e uma elaboração mais rápida de possíveis soluções para se ter um bom set de filmagem. Então, para um aluno de cinema que também é ator (o meu caso), a faculdade acaba sendo duplamente aproveitada. 

Você namora uma atriz (Carol Garcia). Vocês costumam trocar ideias sobre a profissão e dão dicas um pro outro? Têm planos para trabalhar juntos? Eu e ela (Carol Garcia) temos uma relação de muita amizade e companheirismo. Estamos sempre juntos. Temos muita coisa em comum, como por exemplo a profissão. Isso acaba nos aproximando bastante. Estudamos juntos para os trabalhos, nos ajudamos a decorar os textos, a fazer os self tests (testes em vídeo que mandamos às produtoras), e claro conversamos muito sobre arte e cultura. Brincamos que nossas conversas são infinitas. Nosso papo nunca se esgota.  

Como você analisa a cultura no país nesse momento? Se fosse governante, o que faria? A cultura está esquecida. Há anos, nós estamos sofrendo cortes orçamentários por todos os lados. Viver de arte no Brasil é desesperador, pois os incentivos estatais e privados estão cada vez mais restritos, principalmente, para quem faz um trabalho de pesquisa. O Estado só faz cortes – a queda exorbitante do teto para produções de musicais, aprovado há algumas semanas, é a maior prova disso. As empresas do setor privado não investem onde não se trará retorno financeiro. Então, devido ao descaso público e às empresas que erroneamente acabam incluindo as expressões artísticas dentro dessa lógica do que é vendável ou não, nossa cultura está em risco.

Se eu fosse governante, buscaria investir em cultura, mas meu principal foco seria a educação. Um povo educado é a chave de tudo. Com boas escolas e universidades, nós somos capazes de formar grandes agentes da cultura e também conseguimos uma maior formação de plateia/público, uma dinâmica social onde a cultura é valorizada, onde o povo consome arte.

Você fez um ensaio super urbano e ao ar livre pra MENSCH. Você é carioca, Curte a cidade? O que gosta de fazer pra aproveitar o que o que o Rio oferece? Sou carioca e gosto de usufruir das belezas naturais dessa cidade. A praia é a principal, sempre que posso busco dar um mergulho no mar e tomar um bom mate gelado embaixo do sol.

E você é ligado à moda? Como define seu estilo? Acho que sim, não acompanho novas coleções, nem marcas, mas tento ficar atento a como as pessoas estão se vestindo ao meu redor. Quando gosto de algo novo, tento experimentar em mim. Não entendo de estilos para saber dizer qual seria o meu, mas arriscaria algo como urbano cool. Existe isso? (risos)

Quais os próximos projetos depois da novela? Pretendo viajar a lazer por um tempo. Profissionalmente, ainda não tenho nada confirmado, que eu já possa divulgar.