O desejo de mudar somado a uma boa história pra contar, taí uma junção que pode render um belo sucesso de público. Foi o que aconteceu quando o diretor de comerciais publicitários Marcus Baldini resolveu que era hora de realizar um desejo antigo, ser diretor de cinema. Claro que não bastava só isso, é preciso talento pra contar uma história e forma corajosa e fiel sem ultrapassar os limites do bom gosto. E a polêmica Bruna Surfistinha terminou parando nas telas de cinema e sendo elevado a filme mais visto do ano até agora. O talento de Marcus ainda cativou a atriz Deborah Secco que sem pudores se despiu de rótulos e encarou juntamente nesse projeto de sucesso. Começando com o pé direito, Marcus tem garra e talento pra muito mais. O mundo da propaganda pode até perder um grande diretor de comerciais de sucesso, mas o cinema nacional com certeza ganhará um grande diretor de filmes capaz de arrastar multidões com ótimas histórias pra contar. Assim como essa entrevista.

Quando decidiu prestar vestibular pra Rádio e TV na ECA, o seu objetivo já era chegar ao cinema? Na verdade eu sempre quis fazer cinema. E na época achava o cinema nacional muito fraco, queria fazer algo. E o curso de Rádio e TV seria o caminho mais fácil para chegar até isso. Inclusive no ano em que cursei, foi numa turma que começou a juntar os cursos de cinema com rádio. E foi perfeito.
O que é mais difícil em um filme: conseguir um bom elenco ou uma boa verba? O mais difícil é ter certeza do seu projeto, é ter certeza em relação a seu filme. Ter um projeto legal. No meu caso foi difícil por que todo mundo tem um certo preconceito a figura da “garota de programa”, e isso cria uma rejeição muito grande. Isso dificultou para captação de verba. Os atores não, eles vieram de acordo com a construção do filme. Foi mais fácil, foi decorrente do processo.
Que significado tem pra você a célebre frase de Glauber Rocha: “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”? Essa frase é símbolo de uma geração, vem de uma liberdade estética mais autoral. Mais livre em função da arte, tipo colocar a câmera com leveza, como se fosse uma caneta. Passa uma forma mais lírica, passar uma idéia de fábula, e não uma linguagem documental.

O mercado publicitário atual está mais interessado a fazer campanhas que ganhem prêmios ou que vendam produtos? É difícil ter os dois? O que acontece hoje é que as mídias estão muito divididas. Tenho visto muita coisa legal na web, coisas muito mais legais para a internet que tem um descompromisso maior. Bem, a Nextel é um bom exemplo disso. Recentemente fiz um comercial para eles com Neymar e o pai. É mais divertido e interessante. Mas não sei avaliar o retorno. Isso é mais com o departamento de marketing. Mas um bom comercial tem que vender o produto. Agora conseguir vender o produto de forma inteligente, que mexa com as pessoas, é outra coisa. (risos)

Trabalha na MTV é tão legal e descontraído como parece? O meu trabalho na MTV foi muito feliz, num momento em que a MTV era mais descompromissada com audiência e mais focada em clipes. Era mais vanguardista. Um momento interessante. O meu trabalho era de fazer as chamadas, não participava dos programas, mas fiz muitos amigos lá. Foi o meu primeiro contato com o audiovisual que tive. Mas era legal por que me vi ali tendo acesso ao arquivo da fitoteca da MTV, e quando tinha uma folga, corria pra lá. Imagina eu ali com acesso a todos os vídeo clipes na época….

Programa de TV, publicidade, cinema… O que mais tem a ver com você? Eu acho que a linguagem que mais fala comigo é o cinema. Hoje ta difícil separar, a dramaturgia faz mais parte da publicidade. É essa linguagem que curto. Tanto que algum tempo atrás fiz a série “Natali” e mais recentemente a série “Pré-Amar” da HBO. Tenho vontade de trabalhar com dramaturgia, fazer cinema, séries de TV…
Quais campanhas te marcaram pessoal e profissionalmente? Aquelas que você tem orgulho de ter participado? Uma campanha da Kazin que fizemos, com um velhinho que pilotava uma moto… E eu ficava imaginando onde colocar o velhinho, ele empinando a moto… Na época inclusive ele deu entrevista para programas de esportes radicais. Muito bom. Outro filme que curto, foi da Grandene, com participação de atores e artistas… Teve também um cromo da HBO para a série “Aline”, que mais… uma campanha de bombom Garoto, Surreal…
Você acha que o cinema hoje está influenciando muito a forma de se fazer publicidade ou a publicidade que está influenciando o cinema? As duas coisas têm referências mútuas. Agora mesmo que voltei a trabalhar com propaganda, é um trabalho que envolve atores, direção de atores, referências de cinema.
Por que fazer um filme sobre Bruna Surfistinha? Então, eu estava no momento da minha inquietude, me sentindo limitado. Desde que comecei a fazer propaganda eu queria fazer cinema. A publicidade foi a porta de entrada. Não sou do tipo de diretor que senta e sai escrevendo um roteiro. E eu precisava de uma história pra contar. E Bruna surgiu nesse momento (2006). Li o livro e me interessei pela história. Eu achei que a personagem era muito interessante. Tinha uma ausência de culpa e um certo veneno nessa garota.
Pode-se dizer que Bruna Surfistinha é um divisor de águas na sua carreira? Ah foi! Do ponto de vista cinematográfico, não foi para mim só um lançamento de um filme, foi um debut no cinema. Um encontro comigo mesmo. Uma constatação do meu trabalho.
Foi muito difícil convencer Deborah Secco a se expor daquele jeito tão natural e provocante? Que argumentos você usou? A Deborah nunca foi um problema. Ela achou interessante a forma de contar a história dessa garota. Ela teve muita sintonia desde o começo. A Deborah realmente se dedicou, mergulhou na personagem. Até pelo histórico dela de personagens provocantes. Ela queria se desatrelar das outras personagens. Colocou-se de outra forma. Ela tinha uma vontade de fazer e não se preocupar em exibi-la de forma sensual. Não precisei pedir nada. Fizemos o filme sem limitações, depois fomos editando. As cenas de sexo são para contar a história. Já era um lado muito forte da personagem, não precisava mostrar além. Eu queria contar a história.
O filme já chegou à marca dos dois milhões de expectadores em todo o Brasil. Você esperava por isso? Eu sabia que existia um interesse muito grande para ver o filme por parte do público. E a gente já sabia do interesse da mídia. Mas eu tinha uma grande dúvida se seria bem recebido. Tenho satisfação pelo filme. Não tinha medida. Só esperava que as pessoas gostassem dele.
A que se deve esse sucesso todo? Qual é o doce veneno do escorpião? Eu acho que à história. As pessoas já tinham uma idéia pré-concebida. Ninguém vai ao cinema sem ser ter ouvido falar nele, de quem é a Bruna, de quem é Deborah Secco… A surpresa positiva que as pessoas tem, é um lado positivo da história é que as pessoas se deparam com o drama, a reflexão que o filme traz. Aí está o sucesso. E por que também todo mundo vê como foi feito com muita verdade, sinceridade por parte de toda a equipe.
Por que correr é fonte de inspiração pra você? Correr é meu yoga, meu mantra. Você vai correndo e extravasando tudo, sua cabeça vai se esvaziando. É uma forma de me comunicar com o presente. Quando estou com a cabeça muito cheia, muito tenso, corro pra desatar os nós, ter idéias…
E o que te inspira daqui por diante? Eu tenho um projeto novo, o “Sonho Verde”. Que é a história de um playboy da zona sul de São Paulo que sai de férias e cai num garimpo de esmeraldas. Lá ele tem que se virar para sobreviver naquele ambiente. É o primeiro projeto que eu estou escrevendo (o argumento), por que a história vem depois, o roteiro.
Se cinema e publicidade é seu trabalho, o que seria seu hobby? O que curte fazer pra relaxar? Pois é complicado por que na minha profissão tudo está interligado de alguma forma. Quando chego em casa não consigo olhar a TV. Então pra relaxar eu curto a corrida… Cozinhar e ler. São as três maneiras que relaxo, quando não estou curtindo com minha filha.

Por: André Porto e Nadezhda Bezerra
Fotos: Divulgação
Agradecimentos: Daniela Bassit e Caroline Medeiros (www.pontotres.com.br )
Agradecimento especial a Marcus Baldini

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