Fazer entrevista com Nelson Freitas antes de tudo é uma terapia do riso! Já tínhamos idéia de que o cara era uma simpatia e, como ele mesmo diz, sem frescura. Mas ele se superou! Nelson nos contou sobre a vida dura da época da Marinha Mercante, e da não menos dura, vida do ator em início de carreira. E detalhe, em ambas, o bom humor de Nelson supera as adversidades da realidade. Talvez aí esteja a lição de vida e o exemplo que ele pode nos passar. A arte de fazer rir é uma dádiva. E o bom humor é uma terapia sem limites e sem contra-indicações. Vamos conhecer também um pouco do Nelson músico, que acreditem, foi vocalista de uma banda. Assim como seus inúmeros personagens, Nelson possui inúmeras facetas, todas elas levadas sempre com muita alegria e disposição. Recomendamos que depois de ler a entrevista, releia naqueles dias em que as coisas parecem não dar certo. Te garanto, será um santo remédio! Com vocês, Nelson Freitas…

Nelson, você parece ser um cara bem humorado independente de ser humorista. É verdade? À que se deve isso? Sempre fui muito otimista em relação às agruras da vida… fui muito cedo, aos 13 anos para o Colégio Militar de Salvador, depois para o de Belo Horizonte, o que me deu uma cancha pra me adequar aos espaços e pessoas, descobrindo ainda moleque que o humor facilitava o caminho. As pessoas gostam de estar ao lado de gente bem humorada, e assim fui sendo sempre o palhaço pelos nichos por onde passava. Virou quase que um instrumento de defesa… Se a barra pesa, instintivamente me vem uma merda na cabeça e eu acabo quebrando o gelo.

O que você guarda dos tempos da Marinha Mercante? Foi uma época sensacional, principalmente o tempo de escola, que foi quando eu vim pro Rio de Janeiro em 1981, ainda com resquícios de irresponsabilidade e aventura pertinentes a idade, numa cidade fervendo de atrativos, embalados por RPM’s e Legiões Urbanas,  hormônios a flor da pele, sem um puto no bolso, mas o coração cheio de expectativa… Nossa turma na EFOMM era da pá virada… Fazíamos festas homéricas e numa dessas acabei montando uma banda na escola, tocávamos os sucessos da época Blitz, Dusek, Leo Jaime era um barato… Eu era o vocalista e “moléstia” à parte eu dava no couro…  achava que dava pra arriscar uma vida artística, aí fui fazer um curso de teatro, depois que eu deixei a Marinha, e não parei mais de trabalhar como ator. Mas a vida a bordo de navios é um pé no saco… Imagina você ficar um mês dentro do edifício que você trabalha… Vai ao terraço, no 3o andar, no térreo, mas não pode sair… Era interessante porque o “prédio” rodava pra cassete, Europa, USA, Canadá, Índia, mas putz… tava enlouquecendo… aí fui pro teatro e enlouqueci de vez…

As pessoas costumam te pedir pra contar piadas pelo fato de você ser humorista? Muito… Mas o que mais acontece, é o sujeito querer me contar uma piada… e em lugares mais inusitados, velório, supermercado, aeroporto, eu acho que isso acontece com a maioria dos comediantes, mas dependendo da aproximação e da disponibilidade, as vezes se garimpam algumas preciosidades.

Como foi seu início de carreira e como chegou ao Zorra? Aquela ralação de sempre… Faz um teste aqui, encontra uma turma ali, monta um texto sem saber exatamente onde apresentar, peça infantil, dinheiro nenhum, divide um Miojo, late no quintal pra economizar o cachorro… Eu ainda tinha uma gordura pra queimar dos tempos de marinharia, mas a necessidade faz a ocasião, e num desses testes fui chamado pra fazer uma minissérie na Manchete chamada “Rosa dos Rumos” do também estreante Walcyr Carrasco dirigida pelo Del Rangel e fui “fondo” até que depois de protagonizar uma novela ao lado da minha querida Flávia Monteiro em “Chiquititas”, que era gravada na Argentina, e os diretores não falavam português, eu subverti o personagem que era ranzinza amargo, bem argentino… e transformei ele num palhaço divertido, bem brasileiro… Quando voltei o Sherman me capturou pro Zorra, e foi um encontro magistral na minha vida.

O Zorra Total está a 11 anos no ar, é difícil manter o fôlego em um programa com tanto tempo no ar? O Zorra é um remanescente dos grandes humorísticos dos primórdios da TV brasileira, como “Balança Mas Não Cai”, “Faça Humor, Não Faça a Guerra”, “Planeta dos Homens”, “Chico City” e tantos outros que imortalizaram o humor de bordão, que hoje com tantas transformações advindas de internet, TV à cabo, se tornou um dinossauro que resiste… Mas resiste porque o povo gosta, porque é inocente, despretensioso, e que ao longo desses anos foi se formando um time muito afiado, que delega ao programa índices imbatíveis no horário. Nosso ambiente de trabalho é uma delicia, e chegar no estúdio e encontrar aquela turma toda, é quase que terapêutico… ou seja, eu não trabalho… eu me divirto, e isso não tem preço.

Qual dos seus personagens é um xodó pra você? O meu favorito é o “Carretel”… quando pensei nele, me apareceu a Fabiana Karla no pedaço e a dupla se formou. Ela tem um tempo de comédia e uma inteligência cênica extraordinária. Chegamos a um ponto que não ensaiamos mais… Liga a câmera e deixa ver no que dá… Mas não posso deixar de lembrar do Leozinho e sua “inoxidável” Márcia que foi um grande sucesso, e se tornou um marco na historia do programa.

Cinema, teatro, TV, falta o que pra você fazer? Falta ter o meu próprio programa… Mas estamos trabalhando nisso.

E essa coisa de cantar? Pensa em fazer algo mais profissional na área? Pois é rapaz, essa eu ainda tô me devendo… No espetáculo que tenho feito já há 4 anos o “Nelson Freitas e Vocês” onde tive a honra de ser dirigido pelo meu maior ídolo, o Chico Anyzio, eu solto os cachorros cantando algumas coisas entre um bloco e outro, mas esse ano eu tô pensando em fazer um novo show com mais apelo musical, com uma banda, um naipe de metais, e tentar resolver essa coisa mal parada que eu tenho comigo mesmo… A verdade é que hoje depois da revolução que o mercado da música sofreu com a internet, a gente pode fazer uma guerra de dentro de casa… Então nem que seja pra registro pessoal, sem pretensões de reposicionamento de carreira e o escambau, alguma cartola pode sair desse coelho… heim?

Quem é sua referência no humor brasileiro? Ah mole… Chico Anyzio. Esse é um monstro… É uma pena que ele esteja passando por momentos tão difíceis, com a saúde debilitada ainda no hospital, e não tem um dia que eu não pense nele, e rezo muito pra que ele consiga se recuperar. O Chico é um patrimônio da cultura brasileira e um dos caras que criaram o radio e a TV no país. Costumo dizer que qualquer papo com ele é uma aula de vida.

Você consegue se ver interpretando um papel sério, dramático? Acha que seu público iria gostar ou o humor é um caminho sem volta pra você? Pô eu tô fazendo 25 anos de carreira. Comediante eu “estou” há 10… é que como acabei conquistando meu espaço no humor, existe uma identificação maior. Tenho um couro bem curtido no teatro e minhas incursões recentes no cinema, são em papéis dramáticos, “Demoninho de Olhos Pretos” de Haroldo Marinho, “Espiral”de Paulo Pons, “Casamento Brasileiro” de Fauzi Mansur, mesmo no “Muita Calma Nessa Hora” do Bruno Mazzeo, meu personagem tem uma pegada dramática, então não tem essa de caminho sem volta… Se o projeto tem um conteúdo, não importa se é drama ou comédia. Se é bom, eu tô dentro.

É mesmo verdade que homens que fazem a mulher rir levam vantagem? Coração de mulher é que nem circo… sempre cabe mais um palhaço…

Geralmente quando o cara faz muito sucesso o assédio feminino aumenta, com você também foi assim? Eu penso que vai muito da postura de cada um… Evidente que à medida em que você ganha visibilidade, as pessoas se acercam mais, seja pra tirar uma foto, trocar uma idéia, fazer um comentário sobre o que você tá fazendo etc… Mas comigo é raro acontecer de tomar um “tiro” assim do nada… é mais a curiosidade de fazer um contato com uma pessoa famosa, e eu acho que se o sujeito passa a vida toda tentando ser famoso, quando consegue, vai se incomodar com isso? É um pouco incoerente concorda?

Se na hora H a coisa não funcionar, qual a melhor saída? Isso já aconteceu com você? Pô mano, se alguém disser que nunca, tá mentindo… São mistérios da bioquímica, essa infâmia masculina, porque pro homem não tem enganação… ou tá ou não tá… a mulher pode perder o trem no meio do caminho que passa batido. Pra gente é um mico… mas a matura idade vai te trazendo alguma cancha e a gente aprende a negociar consigo mesmo… olha pro dito cujo e diz: “quer morrer fdp?” Desencana, muda o foco e volta pro combate… se persistirem os sintomas, apela… vai na farmácia e mete um azulão pra tirar a má impressão na próxima… (risos)

Você parece ser um cara vaidoso apesar de parecer muito desencanado com isso? Como lida com a vaidade? Nunca fui de muita viadagem, mas a profissão exige que você esteja apresentável, afinal a gente entra na casa de uma porrada de gente sem pedir permissão, é só apertar o botão do controle remoto… e a gente não quer ninguém dando com a sua cara na TV e dizendo: “eita que esse cabôco tá gordo ó pra isso???” Mas não uso muita coisa não… um pó na cara na hora de gravar pra não parecer aquele bêbado ensebado e vamo que vamo.
Pelo que já foi visto em programas de TV você adora viajar com a família. Que lugar marcou mais? Tenho uma filosofia de investimento na vida, e boa parte do meu suor eu gasto viajando. Mas tem um país que por questões emocionais até, eu sou vidrado: Austrália… é uma espécie de Brasil que deu certo… um país tropical, cercado de praias lindas por todo lado, e um povo educado, alegre e que respeita suas leis. Minha filha mais velha mora lá com o meu neto Felipe, que está com 7 anos, e sempre que posso, me pico pra lá… O difícil é que é longe pra dedéu, eles moram em Gold Coast o que aumenta a viagem ainda mais, chegando por Sydney são 28 horas de vôo, contando com as conexões, mas vale todo o esforço.

Que situações te tira do sério e fazem você perder o humor?  Já que falamos de Austrália, o que me tira do sério é viver num país que você reconhece que tem todas as condições de ser um lugar fantástico, no entanto a impunidade que reina por aqui faz com que a natureza desse povo seja tão deselegante… Vivemos numa bandalha tão arraigada na sociedade, num sistema tão corroído e corrupto, que nem que você queira, você consegue fazer as coisas do jeito certo… a burocracia, as leis, e as regras são instrumentos dessa devassidão cretina, que faz a gente se sentir na idade média… Isso é um pé no saco… E tira o humor de qualquer cidadão.

Que é de fato engraçado na TV hoje em dia? Que programas te diverte? Tenho que confessar que apesar do Zorra Total ter um apelo popular exagerado, eu me divirto muito com os meus colegas do programa… é uma delicia ver a Fabiana Karla, a Katiússia, a Samantha, Marcos Veras, Renato Rabelo, Rodrigo e Talita e toda aquela gente dorê soltando os cachorros, e desfolhando um rosário de talento.

O que é uma zorra total? O que acabei de dizer… Mauricio Sherman nosso diretor, que é um craque desde que a TV foi introduzida no Brasil, criou esse programa pra tapar um buraco na grade naquela época, e lá se vão 12 anos no ar… Então vale aquela frase: quem não tem competência, não se estabelece… o Zorra é isso.. um show de competência à serviço da comicidade e do entretenimento para todas as idades.

 

Quer saber mais sobre Nelson Freitas? Acesse o site oficial: www.nelsonfreitas.com.br