Por Hilaine Yaccoub

Somos os únicos seres vivos que cozinham. Nenhuma outra espécie prepara os alimentos como nós fazemos. E foi quando aprendemos a cozinhar, a transformar alimento em comida, que nos tornamos seres culturais. O estudioso Michel Pollan nos diz “O fenômeno de programas culinários tem crescido cada vez mais. Fiquei muito intrigado com isso. Quanto menos cozinhamos, mais vemos outras pessoas cozinharem na televisão. Comida que, é claro, nunca vamos comer.”

Há muitas coisas na vida moderna. Cada vez mais compramos comida industrializada e usamos no dia a dia extratos de tomate, caldo em cubos, grãos em lata e, ao mesmo tempo, assistimos uma massa de pessoas na TV, profissionais ou amadores, a preparar comidas. O que tem nisso? Por que somos seduzidos pelos realities shows gastronômicos?

Acredito que além da questão simbólica do significado da comida (diferente do alimento) nos remete a cuidado, amor, sociabilidade. Gostamos mesmo é da performance. O MasterChef é um programa que trata de performance que está relacionado a algo que nos é muito caro: a comida traduzida em sabor. Traz pra perto a possibilidade de se levar para o dia a dia o valor da procedência dos ingredientes, da importância de transformar um ato corriqueiro em algo maior, uma experiência de consumo através da cocção e degustação.

No entanto, em certa medida, acredito que o programa vai além do show de entretenimento e, de alguma forma, para uma parcela da população, ele reavivou ou fez nascer uma vontade de experimentar algo novo. E aí temos uma expressão contemporânea muito forte: voltamos a nos reunir em volta do fogo como nossos antepassados, de um jeito que dialoga com nossos valores atuais.

Sentamos em cozinhas de conceito aberto, a sala foi integrada e juntamos prazeres que antes eram separados em diferentes locais da casa para um só espaço. Buscamos integração com as pessoas, com a comida que nos une e faz a liga, com as trocas de informação e receitas, tudo isso de uma forma divertida e recreativa. Um novo hobby despontou e criou dimensões nunca antes imaginadas.

Cozinhar deixou de ser uma prática natural para ser uma prática cultural, onde a culinária traduz quem somos: nossa origem, nossa identidade, nossas crenças. A gastronomia nos traduz e nos identifica no espaço-tempo. A partir de um prato de comida somos levados a lugares e momentos que vivemos. Por exemplo, podemos visitar a Grécia sem sair de casa ou lembrar o sabor da infância sem precisar de uma máquina do tempo. O sabor tem esse poder.

O se juntar em volta de uma mesa, dividir comida, é criar vínculos que vão além da alimentação ou nutrição, é formar conexões que são embaladas por conversas, trocas de experiências e prazer. Estamos na verdade dividindo prazeres através dos sabores. Gastronomia é religar-se. É dividir o pão e trazer felicidade para o corpo, alma e espírito. Dividir comida com as pessoas é abrir uma janela para o mundo delas.

 

Hilaine Yaccoub é PhD em Antropologia do consumo e tem como propósito compartilhar com as pessoas e marcas tudo o que aprendeu em seus quase 20 anos de experiência como pesquisadora, palestrante e consultora. www.hilaineyaccoub.com.br