Por Maristela Beltrão / Ilustração Erika Valença

Hoje, trabalhando com a TV ligada, me chamou a atenção uma conversa sobre “o que é mulher para casar e mulher para se divertir” e fiquei pensando: Você não pode se divertir com a mulher que escolheu pra casar? É lamentável que ainda hoje se levante esse tipo de discussão. E esse é um debate perigoso, pois envolve essa coisa de machismo e feminismo, e no caminho para se falar disso, ainda se anda de ponta de pés.  Há tempos que tentamos mudar esse comportamento, mas lutar contra uma cultura tão enraizada não é fácil. Por mais que se tenha cuidado, ainda nos pegamos reproduzindo discursos preconceituosos, rindo de piadas que denigrem a mulher e rotulando as que gostam de roupas menos convencionais. Não é de um dia para o outro que a história muda não.

Vejam como a coisa vem de longe. Antigamente, a mulher que não tinha marido era diagnosticada como histérica por qualquer alteração emocional. Pra você ter uma ideia, vibrador já foi chamado de “consolo” até outro dia. Hoje, uma mulher solteira que fala mais alto, muitas vezes escuta que é TPM ou falta de homem. Não mudou grande coisa, percebe? Essa falta de homem que falam, é na verdade falta de sexo, como se todo sexo levasse a mulher ao prazer e se como todo prazer da mulher dependesse do homem.

Há quem diga que sexo é bom até quando é ruim e que orgasmo é bom até quando é fingido. Mesmo valendo até pelo lúdico e pelo beijo de boca, recentemente uma turma do contra fez um estudo na Universidade de Sheffield, na Inglaterra, que aponta que não fazer sexo por toda a vida pode trazer longevidade, porque quanto mais faz, mais enfraquece o sistema imunológico. Acredito nisso quando penso nas freiras (como tem freira velha, meu Deus!) e em nossas tias solteiras e virgens, porque nenhuma morre cedo.

Não sei o motivo, mas agora parece que tem uma moda de não fazer sexo. Com Baby do Brasil não tem boquinha, nem Casagrande conseguiu. Faz 10 anos que Vera Fisher abriu mão da prática e até inventou um namorado para se livrar da patrulha. Sula Miranda trocou o sexo por malhação e doces, que engorda, a gente sabe, mas pelo menos a dormir de conchinha ela não é obrigada. E não acredito que essas mulheres resolveram se resguardar para viver mais ou passar para o lado das que são pra casar não. Acho que é por preguiça, ou decisão mesmo.

Eu não lembro quem falou que tudo na vida diz respeito ao sexo, menos o próprio sexo, que diz respeito a poder. Não sei quem falou, mas concordo. Concordo também com Lacan, que sabia bem muito sobre o assunto e falava uma coisa mais ou menos assim: a relação sexual não existe, o que existe são duas pessoas que se juntam e fazem um negócio lá qualquer, cada um na sua viagem e fingindo que estão ligados à outra, quando raramente, muito raramente, existe uma conexão. Algumas mulheres leram, entenderam e liberaram o homem da responsabilidade do orgasmo. E os homens que entenderam, aprenderam afinal a se divertir com suas companheiras.

Ainda bem que tem Lacan pra explicar essas coisas pra gente. Que bom que sempre tem alguém dizendo que não devemos aceitar verdades absolutas sobre como devemos nos comportar. Já falamos besteiras demais, já fizemos tantas outras, mas não vamos desistir de aprender e tentar melhorar. Quem é da geração de “mulher pra casar e mulher pra se divertir”, ainda tem dificuldade de assimilar tanta coisa nova. Demora um pouquinho e ainda existe muita dúvida sobre o assunto, mas eu sempre tive a certeza de que se fosse para escolher eu nunca seria pra casar. Porque eu gosto mesmo é de me divertir e ser feliz.