A simpatia e bom humor de Mouhamed Harfouch fazem dele um cara querido por todos e premiado por seus trabalhos que transmitem justamente o espírito do cara gente boa que é. Um carioca de origem síria que tem uma enorme satisfação e realização pessoal pelo seu ofício que é a atuação. Seja no teatro ou na TV, Mouhamed tem um jeito natural e descontraído de interpretar personagens carismáticos. Seja um personagem infantil ou um caricato, como o que interpreta agora, o Farid, Tufik e Said, na novela da Globo das 18hs, “Cordel Encantado”, todos são admirados e conquistam o público e a crítica. Conheça um pouco mais desse carioca de nome diferente e talento sem igual.

Mouhamed Harfouch, com um nome desses já sofreu alguma saia justa em viagens internacionais?! Não. Nunca!  Mas quando quis ir para a Disney, minha namorada e sua mãe tiveram visto de 10 anos e eu de seis meses… achei curioso. Mas isso foi antes do 11 de setembro, agora acho que serão seis dias. Brincadeiras a parte, sempre fui bem tratado em viagens internacionais. Não tenho do que reclamar.
Você é brasileiro de origem síria, como vê os conflitos no Oriente Médio? Nenhuma espécie de radicalização ou intolerância pode resolver qualquer conflito seja aqui ou lá. Sou a favor sempre da liberdade de expressão e da democracia. Estamos vivendo um momento especial onde os regimes autoritários terão que aprender a repensar o dialogo com seus povos ou enfrentarão cada vez mais dificuldades.
Com uma bela história no teatro, ir para a TV é uma ordem natural ou era um objetivo? Não sei… acho que é uma ordem natural para o ator abrir portas com seu trabalho. Acredito no teatro como a melhor vitrine para mostrar possibilidades e potenciais. Nunca gostei de colocar DVD em baixo dos braços e correr atrás de portas na televisão. Embora, reconheça que, às vezes, seja preciso. Mas hoje, vejo a TV com produtores muito interessados em descobrir novos profissionais e o teatro é uma grande janela! E claro, que a TV potencializa o seu trabalho de uma maneira impressionante! Te dá um alcance de comunicação incrível! É muito prazeroso quando podemos conciliar ambos.

Você já recebeu prêmios no Teatro, está em busca disso na TV ou eles são apenas conseqüência de um trabalho bem feito? Na verdade, recebi um prêmio só. De melhor ator num festival internacional de teatro. Mas fazia parte da Cia. Pop de Teatro Clássico, onde tivemos vários trabalhos premiados. Bom, acho que não devemos trabalhar buscando prêmios. Isso é uma conseqüência realmente. É claro que é muito prazeroso ter seu trabalho reconhecido. Mas já vi muitos grandes trabalhos que não foram premiados e que até hoje me inspiram. Isso é tudo muito relativo. Acredito no crescimento do aprendizado diário. Se no caminho for premiado, melhor ainda!

Clara Machado foi um das grandes autoras de livros e peças infantis e deu nome ao prêmio que você conquistou. Como você lida com crianças? Na verdade fiz uma peça chamada “A menina que perdeu o gato enquanto dançava o frevo na terça-feira de carnaval” que ganhou o prêmio Maria Clara Machado na categoria preparação corporal. Era um espetáculo dificílimo porque a gente fazia da cintura para cima, um boneco mamulengo e da cintura pra baixo a gente dançava frevo. Isso ao mesmo tempo! Um negócio de doido! Amo criança e acho que o teatro infantil é o melhor caminho para formar novas platéias. Faço parte do CBTIJ,  (Centro Brasileiro de teatro para a infância e juventude) que há anos vem realizando um trabalho muito sério na valorização do teatro infantil. A nossa grande mestra Maria Clara Machado sabia dessa importância e o seu legado é a maior prova disso! Um dos meus primeiros trabalhos na TV, foi como o Romeu no programa “Teca na TV”, do canal Futura. Fiz durante duas temporadas e amei trabalhar pra elas e com elas! Criança é instinto, intuição, curiosidade e verdade! Eu nunca paro de alimentar a minha criança interior, isso é fundamental no meu processo criativo.

Carioca, você está estrelando uma novela ambientada no Nordeste, cujo título tem a ver com uma das expressões da cultura nordestina que é o Cordel. O que você conhece desse tipo de literatura? Em 2001, fiz o espetáculo “Auto do Novilho Furtado” de Ariano Suassuna. Durante a minha preparação entrei em contato com a literatura de Cordel, seus poemas, versos e xilogravuras. O que sempre me encantou é a forma artesanal, rústica e poética com que os cordelistas espalham sua cultura através dessa arte. Agora em “Cordel Encantado” estou tendo a oportunidade de revisitar esse Nordeste tão rico que sempre foi celeiro de grandes artistas!

Você e Emanuelle Araújo são muito amigos. Como é contracenar com ela em “Cordel Encantado”? Eu e Emanuelle estreamos juntos em novelas. Foi em “Pé na Jaca” de Carlos Lombardi em 2006.  E curiosidade: Essa é a minha terceira novela e a terceira novela em que trabalhamos juntos! Ou seja, só fiz novela junto com a Manu, o que me dá uma imensa satisfação! Ela é uma atriz maravilhosa, intensa, criativa, que gosta do processo de construção de personagens. Nos falamos sempre, trocamos muitas idéias sobre nossos papéis, sobre a novela, enfim, sobre tudo! Está sendo muito especial estarmos juntos neste trabalho tão lindo que é “Cordel Encantado”!

Pelo jeito seu personagem em “Cordel Encantado” é um mulherengo bem engraçado. Farid tem algo de você? O Farid é um personagem maravilhoso, um presente para qualquer ator! Um artista que faz de tudo para manter suas três mulheres!  Ele ama intensamente essas mulheres e não pode viver sem elas, daí vem sua comicidade que aumenta na proporção em que o cerco vai se fechando e o perigo de ser pego fica iminente. Ele usa três nomes diferentes, um pra cada mulher: Farid, Tufik e Said! É um cara simpático, do bem, elegante e bom de papo! Se o Farid tem algo comigo? Sim, mas não na poligamia! (Risos) Bom, sou descendente de sírio, portanto, fazer o Farid me faz mergulhar na minha origem e isso é muito bacana! Além disso, essa personagem tem uma alegria de viver que eu também tenho.

A comédia sempre foi sua área preferida? Onde se sente mais à vontade, na comédia ou no drama? Fiz muito mais comédia do que drama. E isso por si só já me deixa numa posição mais confortável fazendo comédias. Mas acho que a região do conforto para o ator é sempre muito perigosa. O desconforto nos traz crescimento. Por isso quero exercitar o drama, para não atrofiar. Mas, sem obsessão, sem crise. Nada do tipo, agora quero ser conhecido como um ator dramático, sabe? Na minha carreira, fiz personagens que eram sérios e não se inclinavam nem para um lado, nem para o outro. Como era o caso do Almeidinha em “Cama de Gato”, onde pude conhecer a Thelma e a Duca! Foi fazendo esse papel que fui convidado por elas para fazer Cordel. Olha, mas adoro fazer comédia. Sou do tipo que acredita que a menor distância entre duas pessoas é uma boa risada!
Qual a parte mais gratificante de ser ator e qual a pior parte? Qual o ônus e o bônus da profissão? A parte mais gratificante, sem dúvida, é o poder de dialogar com as pessoas. Saber que o seu trabalho toca alguém em algum ponto. Seja até mesmo incomodando. Ajudando no processo de transformação, amadurecimento ou no simples entretenimento. Isso é muito valioso, e o carinho que a gente recebe seja na rua, ou na saída do teatro é um belo exemplo disso. Acho que esse é o maior bônus dessa profissão sem dúvida. O ônus pode ser encontrado na dificuldade de ser artista e levar esse projeto adiante. Vi muitos grandes colegas ficando pelo caminho por falta de oportunidade. O mercado ainda é pequeno pra tanta gente talentosa que esse Brasil produz! Mas está melhorando…
Você usa de técnicas artísticas na hora da conquista ou somente o charme natural? Segundo Augusto Boal, usamos a arte até fazendo sinal para um ônibus parar. Logo, não poderia deixar de lado a arte na hora da conquista. Mas, acho que a uso de forma inconsciente e isso poderia ser considerado um charme natural, né? (risos)
Como você cuida do corpo e da mente? Procuro me exercitar diariamente. Faço academia e adoro umas boas partidas de futevôlei nos finais de semana. Pra mente, boas leituras sempre são grandes soluções. Mas confesso que tenho andado disposto a entrar numa aula de meditação ou Yoga. Acho que o segredo tá em equilibrar a mente cada vez mais.

Você acha que hoje em dia tem se dado muito valor ao sucesso profissional para definir quem somos realmente? Acho que sempre houve um pouco disso. É claro que se pensarmos que a maior parte das nossas vidas passamos no trabalho, uma realização profissional tem um peso muito grande. Mas isso é muito subjetivo. Pois realização não necessariamente está ligada a palavra sucesso. Pelo menos não esse “sucesso” idealizado pela grande maioria. O que é o sucesso pra um pode não representar o mesmo para outro.  Na minha profissão isso se dá de uma forma engraçada. Se o ator não faz televisão muitos acham que ele é desempregado. Por várias vezes quando me perguntavam qual era a minha profissão e eu respondia ator, muitas vezes ouvia: Como se nunca te vi em novela? É engraçado isso não é? Acredito que o sucesso profissional chega mais rápido quando sabemos quem somos e o que queremos para as nossas vidas.

Na sua opinião, qual o principal defeito das mulheres? E dos homens em relação às mulheres? Se importar com os detalhes! E o maior defeito dos homens é não acreditar que os detalhes fazem a maior diferença!

Qual seu momento “válvula de escape”, que você precisa ter para relaxar e ter que enfrentar mais um dia de trabalho e rotina? Me divertir! Seja namorando, seja na companhia de amigos, seja lendo um bom livro, fazendo uma viagem, vendo um bom filme ou jogando uma boa partida de futevôlei. Algo que me faça desprender dos problemas para depois encará-los com mais frescor.
O que faz ou já fez você meter o “Pé na Jaca”?  Quem me fez meter o “Pé na Jaca” foi o produtor Luciano Rabelo, que me indicou para fazer a novela do Carlos Lombardi que tinha esse mesmo nome! (risos) A ele devo muito!
Entrevista: André Porto e Nadezhda Bezerra
Fotos: Rodrigo Lopes
Agradecimento: Bia Serra – Montenegro & Raman
Agradecimento especial a Mouhamed HarfouchAcompanhe a MENSCH pelo Twitter: @RevMensch e pelo Facebook: Revista MENSCH