Quando a arte de encenar conquista uma família, e esse apreço segue por gerações, é sinal que o amor, a união e a dedicação são ferramentas essenciais para o sucesso. Assim acontece com a família Pacheco que há 51 anos dedica-se ao espetáculo da Paixão de Cristo, que acontece em Nova Jerusalém, distrito de Brejo da Madre de Deus, no agreste pernambucano. Conhecido como maior espetáculo ao ar livre do Mundo, é encenado toda Semana Santa, e já atraiu uma média de 4 milhões de espectadores ao longo de todos esses anos. A peça conta um fragmento da história de Jesus Cristo que aborda desde o anúncio da vinda do filho de Deus até a sua ressurreição. A MENSCH esteve lá para conhecer de perto como tudo acontece, conversar com elenco e direção, e acima de tudo sentir um pouco dessa paixão que envolve tantas pessoas por tantos anos.

Para o Coordenador Geral do Espetáculo, Robson Pacheco, que orquestra um trabalho que envolve 4.500 pessoas, é uma tarefa prazerosa e sempre desafiadora. “Primeira coisa que me passa é o tamanho dessa responsabilidade que possuo. A segunda é: essa missão que temos de tocar em frente não pertence mais a Sociedade Teatral de Fazenda Nova mas sim, hoje em dia, é o patrimônio cultural material e imaterial do povo pernambucano. Há dois anos que planejamos essa temporada histórica e fizemos muitos planos. É verdade que sempre será mesma história, desta forma, procuramos estudar algo onde tivesse uma renovação cênica e que pudesse, nesse cinquentenário, mudar um pouco o seu rumo.”, conta Pacheco que relembra “Nasci em 63 e menino participava como criança de Jerusalém. Aos 7 comecei a ajudar meu pai na coordenação. Cresci vendo todo movimento aqui e a gente me desenvolvendo junto com ele. Quando menino, eu achava que toda situação de trabalho era normal e que todo mundo tinha o que fazer. Olhava meus pais (Plínio e Diva) trabalhar, entendia que aquele casal tinha esse projeto e a gente estava inserido nele. Eu assisti a tudo que se passava nessa produção e com ele cresci junto.”

O INÍCIO – O espetáculo originou-se nas encenações do Drama do Calvário, peça realizada nas ruas de Fazenda Nova entre 1951 e 1962 por intermédio do comerciante e líder político local Epaminondas Mendonça – pai de Diva Pacheco. A ideia surgiu depois que o mesmo viu numa revista de época chamada Fon-fon uma reportagem de sobre a encenação da saga de Cristo, feita com habitantes da cidade de Oberammergau, na Baviera alemã. Com essa base, ele teve a ideia de reproduzir algo semelhante em sua terra com o objetivo de atrair turistas e movimentar a economia do lugar. Em princípio, o elenco era composto por amigos e familiares, mas não tardou para que os holofotes atraíssem técnicos de teatro da capital e atores. Desta maneira a atração ganhou notoriedade no Estado.

A CONSTRUÇÃO – A ideia de construir um teatro que fosse uma réplica de Jerusalém partiu do jornalista Plínio Pacheco (que posteriormente se tornaria esposo de Diva Pacheco), que aportou no distrito de Fazenda Nova em 1956. No ano seguinte, Pacheco escreve a peça ‘Jesus’ que teve sua primeira encenação em 1958, já na cidade-teatro. Desde então, as apresentações são ininterruptas. O local possui uma área de 100 mil m², cercada por muralhas de quatro metros de altura e 70 torres de sete metros cada uma. No interior, existem nove cenários que recebem cerca de 50 atores de 500 figurantes. O público estimado é de 7 mil pessoas por espetáculo.

O figurino é uma atração à parte. Durante anos, ficou a cargo da estilista Xuruca Pacheco. Como talento se passa de mãe para filha, desde 2012, o departamento está a cargo de Marina Pacheco que administra um acervo que conta com mais de 5 mil peças catalogadas. “Cada peça é criada com todo o cuidado para que chegue o mais perto do real. As roupas são tecidas em fibras naturais, coloridas naturalmente assim como os desgastes das mesmas. É importante passar a vivência contida em cada cena para o espectador. Sempre buscamos o aperfeiçoamento e, muitas vezes, fazer algumas mudanças são necessárias para o aprimoramento. Nada é perfeito, sempre temos o que melhorar, então a gente vive nessa busca constante da melhoria. A história é a mesma, isso é uma realidade, mas precisávamos dar uma dinamicidade para atrair um público novo. Foi quando pensamos em quais seriam os pontos que poderiam ser modificados e que pudéssemos imprimir algo mais dinâmico. Chegamos à conclusão que isso poderia ocorrer com o figurino, nas cenas e no elenco. Assim fizemos. Ter um elenco variável (refiro-me aos papéis principais) dá uma versatilidade ímpar ao espetáculo e isso mexe completamente com o meu setor de figurino. O nosso elenco fixo (o local), buscamos não alterar muito – é uma minoria – só quando chega gente nova, mas isso é muito difícil.” Explica Marina que além de figurinista da Paixão, interpreta a mulher adúltera na peça.

PERSONAGENS – O primeiro ator a interpretar o filho do Homem foi Luiz Mendonça, irmão de Diva. De 1969 até 1977, o papel passou para Carlos Reis – que hoje é diretor do espetáculo. José Pimentel assumiu o personagem até 1996, enquanto Fábio Assunção foi o intérprete escolhido para os dois anos seguintes. Nomes como Herson Capri, Thiago Lacerda, Eriberto Leão, Carmo Dalla Vecchia, Murilo Rosa, Igor Rickli, Rômulo Neto e o pernambucano José Barbosa também deram vida à Cristo. Esse ano de comemoração, o papel ficou por conta do ator pernambucano Renato Góes.

No Papel de Maria, Diva Pacheco atuou de 1977 a 1990, e no ano de 1996. Entre suas antecessoras, nomes como Rute Bandeira, Florisa Rossi, Lúcia Neuenschwander e Maria Carolina Andrade encenaram a mãe de Jesus. Dentre os nomes nacionais, destaque para Patrícia Pillar, Maitê Proença, Camila Morgado, Carol Castro, Paloma Bernardi, Bianca Rinaldi, Letícia Birkheuer e a pernambucana Fabiana Pirro de volta em 2018. Já Maria Madalena foi interpretada por nomes como Marilena Breda, Letícia Spiller, Giovanna Antonelli, Flávia Alessandra, Xuruca Pacheco, Luana Piovani, Grazi Massafera, Emanuelle Araújo, Vanessa Lóes, Adriana Birolli e agora em 2018 por Rita Guedes. Este ano, completa o elenco estelar os atores Victor Fasano (Herodes), Kadu Moliterno (Pilatos), Tonico Pereira (Anás) e Nicole Bahls (Herodíades).

Já Judas, é interpretado há 4 anos por José Barbosa, que também já interpretou Jesus Cristo. “Essa dicotomia no meu trabalho me fez mostrar uma nova maneira de ver a tudo isso. A gente pensa a história do ponto de vista de Jesus que é muito complexa, mas, o que não se imagina é que nessa mesma trama existe outro personagem tão complexo quanto, que é Judas. No meu trabalho, passei por uma mudança incrível saí da luz e rumei à escuridão. Refiro-me ao turvo da alma, do sentimento, do vacilo e do suicídio. O texto de Judas é muito rico e atemporal. É onde Plínio (o autor) coloca ali questões que afligem o ser humano como um todo, como as dúvidas, as inquietações e o enfrentamento com Deus.”, finaliza.

Ao fim do espetáculo, que conta até com um drone, pode-se observar pessoas emocionadas e perplexas com tudo que viram. A história mesmo que já contada tantas vezes emociona como se fosse pela 1ª vez. Com sorriso no rosto e um sentimento de dever cumprido deixamos Nova Jerusalém e entendendo como essa paixão já dura 51 anos. Lembrando que esse ano o espetáculo vai de 24 a 31 de março. Ingressos pelo site oficial www.novajerusalem.com.br