Nunca pensei em conhecer a Índia. Mas desde a primeira vez que vi uma foto do Taj Mahal, soube que, um dia, esse país seria meu destino de viagem. Quando chegamos a Nova Deli, a primeira sensação foi de choque: buzinas, caos, gente pra tudo quanto é lado! Mas, como o inglês foi uma das heranças deixadas pelos anos de dominação inglesa a comunicação fluiu.

Eu e minha amiga, Raquel, tínhamos planejado ir pra Agra, cidade do Taj Mahal; pra Varanasi, onde veríamos os rituais religiosos à beira do Ganges e terminar a viagem passando dois ou três dias em Deli. Como não conseguimos comprar aqui no Brasil – nem em agências, nem pela internet – os bilhetes de trem ou de ônibus que nos levariam a essas cidades, optamos por contratar um motorista de confiança, que foi providenciado pelo nosso hotel em Deli.

Mal chegamos à Nova Deli e já seguimos com Dharam (que, para nós, soava Deeru), nosso motorista-guia, para Agra. Por sua sugestão, alteramos nosso roteiro inicial e incluímos a cidade de Jaipur, no Rajastão, fazendo assim o triângulo Deli-Agra-Jaipur, via terrestre. As distâncias não são longas, mas devido a má condição das estradas e ao costume local de ignorar as regras de trânsito (apesar de elas existirem!), distancias de 250 km são percorridas em 5 ou 6 horas. Mas não da pra se entediar. Alem de o pôr-do-sol ser um espetáculo, as estradas apresentam uma enorme variedade de entretenimentos. Vimos ônibus e caminhões de boias-frias onde não cabia mais uma mosca. As pessoas sentam nos colos umas das outras, inclusive homens em colos de homens, se encaixando como podem, formando uma espécie de “lego” humano.

O fato de não se seguir as leis, torna o caminho uma surpresa a cada quilômetro. Quando menos esperávamos, um caminhão ou rickshaw entrava na nossa frente e confrontava nosso carro em busca de passagem. Lá, tamanho não é documento, ganha aquele que mais buzinar. Inclusive há dizeres nos veículos pedindo: “Por favor, buzine!”

De Deli pra Agra, em um dos congestionamentos em que o carro zerou a velocidade, fomos paqueradas por um grupo de adolescentes e jovens. Fiz o símbolo do coração com as mãos pela janela e dois deles vieram correndo em minha direção. Entusiasmada, peguei a máquina fotográfica, mas eles saíram correndo de volta, assustados. Diante da minha cara de interrogação “Deeru” esclareceu que eles ficaram com medo de serem fotografados, pois a paquera deles é considerada desrespeitosa, sendo inclusive crime previsto em lei.

Agra assusta tanto pela quantidade de lixo espalhado, quanto pela ausência de mulheres nas ruas. Tirando as turistas, que se concentram nos pontos de visitação, em dois dias só vimos três sáris coloridos caminhando pelas ruas da cidade.

Mas o monumento erguido pelo soberano Shah Jahan como símbolo do seu amor por sua esposa favorita, Mumtaz Mahal, vale toda a trajetória! O portal de entrada tem passagens do Corão, em que as letras foram dimensionadas em gradação, de baixo pra cima, com o objetivo de parecerem todas do mesmo tamanho. Outra façanha arquitetônica do século XVII, está nos quatro minaretes (torre característica da arquitetura muçulmana) que cercam o palácio principal: eles foram construídos ligeiramente inclinados em direção oposta ao Taj Mahal, para que, em caso de terremoto, ele não seja destruído pela eventual queda dessas torres.

Saindo de Agra para Jaipur, o encantamento com o passado da realeza, sua riqueza, luxo e caprichos, só aumenta. Paramos em Fatehpur Sikri, uma cidade em arenito vermelho, matematicamente construída pelo imperador Akbar, na era mogul (1526 d.C a 1858 d.C), mas que fora abandonada, apenas 14 anos depois de concluída, pela dificuldade de acesso a água. Akbar teve três esposas: uma hindu, uma crista e outra muçulmana. Fez um palácio pra cada uma delas, com arquitetura e obras de arte referentes a religião a que pertenciam. Sempre as tratou com igualdade, mas no fim acabou por construir um palácio maior para a esposa hindu, que o presenteou com seu primeiro filho homem. Os indianos até hoje o consideram um dos soberanos mais admirados, pois Akbar uniu o país ao colocar as três religiões no mesmo patamar.

Nos arredores da capital do Rajastão, o Palácio de Amber, no alto de um morro, é um convite a fantasia. O acesso a sua entrada principal se dá por um longo caminho, ladeira acima, que a maioria dos turistas percorre em cima de elefantes tipicamente enfeitados. Ao cruzarmos o portal de entrada, o espetáculo continua: vários elefantes desfilam em circulo no grande pátio do palácio, enquanto um encantador de serpentes seduz uma cobra, que sai toda prosa do cesto toda vez que ele toca sua flauta. Já dentro da residência real, é difícil não se perder. Os corredores são verdadeiros labirintos, repletos de passagens secretas que conectavam o quarto do rei com os aposentos individuais de cada uma das suas 12 esposas e centenas de concubinas.

No centro de Jaipur fomos brindadas com a beleza da Pink City, cidade toda pintada em cor de rosa em 1876, para visita do Príncipe de Gales. Lá os comerciantes exercem sua arte com maestria. Dentro de suas lojas nos sentimos em casa – sentamos no sofá e tomamos chá enquanto “trocávamos figurinhas” sobre nossos países. E difícil resistir e não levar um sári diante de tão grande receptividade e afetuosidade!

 

Os comerciantes representam uma casta entre as várias existentes na Índia, e que determinam o destino de cada pessoa. Tanto profissionalmente, quanto nos relacionamentos afetivos, a vida é praticamente restrita aquela que cada casta oferece. Os harijan (ou dalits), que estão abaixo da ultima das quatro castas e são considerados a poeira do universo, passam os dias varrendo as cidades e seus monumentos. Os brâmanes, com seus rostos pintados, inspiram medo e respeito ao mesmo tempo, e a abnegação em que vivem, refletida na magreza e nos trajes simples, em muito me lembrou Gandhi.

Aliás, a multiplicidade de vestimentas dos homens, cada uma associada a uma crença ou posição na sociedade, também impressiona. Dentre os que usam turbantes, pode-se diferenciá-los pelo pingente na testa; pelo bigode apontado pra cima, a la Salvador Dali; ou até pela barba enorme, que eles nunca cortam (curiosamente, por baixo do turbante também há uma cabeleira avessa a tesoura)!

Em seguida, voamos para Varanasi, uma das cidades indianas que mais respira religiosidade. As pessoas só começam a trabalhar as 10 da manha, após terem orado, meditado, feito suas oferendas ou rituais. Ao amanhecer, os templos, mesquitas e igrejas são sempre cheios; e o Ganges abençoa os hindus que nele se banham e bebem suas águas.

O “rio sagrado” é reverenciado em vida e na morte pelos hindus. O ritual de cremação dos corpos acontece nos crematórios situados nos 84 ghats que percorrem o seu leito. Os homens mais abastados de todo o pais, vão as suas margens cumprir o ritual do fogo sagrado quando alguém da família falece: uma parte do corpo do morto – da região do peito, nos homens e da área do quadril, nas mulheres – é lançada ao Ganges, e o restante do corpo e cremado com “um pedaço” desse fogo, que é caríssimo para a maioria da população.A religião também divide as áreas habitacionais da cidade. Visitamos um bairro muçulmano, onde a tradição de produzir a seda, passada de gerações a gerações, é a maior fonte de renda. Ficamos impressionadas com a quantidade de crianças em meio a tanta pobreza. Nosso guia, que é cristão, nos explicou que os seguidores do Islã, que hoje são em torno de 17% da população do país – contra 70% dos hindus – têm a meta de se tornar a maioria religiosa do país, por isso têm muitos filhos, mesmo sem condições financeiras de criá-los.

 

De volta à Nova Deli, resolvemos deixar de lado a mordomia do “carro próprio” e sentir como funciona o quotidiano das pessoas locais. Pegamos metrô, andamos pelas largas e infinitas ruas que separam o Museu do Gandhi, o Forte Vermelho e a Jama Masjid; e pela efervescência da Rua Chandni Chowk em direção ao Spice Market. Foi quando entendemos o significado da expressão “fila indiana”, pois de tanta gente nas ruas, em vários trechos as pessoas transitam literalmente em filas!

Mesmo Deli se diferenciando das demais cidades em que estivemos, pela modernidade dos fast-foods, das ruas bem pavimentadas e das mulheres vestindo jeans, a sensação de se estar voltando ao período do “comercio das especiarias”, logo após a descoberta das rotas marítimas, é forte em Old Deli. Inúmeros mercados temáticos se entranham pelas ruelas do centro: de jóias, artigos decorativos, temperos e há até um longo setor exclusivo para conserto de bicicletas, meio de transporte de grande parte da população, inclusive dos “taxistas de rickshaws”.

Embora a Índia seja encantadora pelos seus vários patrimônios históricos da humanidade; são as suas historias e lendas, e as descobertas que essa cultura cheia de contrastes nos trazem a cada segundo que mais fascinam. É impressionante que um país localizado exatamente entre o Ocidente e o Oriente Asiático não tenha se perdido entre essas influências, mas, ao contrário, se mantenha como um lugar único. Tão singular, que a tradição, a cultura e os valores próprios são vivenciados a todo momento por quem o visita, e nos remetem a algo sempre novo, inesperado, surpreendente.

Voltando as memórias do Taj Mahal… ele representa o que a Índia tem de mais fascinante: a magia. Seu mármore branco, esculpido a mão com pedras semipreciosas, se transforma conforme a luz que o ilumina: ao nascer do sol é branco, no poente fica rosado e na lua cheia sua cor é esverdeada. Assim é a Índia, um país com muitas nuances, que transforma a pobreza em fé, a tradição em força e o passado em magia.

Dicas que valem muito a pena:
Guia-motorista (muito bom!): Deeru – dharam_kiran@yahoo.com
Hotel em Nova Deli: Hotel Bright – http://hotelbrightdelhi.in
Hotel em Jaipur: http://www.nahargarhhaveli.com/index.htm
Agência de Turismo (que providencia o pacote de hotéis e passeios em várias cidades):
Umar ou Niyazhttp://www.perfectholidaytravels.com, perfectholidaytravels@yahoo.co.in, javedbaba2005@yahoo.com
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