O grande público pode só ter conhecido o ator pernambucano Rodrigo García agora com seu personagem feroz e violento na série “Onde Nascem os Fortes”, mas os festivais de cinema, críticos e um público mais descolado ligado em filmes e séries mais diferenciadas sabe bem que ele é. Dizer que Rodrigo é talentoso é chover no molhado, o cara é visceral e dedicado ao ponto de deixar de lado vaidade, pudores ou vícios que alguém possa carregar. É o que se percebe no seu histórico de personagens (e não são poucos) em atuações marcantes em filmes como “Tatuagem” e “Amor, Plástico e Barulho”, ou em séries como “Me Chama de Bruna”, na FOX, “O Hipnotizador” na HBO ou em “Mil Dias”, atualmente no ar pelo History Channel, que conta a saga da construção da cidade de Brasília, interpretando o engenheiro Mauro. Fiquem de olho nele, esse rapaz ainda vai dar muito o que falar. Enquanto isso, confira nossa entrevista.

Depois te tantos anos de carreira, filmes, peças, estrear na Globo em uma série de sucesso teve que peso para você? A TV aberta é uma consequência natural para o trabalho do ator no Brasil. É onde atingimos um grande público também. Os diretores nos conhecem e sabem que fazemos bem o nosso ofício, mas muitas vezes não nos chamam pra trabalhar por que a produção precisa de nomes que atraiam público. Acredito que o trabalho na TV aberta acaba derrubando essa barreira.

Como surgiu o convite para atuar em “Onde Nascem o Fortes”? Fiz um registro/teste com o Daniel Wierman (pesquisador da Globo) e logo após fui chamado para um teste com os diretores. O Zé (José Luiz Villamarim) não estava na sala no começo do teste, fiquei um pouco decepcionado, pois tinha assistido suas obras anteriores e queria conhecê-lo. No final do teste, num improviso, o Lamartine (assistente de direção) fingindo que era um coronel, começou a humilhar meu personagem. Explodi de raiva no improviso! (risos) Coincidentemente o Zé entrou na sala neste momento e, após uma conversa breve, ele disse que eu faria a série.

Deu um frio na barriga quando começou a filmar? Não me senti nervoso na hora de gravar, estava seguro. A equipe da série é ótima e gentil. E quando um ator chega com o personagem bem estruturado na cabeça e no corpo, tem tanta coisa pra se priorizar em cena, que o nervosismo fica no último plano.

Seu personagem Jurandir é um jagunço dos dias de hoje no sertão. Como foi a construção dele? Fez algum estudo ou laboratório? Meu estudo maior foi sobre a psicopatia. As coisas que o Jurandir faz são extremamente desumanas e egoístas. A única maneira de justificar as ações dele, para mim, seria através da completa falta de empatia. Passei dias lendo e assistindo vídeos sobre psicopatas. Era pesado. Quando acabava o dia me sentia mal, sem ar. É um lugar muito obscuro e animalesco. Mas nas cenas foi ótimo usar isso como regras de um jogo.

Na série você reencontrou os atores Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa com quem trabalhou no filme “Tatuagem”. Se sentiu mais em casa? Como foi esse reencontro? Me senti em casa logo no primeiro dia nos Estúdios Globo (antigo Projac) cheguei a dizer que parecia que estávamos gravando cinema em Recife por que a cada 20 minutos encontrava algum conhecido na equipe (risos). Na primeira leitura geral grudei em Jesú que foi me tirando dúvidas sobre os “costumes da casa” (risos). Pena que não contracenei nem com ele e nem com Iran. Mas foi ótimo trocar com eles mesmo fora de cena.

Você já interpretou travesti, mestre de obra e agora um capanga (só para cintar alguns tipos). Tem preferência por personagens mais densos e dramáticos? O desafio é maior? Adoro me camuflar em cena, psicologicamente e fisicamente. Prefiro os personagens densos e dramáticos sim, mas os personagens mais comuns também me interessam como transformação. O negócio é que se você vai estudar pra ser outra pessoa, você acabará vendo claramente as diferenças entre você e a personagem, e isso naturalmente vai exigir mudanças radicais para os personagens mais complexos. Acredito que, por mergulhar no que faço e por atingir facilmente uma carga dramática mais intensa, eu acabo atraindo personagens extremos.

A TV, tanto aberta ou fechada, tem se espelhado muito na estética do cinema hoje em dia. Como você percebe isso? Isso acabou trazendo as equipes do cinema para as produções de TV. No final das contas é como se estivéssemos fazendo cinema mesmo. A qualidade das obras para TV acabou melhorando. Vejo claramente uma melhora na interpretação dos atores. As coisas se tornam mais reais e menos caricaturais. As pessoas que assistem acreditam mais nas obras.

As séries internacionais tem influenciado muito as séries nacionais no acabamento, formato e conceito. Você já participou de “Me Chama de Bruna” na FOX e “O Hipnotizador” na HBO. Como foi participar desses trabalhos. O que acrescentaram para você como ator? Como profissional, este novo mercado acabou me levando adiante. Foi importante para minha carreira. Ganhei mais exposição quando comecei a fazer cinema e acabei sendo convidado e trabalhando mais por causa desse sistema de séries que reproduzem o cinema.

Por falar nisso, é fã de séries em geral? Se sim, dá pra citar algumas? Adoro! (risos). Assisto por puro entretenimento, sem compromisso nenhum com a Arte. Algumas preferidas no momento são “Game of Thrones” e “Big little lies”. Mas cresci vendo “Friends” e “The Nanny” e às vezes vejo séries trash só por causa da interpretação de um ator, como é o caso de “American Horror Story” que eu só via por que achava incrível como a Jessica Lange se virava no meio de tanto non-sense! (risos).

Você participou de dois longas-metragens, “Tatuagem”, de Hilton Lacerda, e “Amor, plástico e barulho”, de Renata Pinheiro. Filmes que fizeram sucesso nos festivais mas que o cinema mais comercial não chega a exibir. Como isso te toca? O que falta para o grande público e o cinema comercial interagir melhor? O “Tatuagem” teve ótima repercussão no circuito comercial, principalmente em Recife, passou semanas em cartaz, mas reconheço que outros filmes fizeram muito mais sucesso de bilheteria. A Arte em seu estado mais puro nem sempre é compreendida por todos. Às vezes penso que não é pra ser, pois geralmente é algo novo que vem para reestruturar. A maioria das pessoas é resistente a reestruturações e gosta mais de assistir coisas fáceis ou superficiais. Algumas outras não conseguem se interessar e chegam a ter aversão às obras que não retratam a camada “padrão” da sociedade (mas o que é padrão???). Nessa época, das mil e uma opiniões virtuais, estamos vendo claramente a horrível intolerância que existe. Não espero que pessoas assim sentem para assistir algo que elas abominam sem nem mesmo conhecer. É triste assim. Só estão perdendo, pois são filmes incríveis feitos por artistas talentosos e respeitados por pessoas que entendem de Arte.

Por “Tatuagem” você ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Festival de Cinema do RJ. Esperava por esse prêmio? Que importância teve para você? Isso de premiação acabou me botando numa polêmica. Não ganhei o Kikito em Gramado, apesar de terem ressuscitado os prêmios de ator e atriz coadjuvantes (que não existiam mais já há alguns anos no festival) me apontando como vencedor mais provável. Declarei então que o premio deveria ter sido meu. Mas claro que não era, já que não foi (risos). Entendi que é por isso que uma banca de jurados muda, por que o voto é algo muito pessoal para cada jurado. Logo depois ganhei o Redentor de ator coadjuvante no Rio e ganhei também o APCA de Melhor Ator de Cinema e mais um outro prêmio no festival de Anápolis. Adorei e sou grato pelos símbolos de reconhecimento do meu ofício. Mas, passado o tempo, tudo serviu como aprendizado de como reconhecimento nem sempre vem com prêmios instituídos.

Como você vê o cinema pernambucano no cenário nacional e internacional? Por que Pernambuco tem produzido tanto nessa área? Os artistas pernambucanos tem completa liberdade na hora de fazer seus filmes. Isto é essencial para qualquer obra de arte. As leis de incentivo são os maiores aliados nestas produções, não podem ser extintas por governo algum. Em Recife somos expostos a conversas políticas e filosóficas numa simples mesa de bar. Não dá pra trabalhar relevando coisas importantes quando a expectativa ao redor é alta. O sucesso nacional/internacional é o resultado de boas obras.

O que te distrai nas horas vagas? Filmes, amigos, família, bar, TV, redes sociais (risos). Viajar. Adoro natureza: praia e cachoeira.

O que você mais deseja como ator? Trabalhar sempre e frequentemente. Passei por alguns anos sem muitos trabalhos, principalmente no começo. Vários colegas de profissão passam por isso. É muito triste. Na velhice também sei que é difícil para os atores continuarem trabalhando com frequência.

Você é um cara vaidoso? Como isso se reflete em você? Herdei da minha família o cuidado com a aparência. Me cuido muito, mas a atenção é mais com o corpo/pele do que com a moda. Não sou consumista. Aparento ser mais novo do que a minha idade e quero parecer saudável sempre. Quando tenho algo nos dentes ou na pele, vou logo resolver. Mas quando o assunto é trabalho, não tenho vaidade alguma. Às vezes acho meus personagens esteticamente horrorosos e adoro (risos).

Depois dessa estreia na Globo soubemos que você já foi escalado para um futuro trabalho dentro da emissora. É verdade? Pode nos adiantar algo? Então… outra polêmica (risos). O jornalista que divulgou isso não recebeu a informação de mim. Prefiro não falar sobre isto ainda. Mas estou bem feliz com o resultado e conquistas deste trabalho! Vamos aguardar para ver se vai rolar mesmo (risos). O mesmo jornalista se confundiu e deu a entender que um diretor chegou a xingar a minha mãe para obter resultados ao me dirigir. Expliquei aqui acima (na segunda pergunta) que o ocorrido foi durante um improviso e que ninguém desrespeitou a minha mãe. Deixo isso claro por que sou completamente contra diretores e preparadores abusivos. Sou um ator e sei chegar onde eu quiser sem que abusem de mim. Também esclareço isso aqui pra deixar claro que meu diretor sempre foi completamente ético e gentil comigo. Sou pura gratidão e admiração em relação a ele, que me deixou completamente à vontade para ser o personagem que eu havia construído.

Fotos Sergio Santoian

Produção e estilo Ju Hirschmann

Produção de moda Gabriela Garcia

Beleza Michele Lima

Agradecimento @_casaeestudio

Rodrigo veste: LOOK 1: Camisa e terno @ricardoalmeidaoficial / LOOK 2:Blusa manga longa @vrcollezioni, calça @malweeoficial / LOOK 3: Jaqueta preta @riachoelo, calça @lojayoucom, tênis @louboutinhomme