De Recife à Urca, do Comunismo ao romantismo, Lenine cantou (e canta) em verso e prosa toda uma história de amor à música. Seja em Pernambuco, Rio de Janeiro ou para o mundo ouvir. Sempre com os pés no chão e o coração na sua arte de viver que é a música, Lenine aos poucos foi sendo descoberto pelo mundo e reverenciado pelo seu talento de encantar com belas canções. Durante a passagem de som de seu show em Recife, a MENSCH sentou para conhecer e ouvir um pouco mais desse grande homem da MPB. Saber de suas influências familiares, do surgimento do grande artista e do “eterno estrangeiro” que foi abraçado pelo samba e revelou a MPB do “Paraíba” para todos os amantes da boa música.Seu pai foi um dos fundadores do partido comunista em Campina Grande. Sofreu influências políticas dele? Sem dúvida. Temperou minha vida toda. A gente tinha plenária pra tudo. Então no jantar a gente discutia tudo. Isso foi um exercício maravilhoso na minha vida. Isso me permitiu, por exemplo, ter uma visão crítica sobre tudo e sobre todos. Isso eu devo ao meu pai. Lógico que sim. Eu sou bem o fruto do, digamos assim, do irrequieto meu pai que era um cara que, bom…a história dele é muito bacana porque ele era um seminarista, ia ser padre e se apaixona por uma galega linda, a minha mãe. E aí ele foi um cara que me ensinou, disse, “olha a diferença entre um cristão e um comunista é porque enquanto um trabalha pra alcançar o paraíso depois de morrer, o outro quer o paraíso antes de morrer” (risos). Eu acho, evidentemente, que não é só isso, mas é uma maneira muito lúdica de ver as coisas, eu acho bacana. Tenho toda a influência disso.

 

Sair de Recife foi estratégico para a sua carreira? Não foi estratégico, foi falta de opção mesmo. Aqui a gente já tinha feito o que podia mesmo. Sofríamos na época de uma síndrome, Nelson Rodrigues já falava disso, a síndrome do vira-lata. Naquele momento tudo que era nosso não prestava, para o público médio pernambucano. Você não tinha interesse para o que era produzido, bom, mas isso faz muito tempo, viu minha gente? Eu sou um ser paleozóico, tudo mudou, hoje a gente tem um mundo de auto-estima maravilhoso, isso é fundamental pra gente crescer como cultura, como estado. Hoje é sem dúvida a maior referência cultural desse país. Eu to dizendo isso e não posso nem ser acusado de bairrista, eu não moro mais aqui, eu posso dizer com muita isenção. Mas na minha época, realmente o que a gente podia fazer a gente já tinha feito, junto ao “Flor de Cactos”, que era uma banda daqui que a gente tinha gravado uma produção independente. A  gente tinha uma banda chamada “Nós e Voz” que fez todo o percurso que poderia fazer, eu já tinha participado de todos aqueles festivais de cursinhos que aconteciam, eu tinha que, ou ampliar ou seguir outro caminho, eu resolvi ampliar.
Por que o Rio de janeiro? Eu tinha duas opções, ou São Paulo ou Rio. Naquele momento eram os dois grandes pólos culturais. E por uma questão marinha e uterina, porque o mar pra mim é uma questão uterina, eu fiquei no Rio de Janeiro. E bom, aí eu caí de pára-quedas numa cidade do interior, cravada no interior que é a Urca. Aí eu costumo dizer que eu saí de uma cidade grande que é Recife pra uma cidade do interior que é a Urca, onde estou até agora.Ficar longe da família foi uma decisão difícil ou foi tranquila essa separação por conta da busca profissional? É difícil, no início é muito difícil até pela ausência do passado. Vou tentar explicar. Uma das coisas mais engraçadas que tinha quando os meus amigos do Rio se reuniam e diziam “ lembram daquela época” e aquela época eu não tinha com ninguém de lá, porque aquela época eu tinha vivido aqui. Essa ausência de passado durante o tempo que isso durou era muito incômodo, porque eu era um estrangeiro, eu continuei sendo um estrangeiro o resto de minha vida, o que é muito bom porque dá uma sensação cosmopolita com as coisas, não sou de lugar nenhum! Mas os primeiros tempos foram incômodos, porque tinha isso. Aí eu me lembro do momento que esse ângulo de visão quando numa roda alguém falou “lembra do tempo da peteca no posto 9?” “Ô, me lembro”. Já fazia 12 anos do tempo da peteca, e eu fazia parte daquele passado. Então eu estou lá há 34 anos. É muito mais da metade do que eu vivi. Continuei sendo um estrangeiro. Levo Recife pra onde eu vou. Eu tô impregnado dele. É facílimo  encontrar na minha música esse Pernambuco. Fora dele as pessoas identificam justamente o que não tem de brasileiro no meu trabalho. E eu tô aí, enquanto tiver bambu tem flecha (risos)

 

 

Quais foram seus primeiros contatos profissionais no Rio de Janeiro? Como foi esse início de carreira? Beth Carvalho. A primeira pessoa que me recebeu foi o samba. O samba foi quem abriu as porta pra mim. Engraçado, a turma da MPB, quando eu chegueva dizia, “ele é meio rock and roll”, a turma do rock and roll dizia “ele é meio MPB”. E a gente não tinha nicho, nem eco do que fazia. Foi o samba. Beth Carvalho, antes de estourar com Cacique de Ramos, eu me lembro muito bem disso porque foi em 80, fevereiro de 80, eu tava numa paura danada, me perguntando “o que é que eu to fazendo aqui”, querendo arrumar um jeito de voltar, eu encontrei na praia um amigo e ele “o que é que tu tá fazendo?” E eu fui sincero, “tô tentando achar uma maneira de volta pra Recife. Eu não aguento mais.” Aí ele fez “Vá agora não. Venha aqui”. Me levou em casa, tomei um banho e ele me levou pra um lugar, Cacique de Ramos. Ali, eu não sabia onde estava. Só foi cair a ficha muito tempo depois. Eu tava ali, eu vi cantando pela primeira vez Zeca Pagodinho, pesava 59 kg, era um fiapo de manga (risos). Luis Carlos da Vila, Almir Guineto, Jorge Aragão.
Eu vi toda essa moçada antes dela acontecer no Brasil. E como eu não sabia onde eu estava, na hora em que começou a rolar o partido alto, eu digo, pô eu vim do Nordeste, repente eu faço decassílabo, alexandrino pô, aí o cara vem com uma quadrinha rimando só a segunda com a quarta, na segunda rodada já mandei um verso. Aí todo mundo olhou e disse “quem é esse Paraíba aí”. Aí ficou aquele clima, mas eu continuei sem saber onde estava e comecei a mandar verso, na terceira rodada, aí neguinho já começou a vibrar e entrei pra turma. E foi bacana porque todos esqueceram desse momento. Evidentemente que pra mim teve um impacto diferente, eu tava vindo. Depois eu fui me encontrando muito anos depois com cada um deles, participei de disco do Zeca, Arlindo Cruz, Sombrinha, todos ali muito próximos, mas toda vez que a gente se reaproximava eu dizia “pô, eu te conheço”, “de onde”, “Ah Cacique de Ramos, verão de 80”, aí olharam pra mim e fizeram” “Tu é aquele Paraíba!” (risos). Porque pra todos foi uma heresia, aquele menino ter chegado e feito verso com todos os grandes sambistas da época. Mas isso também me deu uma propriedade muito grande. Quando João, do Casuarina, diz, eu tenho influência do meu pai, e todo mundo não acredita, mas ele tava comigo, participou desse processo, então o samba foi a expressão que me abraçou quando eu cheguei no Rio. Eu tenho esse carinho totalmente especial.Você iniciou como compositor, teve muitas canções gravadas por artistas consagrados e posteriormente começou a cantar? Esse era o planejamento ou foi acontecendo naturalmente? No primeiro momento eu achei que eu poderia ser o intérprete de uma turma, Lula Queiroga, Murilo, Bráulio Tavares,todos meus irmãos de estética, mas a gente fez o primeiro disco, o Baque Solto e o disco não teve eco. Naquela época as gravadoras faziam disco pra bater o ICM, quanto mais produto você lançava menos pagava de imposto, então tome a fazer disco, então tinha disco que não lançava, só fazia o disco, gerava o imposto fiscal e tudo. A gente chamava nas internas que era disco espinha na bunda, porque só você sabe espinha na bunda, quando senta, ninguém vê. (risos) E isso foi interessantíssimo, porque o fato de não ter tido eco me levou a aprofundar a composição, a compor sistematicamente para todos os intérpretes e isso passou a ser um exercício e isso, bom, é o que eu faço até hoje.

Quem primeiro interpretou uma canção sua? Elba Ramalho

 

Deu sorte? (risos) Elba foi a grande madrinha, não só minha. Ela deu mais que sorte, ela abriu essa janela não só pra mim. Ela deu pro Lula, ela deu pro Bráulio, Ela deu pro Ivan Santos, ela deu pra toda uma geração. Ela foi principalmente uma mãezona praquela rapaziada.Além de compositor, cantor, também atua na área de produção e direção musical. Considera importante essa versatilidade artística? Tem o desejo da experimentação, mas teve também a falta de opção, cara. Eu passei a gravar porque ninguém queria gravar, eu passei a produzir meus discos porque ninguém queria produzir, aí eu disse, se ninguém vai produzir, eu mesmo produzo esse “diacho”. Aí eu fui lá pesquisar, procurar…por isso ficou muito associado fazer disco pra mim a uma atitude de pesquisa. Eu sou um cara curioso. Antes de fazer um disco eu quero saber quais são as ferramentas que eu tenho no mercado à disposição da minha criação. E eu faço isso sistematicamente. Eu gosto dessa procura, sabe? Ela é instigante pra mim. É uma entrega total mesmo. Não sei fazer de outro jeito

Você canta o amor, a vida, as relações, o quanto tem de suas próprias histórias e reflexões nas suas canções? Olha é sempre um pouco documental, e é sempre um pouco generalizado, mas tudo eu parto da experiência pessoal, tá impregnado de mim, tudo tá impregnado de mim, eu não sei em que dosagem.

Pelo Sport tudo? (risos) Sim, pelo Sport tudo, sempre, mas vamos mudar de assunto que a coisa não tá boa (risos)

Você tem inúmeras canções, mas conseguiria eleger aquela que você mais gosta de ter feito ou pela qual tem um sentimento diferenciado? Você perguntaria a uma mãe qual o filho mais bonito? Eu vou lhe dizer uma coisa, a gente tem sempre uma atenção maior com os filhos mais novos, aí nesse caso qualquer música do Chão é querida (risos).

Cantar em “casa” tem uma energia diferente? Lógico. Completamente diferente.  Até pelo apoio dos amigos, tem a família ali presente. As pessoas que apostaram durante a vida toda naquele caminho…é repleto de significados. Quando eu venho tocar em Recife é outra coisa sim.

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