Três pontos importantes diferenciam algumas grandes cidades de outras, que são sua história, sua cultura e seu povo. Como tudo isso se harmoniza e cria uma identidade própria, faz com que aquela cidade tenha um algo a mais e, por mais que se visite, há o que se descobrir nela. É o caso de Berlim, que, por mais que se fale dela e por mais que se visite Berlim, sempre há um novo ângulo ou algo novo a se descobrir. Quando fomos convidados a ir até Berlim, só sabíamos o básico que se vê em aulas de história ou programas de TV sobre grandes cidades do mundo, ou seja, que era uma cidade palco de alguns dos acontecimentos históricos mais marcantes do mundo. Nada muito além disso. O que nos fez ficar ainda mais instigados e curiosos sobre esse novo destino.

Partimos de Viena pela Austrian Airlines rumo a Berlim, maior cidade e um dos dezesseis estados da Alemanha. Situada no Nordeste do país, é o centro da área metropolitana de Berlim-Brandemburgo, que inclui 5 milhões de pessoas de mais de 190 nações. Nosso voo chegou à noite e curiosos como estávamos, eu e o fotógrafo Carlos Cajueiro, não conseguíamos ver muito da cidade do que a levou a ser tão elogiada por amigos que já tinham estado por lá. Fomos direto para o hotel, que, para nossa surpresa, tinha uma proposta bem diferente, mais parecia uma mistura de bar, boate e loja descolada. Na verdade, um dos novos hotéis-butique que estão ficando bem populares por lá. Paredes escuras, objetos clássicos e outros ultra modernos (como um leão de louça no chão), quadros com fotos de mulher nua, “natureza morta” na “vitrine” do hotel, música de balada tocando, luz de velas e uma linda loira que nos desejou boas-vindas. Deu para perceber que essa viagem seria algo bem diferenciado. Isso era o Hotel Mani, isso era Berlim!

Ao chegar, para nossa surpresa, ao entrar no quarto, de paredes pretas, detalhes em lilás e muito vidro e espelho dando o tom sofisticado e ao mesmo tempo descolado, percebemos que as camas eram juntas. Caímos na risada e lá fui eu explicar que queríamos camas separadas (alô!). Trocamos de quarto e devidamente instalados fomos para o lobby do hotel esperar nosso primeiro guia nessa viagem, Henrik Tidefjard, eleito o melhor guia turístico do ano pela Luxury Travel Guide Award que nos levaria para um Gastro Rallye, ou seja, ele era “guia de balada”. Isso para Berlim num sábado à noite para duas pessoas que nunca estiveram na cidade, era pra lá de importante. Afinal, Berlim é uma cidade que ferve à noite e não faltam opções do que fazer para o que você imaginar. Henrik é um alemão meio sueco com alma brasileira, falante, animado e que já esteve no Rio de Janeiro e Salvador por diversas ocasiões. Ou seja, ama o Brasil! E o cara, ainda morou em diversas partes do mundo, e conhece as melhores festas mundo a fora. Ou seja, ele é o cara!

BERLIN BY NIGHT

Nossa primeira parada foi no Nithan Thai, restaurante bar com pegada mais oriental com decoração descolada, gente bonita e que esquenta para uma noite agitada. Depois de um brinde com champagne e provar diversas especialidades da casa, partimos para nossas próximas paradas, mais um bar descolado e depois fomos ao exclusivíssimo Soho House, que inclui uma balada no rooftop de um dos hotéis mais estrelados da cidade – uma antiga loja de departamentos que virou um dos points mais procurados de Berlim. O local costuma ser parada obrigatória para personalidades como Madonna, Adele e Katy Perry quando visitam a cidade. Detalhe, nosso guia Henrik presta seus serviços de guia a todas. Fomos direto ao bar, local com acesso exclusivo a sócios ou a quem está acompanhado de alguém, ou seja, o nosso caso. Detalhe importante para os brasileiros, lá é proibido usar celular. Ou seja, nada de selfies heim!?

Depois de alguns drinks descemos até a boate do Soho e até então, tudo normal. Nos chamou atenção o visual anos 80 das frequentadoras, camisa de malha básica, por dentro da calça jeans e tênis branco. Simples assim! Ao som de clássicos retrô e hits atuais, passamos mais um tempo e bebemos mais um pouco, mas com certo cuidado porque a noite ainda estava longe do fim. Nosso guia perguntou se gostaríamos de conhecer uma balada bem a cara de Berlim, essa seria por nossa conta, e, prontamente, aceitamos. Chegando lá, o local era o oposto da sofisticação do Soho, uma antiga fábrica de sorvetes desativada com ar meio detonado, histórico e decoração mais alternativa. Pensamos “isso é Berlim”! Quando entramos, uma senhorinha nas pick-ups, um grande globo de espelhos no centro da pista principal, e, um som alto e dançante que não deixava ninguém parado. Ao lado da pista principal, um grande bar repleto de tipos de cervejas artesanais que fazem a festa em lugares como esse. O público, era do mais diversos possível. Logo Henrik nos apresentou uma drag de 2 metros de altura, cara bem simpático que por sinal, tinha sido jurado do The Voice Alemanha. Ou seja, o cara era uma celebridade. O que nos chamou atenção foi que com toda aquela mistura e clima descolado de tudo ser permitido, ninguém incomoda ninguém. Existe uma “conduta ética” onde cada um respeita a individualidade do outro e todas as tribos convivem bem na balada. Bem, a farra estava ótima mas no dia seguinte teríamos uma missão, conhecer um pouco da história de Berlim.

A HERANÇA DO MURO

Depois da farra de sábado à noite, acordar cedo foi um certo sacrifício. Mas quando se está em viagem, dormir é para os fracos. Comemos algo rápido e já nos encontramos com Fátima Lacerda, uma simpática carioca que mora em Berlim desde a queda do muro. Fátima, é jornalista freelancer e também trabalha como guia, especialmente para turistas brasileiros de primeira viagem. Por ter chegado num momento crucial para a história da cidade, Fátima conhece bem como a queda do muro afetou a cidade e, principalmente, as pessoas. E como jornalista, os fatos que ajudaram a fazer a Berlim de hoje. A cidade, que já foi capital do Reino da Prússia, do Império Alemão, da República de Weimar e do Terceiro Reich, teve seu carimbo imortalizado na história quando, em 1989, o famoso muro – existente entre os anos de 1961-1989, que dividia Alemanha Oriental e Ocidental desde a Segunda Guerra Mundial, veio a baixo. Hoje, com uma população de 3,5 milhões dentro de limites da cidade, é a maior cidade do país, além de ser a segunda mais populosa e a sétima área urbana mais povoada da União Europeia. Com a queda do muro, as duas Berlim tiveram que aprender a conviver em harmonia e traçar um novo futuro com suas incríveis efervescências culturais e históricas. Fátima, nos explicou que mesmo as diferenças entre as partes Oriental e Ocidental ter acontecido há muitos anos, ainda hoje, são perceptíveis as diferenças entre um lado e outro quando o turista anda pelas ruas da cidade. Do lado Oriental, antes pertencente à União Soviética, é uma região mais descolada onde as baladas e casas noturnas de todos os tipos se encontram, por consequência o lado preferido pelos jovens. Já na parte Ocidental, permeia um clima de modernidade e organização muito maior, resultado do período de maior desenvolvimento econômico vivido pela região.

 

Quanto mais andávamos e íamos conhecendo um pouco da longa história daquela cidade recheada de fatos importantes, alguns não tão agradáveis, fomos entendendo seu povo e a cidade. Como o fato de 46% da população ser solitária, o que é reforçado pelo individualismo que faz parte de quem mora lá. Como Fátima nos relatou, você pode ser muito amiga de uma pessoa, mas cada um fica em seu espaço, em seu mundo, só se encontrando com dia, hora e lugar marcado. Uma vez juntos, são animados, riem e bebem juntos. Encerrou isso, cada um segue para sua vida sem muito contato. Fiquei pensando se não deveria ser o contrário, já que passaram tanto tempo separados por um muro. Mas ao invés disso, percebe-se que, tantos anos depois, a presença e a herança do muro ainda é muito presente.

Assim, da mesma forma como acontece em relação às tristes lembranças da influência nazista na cidade sob o comando de Adolf Hitler, uma das personalidades mais repudiada da história. Passamos na frente da casa de uma missionária que foi perseguida e morta por nazista, em outro momento, passamos na frente de uma sinagoga que chegou a ser parcialmente destruída pelos nazista e, anos depois, foi reconstruída. Existe, pregada no portão de entrada, uma placa de metal do governo se desculpando e dizendo que hoje em dia todos são bem vindos. Outro detalhe curioso e triste é que percebemos, ao longo das ruas, pequenas placas quadradas coladas no chão, nelas os nomes e o ano da morte de pessoas que foram executadas. Isso, para as novas gerações nunca esquecerem seu passado e escreverem uma história de forma diferente e distante dos horrores da guerra que a cidade sofreu. Berlim, mesmo com suas cicatrizes, segue se reinventando e cada vez mais colorida e atual, como se pode perceber na East Side Gallery o que traz arte no que sobrou do muro.

PASSADO E FUTURO

A estrutura arquitetônica de Berlim Oriental é composta de quadras de blocos de prédios com lojas, bancos, cafés… E sempre os fundos desses prédios levam a um pátio em comum, que eles chamam Hinterhof (algo como “pátio de trás”). Lá é possível encontrar galerias de arte, estúdios fotográficos, lojinhas alternativas e cafés. Seguindo por esses quarteirões, chegamos à Alexanderplatz (praça central) onde nos deparamos com o Urania-Weltzeituhr, um relógio que mostra a hora dos mais diversos fusos horários no Mundo e outro símbolo da cidade, a Fernschturm, ou melhor dizendo, à Torre de TV ícone de Berlim. Construída em 1969, ela possui 368 metros de altura e um bar / restaurante Sphere no topo, de onde é possível avistar a cidade por um raio de 70 quilômetros em 360 graus. Quem se interessar em ir até lá, é bom separar um bom tempo, pois as filas, às vezes demoram horas. No nosso caso, preferimos descobrir a cidade batendo perna e logo na vizinhança da torre. Bem no centro da cidade, nos deparamos com a Igreja Marienkirche, ou melhor Igreja de Santa Maria, que não se sabe ao certo quando foi construída, mas a primeira citação sobre ela, data de 1292, a mais antiga de Berlim.

Seguindo em frente, logo encontramos a famosa Catedral de Berlim, em frente à praça Lustgarten, construída entre 1895 e 1905 e que se encontra na Ilha dos Museus, no distrito de Mitte. O maior conglomerado de museus da Europa, com cinco dos mais importantes e, em breve, serão abertos mais dois. Também de frente para a praça, encontra-se o primeiro dos cinco museus, o Museu Antigo, construído para abrigar todas as coleções de arte de Berlim, mas que atualmente expõe parte da Coleção de Antiguidades Clássicas. Mais ao norte, encontramos o Neues Museum, construído entre 1843 e 1855, que ficou fechado no início da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Foi severamente danificado durante o bombardeio de Berlim, as marcas da guerra estão nos buracos em suas colunas. Em 1985, começou a ser reformado e sendo supervisionada pelo arquiteto inglês David Chipperfield. O museu, reabriu oficialmente em outubro de 2009 e abriga o busto da rainha egípcia Nefertiti. Vizinho a ele, estão, ainda, o Museu Pergamon, o mais visitado de Berlim, ao seu lado, a Galeria Nacional Antiga, que exibe, em sua maioria, pinturas do Impressionismo, Romantismo, Neoclassicismo, Biedermeier e início do Modernismo. E por fim, o Museu Bode que permaneceu intacto durante a guerra e fica às margens do Rio Spree e exibe uma bela coleção de esculturas, Arte Bizantina, além de uma importante coleção com mais de 750 mil moedas. Detalhe importante, todos os museus de Berlim tem entrada free nas quintas-feiras.

O PORTÃO E NAPOLEÃO

Falando no Rio Spree, você pode seguir o fluxo dele que, a poucas quadras, chegará ao monumental, e mundialmente famoso, Portão de Brandenburgo que está localizado na Pariser Platz. Construído em 1791, durante o reino de Frederico Guilherme II da Prússia, e totalmente restaurado entre 2000 e 2002 pela Stiftung Denkmalschutz Berlin (Fundação de Conservação dos Monumentos de Berlim), ele é o único dos 18 portais de entrada que a cidade já teve. Medindo 26 metros de altura, no alto, está a famosa escultura de uma deusa em uma carruagem puxada por cavalos. O fato curioso que nossa guia nos passou, quando Napoleão deixou Berlim, ele levou essa escultura que só foi resgatada anos depois. Hoje em dia, a original está guardada a sete chaves no Palácio e uma réplica foi colocada em seu lugar. Outro detalhe curioso que nossa guia nos passou, a via mais larga era exclusiva para a nobreza, as vias laterais aos plebeus. Hoje em dia, o Portão é considerado um símbolo da história da Europa e da Alemanha, representando a paz e a união.

Em frente ao Portão, há uma grande praça onde acontecem shows, manifestações e momentos de contemplação. Na lateral da praça, se encontra restaurantes, hotéis e bares. O clima no local é hiper descontraído e de total paz. Chegando lá, não deixe de visitar dois pontos importantes – seguindo para o lado direito, fica o Parlamento alemão, o Reichstag, e sua bela cúpula de vidro (é possível agendar visita pelo site www.bundestag.de). Já você indo para o lado oposto, chegará a um dos espaços mais marcantes na cidade, o Memorial do Holocausto onde 2.711 esculturas em forma de lápide, lembram os judeus mortos pelos nazistas.

Para os mais dispostos, também é possível fazer um roteiro turístico básico de bicicleta pelo Berlin on Bike (www.berlinonbike.de). Em grupos menores e individualizados, para conhecer uma Berlim verde e alternativa, com guias em diferentes idiomas, por partes históricas da cidade, numa distância média de 17 km.

SALSA E MERENGUE

Ao final de nossa viagem, percebemos que, o que faz Berlim ser uma cidade atraente, é a forma como ela se reinventou. Mantendo suas diferenças, relembrando seu passado sofrido, a cidade ferve e acolhe a todos. Para se ter uma ideia, o grande centro turístico e de moradia recebe em média pessoas de 180 de nações diferentes. Não importa de onde você seja, qual sua religião, orientação sexual ou mesmo de que parte da cidade você seja, Berlim acolhe e transforma. Um bom exemplo disso, foi nosso último jantar na cidade. Fomos ao restaurante Clärchens Ballhaus (www.ballhaus.de/en), esperando um restaurante legal, descolado com uma boa gastronomia alemã. Para nossa surpresa, entramos em um salão de fitas coloridas, muito brilho, senhorinhas de flor no cabelo, caras usando chapéu e camisa manga longa e muita salsa tocando. Depois de certa hora, a luz baixa, dando espaço a um clima caribenho onde, praticamente, se levanta da mesa e baila como se não houvesse amanhã. No começo, o que foi um espanto, se tornou um encanto. Ver aquele povo, de todas as idades e tipos, bailando sem restrições, nos levou a concluir que Berlim é uma festa para os olhos e para o coração. Viva la vida loca Berlim!

Veja vídeo MENSCH da viagem: