De garoto Zona Sul carioca para ator de grande responsabilidade e talento. Felipe Lima é daqueles que tem os pés no chão, a cabeça nas nuvens, sempre planejando, sonhando e pronto para realizar. Amadurecido e ciente dos altos e baixos da vida artística busca uma vida equilibrada entre trabalho e lazer. Avesso ao acaso acredita que tudo na vida tem uma razão de ser, como a própria escolha profissional.

A carreira de ator veio meio que por acaso por conta de uma namorada modelo. Como se encantou pela profissão e resolveu arriscar-se por ela? Uma vez eu escutei numa aula de Kaballah que ninguém cruza a nossa vida por acaso e que devemos estar sempre atentos a isso, ao que cada pessoa vem “trazer” para nossa vida. Acho que a Catarina, minha ex, trouxe isso para minha vida, direcionou o meu olhar para o meio artístico… E depois disso, desse “primeiro olhar”, acho que uma coisa levou a outra de forma muito natural. Comecei fazendo um curso livre no Teatro Tablado aos 13 anos para perder a timidez, como um passatempo de adolescente. Anos depois, fui parar na CAL, na época do vestibular.

 

Na CAL, eu realmente me encantei pela profissão e a coisa deixou de ser um passatempo. Obviamente eu não fazia ideia de onde estava me metendo, tinha uma visão muito romântica da vida e da profissão – acho que ainda conservo ela hoje em dia, apenas em menor escala – achava que as coisas eram mais simples, que viver bem de arte no nosso país era uma realidade acessível a todos os profissionais qualificados, quando, na verdade, infelizmente não é. No meu caso, nunca se tratou de “me arriscar”, mas de “escolher”. Sempre tive o apoio incondicional dos meus pais para seguir em frente, eles sempre me apoiaram tanto afetiva e como financeiramente de modo a que eu pude me dedicar exclusivamente à minha formação, a estudar, a poder pegar um trabalho sem pensar em quanto iria receber por ele… Enfim, devo tudo isso a eles, que além de pais são também meus grandes amigos.

E sua mãe fez promessa pra você passar no teste de Sangue Bom. Prova de amor, né? Pois é… Meu pai costuma brincar que se tivesse um “Fã Clube Felipe Lima” ela seria a presidente, tesoureira e diretora de marketing!

Na novela você é Xande, um “amigo de aluguel”. Como é isso? Sabia que isso existia antes de fazer a novela? Eu não fazia ideia que essa profissão existia, mas quando soube, quando comecei a pesquisar sobre o tema, achei muito interessante! O Xande é amigo de aluguel, segundo ele: “Uma pessoa é carente e precisa de alguém para ir ao shopping, no cinema, quer alguém para conversar,  pra sair pra jantar, dançar… então eu cobro 150 reais a hora para acompanhar”… Fiquei sabendo que ele está cobrando até barato, que tem gente cobrando muito mais por aí trabalhando com isso de verdade!

 

Quando eu soube que faria esse papel, procurei na internet artigos, vídeos e etc. Mas não achei tanta coisa assim… Umas semanas depois, conversando com uns amigos, contei para eles do personagem e um deles me disse que tinha um amigo que tinha trabalhado como amigo de aluguel e me deu o numero dele para eu entrar em contato. Liguei para ele e contei do personagem. Disse que estava louco para ouvir dele as histórias da profissão, que queria saber do perfil dos clientes, de como ele fazia, quanto ele cobrava, quantas horas ele costumava ficar com cada cliente, se ele chegou a ficar amigo de verdade de alguém, se ele se interessou/namorou alguma cliente. O papo fluiu super bem e ele me esclareceu em vários aspectos, mas fiquei um pouco frustrado, acho que as histórias que eu queria ouvir só existem nos filmes, ou nas novelas.

Ele disse que era super simples, que ele tinha um site com outros 3 amigos e que o cliente entrava no site e  escolhia por perfil de programa que ele gostaria de fazer. Um deles só ia pra balada, outro se encarregava de programais culturais, tipo cinema, teatro. Outro fazia os programas esportivos e assim por diante. Segundo ele, a empresa começou a ter certa notoriedade, eles começaram a ficar conhecidos na cidade e esse foi um dos motivos pelos quais eles pararam de trabalhar com isso, pois as pessoas que os contratavam prezavam pelo anonimato. Outro dia, um amigo mandou uma reportagem que saiu no jornal dizendo que esse tipo de atividade é muito comum na China e no Japão, onde as pessoas têm são muito focadas no profissional, em ser bem sucedidas e tem pouco tempo para fazer amizades. Disse que eles chegam a cobrar 700 dólares para acompanhar alguém numa balada.

Falando em amizades, você é do tipo que tem muitos amigos ou é mais reservado? Eu sou do tipo que tem mania de achar que todo mundo é um amigo em potencial e por conta disso tenho gratas surpresas e grandes decepções, mas acho que uma coisa compensa a outra. Com o tempo, a gente vai aprendendo a identificar melhor e a se proteger mais de certas ciladas. Eu me considero um cara de sorte nesse quesito, apesar de ser um cara “na minha”, até um pouco avesso a grandes eventos e badalações, tenho bons amigos que sei que posso contar para o que der e vier.

 

O que um amigo jamais pode fazer ao outro para não comprometer a amizade? Acredito que o fundamental para ser amigo de alguém é querer bem ao outro. Obviamente, existe a questão da confiança que é muito importante… Mas não sou do tipo que cobra perfeição de ninguém, até porque eu não me considero perfeito. Acho que todo mundo erra na vida, todo mundo merece uma segunda e uma terceira chance, mas quando o ônus fica maior que o bônus. Acho que chega a hora de reavaliar se aquela amizade é boa para você ou não naquele momento.

Você vem do teatro, já fez outras novelas, mas está ficando mais conhecido do público por conta de Sangue Bom, o que mudou na sua rotina por isso? Até agora não mudou muita coisa, só a agenda que ficou um pouco mais cheia, mais compromissos de trabalho.

Você já morou fora por um ano. O que ficou de bom desse tempo em Nova York e Los Angeles? Muitas coisas boas ficaram desse tempo que eu morei fora, muitas histórias de vida, perrengues, boas amizades, dias incríveis, risadas, escolhas, mas principalmente responsabilidade e amadurecimento. Quando eu decidi morar em Nova Iorque eu tinha 20, 21 anos… Tinha acabado de me formar na CAL e estava de volta a faculdade de Publicidade, como parte do acordo que eu fiz com meus pais para poder cursar artes cênicas.
Eu tinha a vida muito “tranquila”, típica de um garoto da “zona sul” do Rio de Janeiro. Eu nunca tinha trabalhado, dependia totalmente dos meus pais, estava me achando muito acomodado, queria dar uma reviravolta na minha vida, mas não sabia exatamente “como”. Um dia, no pilotis da PUC eu vi um anúncio de uma empresa que levava os universitários para morar e trabalhar fora. Anotei o endereço e o telefone da empresa e no dia seguinte lá fui eu fechar o pacote da viagem.

 

Chegando lá me deram a opção de ir para uma estação de esqui, saindo do Brasil já empregado como fazem a maioria das pessoas que vão ou escolher qualquer lugar dos Estados Unidos e ir na cara e na coragem procurar emprego. Escolhi a segunda opção. Escolhi ir para Nova Iorque e comecei a entrar em vários sites de busca de emprego, como o craigslist etc. Um mês depois estava indo viajar com dinheiro para ficar um mês, um porão alugado no Queens e uma dezena de endereços de lugares que precisavam de emprego. Chegar em Nova Iorque sem ninguém do meu lado para me dizer onde ir, o que fazer, como fazer e olhar aqueles prédio enormes no início do inverno é uma sensação que eu vou guardar pra sempre. Bom, cheguei lá, comprei um telefone e fui bater na porta de cada um dos lugares que eu tinha anotado. A maioria foi super receptiva, mas nenhum lugar queria contratar alguém sem experiência nenhuma, por mais que eu falasse inglês fluentemente.

Voltei para casa, fiz um currículo dizendo que tinha trabalhado como garçom, como barmen, e host em vários lugares e no dia seguinte saí a procura de emprego de novo. Consegui no mesmo dia. Acabei trabalhando nesse “primeiro emprego”, o Bari, um café restaurante Israelense na esquina da Broadway com a Spring no Soho, por quase todo tempo que morei lá, apesar de ter pego outros empregos paralelos a ele para poder ganhar mais. Eles eram meio que uma família para mim lá, acho que nunca fiquei tão feliz de ganhar U$$ 7 dólares a hora. No final das contas acabei indo trabalhei numa boite lá como barmen e chegava a ganhar 700, 800 dólares por noite. Mudei do Queens para Manhattan e juntei uma grana boa… Mas foi lá que eu aprendi a dar valor a dinheiro, a saber, quanto custa cada coisa, que às vezes não da pra comprar tal coisa ou sair pra tal lugar porque precisa pagar conta, aprendi a ser super pontual… e também ter uma certeza de que consigo me virar por conta própria em qualquer lugar do mundo… e isso eu levo até hoje.

As aulas de canto são somente um exercício e cuidado com a voz ou tem pretensões na área da música e musicais? Eu curto muito fazer aulas de canto. Acho que primordialmente é um exercício, um cuidado com a voz e um pouco de lazer, mas adoraria fazer um musical. Apenas não é o meu foco no momento.

Você já atuou como assistente de direção em algumas produções, pensa em investir mais nisso? Eu tive algumas experiências como assistente de direção. Todas elas muito felizes. Nas últimas, trabalhei com o Guilherme Leme, um grande ator e diretor, um grande parceiro com quem eu aprendi muito. Fiz com ele “Shirley Valentine” monólogo com a Betty Faria e “Filha, Mãe, Avó e Puta” peça com a Alexia Dechamps e o Louri Santos, baseado no livro sobre a vida da Gabriela Leite, ex-prostituta e militante política que fundou a grife Daspu.

 

Assédio incomoda ou massageia o ego? Essa é uma boa pergunta…  Até agora o assédio tem sido positivo. A gente vive num momento onde todos nós temos a vida muito exposta. As redes sociais como facebook, o twitter, o instagram, permitem que qualquer pessoa possa dizer o que quiser sobre quem quiser… Seja verdade, seja mentira, ou simplesmente uma opinião pessoal e aquilo fica ali, exposto, para quem quiser ver. No nosso caso, “pessoas que tem alguma exposição na mídia”, isso é ainda mais delicado. Porque de certa forma “somos assunto” e muitas vezes as pessoas podem confundir simpatia com liberdade.

Acho que todos nós, seres humanos, devemos ser pessoas simpáticas e agradáveis com todos em geral, e nós atores principalmente com os fãs, mas acho também que o fato de sermos atores, apresentadores. Não nos coloca em outra “categoria de humanidade”. Somos pessoas como qualquer outra, que podem acordar de mau humor um dia, que podem querer seus momentos de privacidade com a família, com os amigos e que podem tanto gostar de um elogio quanto se sentir mal quando alguém fala mal de você. Outro dia li uma frase muito interessante que acho que cabe aqui: “Não se pode acreditar em tudo de bom que falam de você, pois senão vai ter que acreditar em tudo de ruim também… no final de contas, é mais uma opinião”.

Como concilia a turnê de “R&J de Shakespeare – Juventude interrompida” e a novela? Olha, é bastante complicado conciliar a peça com a novela. Voltei em cartaz com “R&J de Shakespeare” dia 21 de maio, no Teatro Eva Herz que abriu no Rio de Janeiro, as terças e quartas às 19h30. Das oito apresentações que fizemos até agora, só consegui fazer uma, no dia 22 de maio. Coincidentemente meu roteiro de gravação, que sai toda sexta-feira, tem caído as terças e quartas nas ultimas três semanas, então, quando isso acontece, eu aciono o meu stand-in, o ator Alexandre Contini, que foi inclusive assistente de direção da peça, e ele faz no meu lugar. De qualquer forma, eu tenho uma paixão enorme por esse projeto, que montei com meu sócio, Pablo Sanábio, que também atua na peça. Em breve, aliás, vamos montar outros. Temos 2 infantis e um adulto por vir.

É do tipo workaholic ou sabe equilibrar trabalho e lazer? Quando se faz o que se gosta, acaba que o trabalho não deixa de ser um pouco de lazer, e vice-versa. Não vou dizer que trabalho 24 horas por dia, mas com certeza minha cabeça fica ligada nisso o tempo todo.

Falando em lazer, o que costuma fazer para descansar e se divertir? Eu adoro viajar, mas por conta da correria de trabalho eu não tenho conseguido tirar férias. Venho emendando um trabalho no outro há mais de três anos. A última viagem relativamente “grande” que eu fiz foi em julho do ano passado quando passei 15 dias em Nova York para ver as peças que estavam rolando por lá… Gosto muito de ir ao teatro, ao cinema. De sair pra jantar, de festas na casa de amigos. Outra coisa que adoro é jogar tênis e lutar Muay Thay, faço isso toda semana, me ajuda a relaxar a cabeça.

Está mais vaidoso depois da carreira de ator? Por um lado sim… Eu sempre fui vaidoso, dentro do limite da “normalidade”, mas acho que a profissão e a exposição na mídia talvez tenham me feito ter uma consciência da importância de ter certos cuidados com a imagem, visto que, quando se pensa no mercado televisivo, isso é uma moeda de troca.

 

Falando em vaidade, você é vaidoso até que ponto? Qual seu estilo na hora de vestir? Eu sou um “vaidoso controlado”. Claro que eu me preocupo em estar bem, mas não deixo de curtir a vida por conta da vaidade. Não sou do tipo que deixa de beber uma cerveja no final de semana com os amigos para ficar em forma, mas talvez em vez de tomar dez, eu tome cinco. Não deixo de ir a praia para cuidar da pele, mas passo protetor solar. Procuro comer bem, dormir bem. E principalmente estar feliz, em paz comigo e com os outros. Acho que o “lado de fora” é o reflexo do que se passa dentro da gente. Quanto ao meu estilo na hora de me vestir, opto sempre pelo confortável. De preferência calça jeans e camiseta branca ou preta.

O que pensa do futuro? O que você planeja? Uma das coisas mais difíceis da minha profissão é planejar… A gente vive literalmente numa montanha russa de altos e baixos, de épocas de muito trabalho e épocas de ostracismo. Acho que em um “mundo ideal”, eu gostaria de estar sempre trabalhando. Seja fazendo televisão, cinema, teatro. Seja como ator, produtor, assistente de direção ou diretor. De preferência casado e pai de cinco filhos. Mas se não for exatamente isso, ou algo nada parecido com isso. Que pelo menos eu esteja fazendo algo que me faça feliz.

AGRADECIMENTOS
Itanhangá Golf Club, Ademilson Lessa, Álvaro Candela, Malu Candela e Thiago Setra

CRÉDITOS LOOKS DO ENSAIO
LOOK XADREZ – camisa Auslander, calça Reserva
LOOK TRICO – tricô azul Auslander, calça Reserva, sapato Raphael Steffens
LOOK CALÇA VERMELHA – calça Reserva, pólo Auslander, sapato Raphael Steffens
LOOK CASACO VERDE – calça Reserva, camiseta acervo, jaqueta Ellus, casaco Zara, sapato Raphael Steffens