Antes de qualquer coisa, a idéia do homem de capa da MENSCH é trazer um cara que seja um exemplo em sua profissão. Um homem que chegou lá e tem uma bela história de vida pra contar. Pois bem, nosso entrevistado da semana, o técnico de efeitos visuais Rodrigo Teixeira, é o tipo ideal para ser nossa capa. Além de uma referência no seu campo de atuação, tem uma bela história que serve de exemplo pra muita gente. Uma história de perseverança, dedicação e sonhos. Sua trajetória profissional começou há pouco mais de 11 anos atrás quando numa sala de cinema em Porto Alegre, ao terminar de assistir o filme Independence Day, descobriu onde gostaria de chegar: do outro lado da tela. Foi assim que começou a sua jornada até mudar-se para Califórnia e depois de muita ralação está aqui às vésperas de mais um consagrado trabalho ser indicado ao prêmio maior da indústria do cinema, o Oscar. O filme da vez é o recordista de indicações desse ano, “As Invenções de Hugo Cabret”, de Martin Scorcese, que levou 11 indicações, inclusive de efeitos visuais. Trabalho que coube a Rodrigo e seus colegas mais uma vez. Bem, melhor mesmo é ler a entrevista e conhecer um pouco mais desse cara que está fazendo toda a diferença em Hollywood e se tornou um novo mago dos efeitos visuais da atualidade.

Independence Day é um filme de ficção sobre a união das nações para salvar a humanidade e foi também o filme que te inspirou. Não é uma ligação bacana que tenha sido justamente a união dos seus amigos que fez você superar as primeiras dificuldades quando seguiu seu sonho e foi para os EUA? Acho interessante a maneira de como conheci cada um dos meus amigos que tive a oportunidade de trabalhar nesses últimos 11 anos. Primeiro conheci o Ben que me levou na fogueira na praia para conhecer o Volker Engel, depois o Adam Watkins e o Brandon Davis (o Brandon não pode estar conosco no Hugo porque estava trabalhando no Adventures of Tintin na Nova Zelândia) e o Alex Henning durante o Ring of the Nibelung que depois acabou me levando para o Sin City. Fico muito feliz por ver cada um deles evoluindo cada vez mais e tudo isso torna o nosso trabalho muito mais agradável. Ainda sobre Independece Day… Sabe quando algo chama você? Quando eu vi o logo da Fox, antes do filme, tive uma sensação estranha. Ainda não entendia o que era. O que pensei foi: ‘Como eu faço para sair daqui e ir para trás da tela? Estou sentado nesta cadeira, vendo um filme em Porto Alegre. Mas qual é a distância até o outro lado?’ Senti que tinha de sair, fazer algo acontecer. Foi quase como uma paranóia: ‘Para onde vou? O que faço?’ Fiquei obcecado.

Rodrigo, como foi no início nos EUA? Que dificuldades enfrentou? Foi difícil. Sempre que ia viajar, alguma coisa acontecia. Sempre algo relacionado a dinheiro. Eu juntava a grana e tinha de usar para alguma outra coisa. Então, em 26 de fevereiro de 2001, durante o Carnaval, fui para São Paulo e finalmente embarquei para Los Angeles, com apenas 500 dólares no bolso. Fui morar em West Hollywood, na casa de um ex-vizinho (também Rodrigo) de Porto Alegre que trabalhava no famoso restaurante brasileiro Bossa Nova. Rodrigo Dorsch era gerente e disse que talvez pudesse conseguir um trabalho para mim. ”No primeiro dia eu já gastei 150 dólares. Fui a lugar onde se faz cópia de fitas e fiz cópias do meu material. No dia seguinte, outro amigo que estava visitando o Rodrigo me mostrou onde ficavam os ônibus. Todos os lugares em que eu queria ir ficavam em Santa Mônica.

Então, coloquei as fitas na mochila, e aí começou a história. Estava sozinho, debaixo da sola do sapato do bandido. Às vezes pensava no que estava fazendo com a minha vida. Se você olhar o tempo em fevereiro de 2001, vai ver que choveu quase o mês inteiro. E não chove nunca em Los Angeles. Eu caminhei mais da metade dos dias na chuva. Saía de West Hollywood com os endereços dos lugares que tinha de ir, e nada disso era programado, eu ia e batia na porta. Não tinha celular, então ligava com moedinhas de um orelhão em um shopping. Contava uma historinha sobre ter vindo do Brasil e perguntava se podia entregar meu material. Às vezes parava na praia e tinha de caminhar até 30 quadras até o local aonde desejava chegar.

Como foi descoberto? Como surgiu o primeiro emprego? Depois de ralar o dia inteiro, eu só ia para casa de madrugada e no dia seguinte começava de novo. Então passei por um lugar na Sunset Boulevard e comecei a ler os serviços que o estabelecimento prestava. Computação gráfica era um deles. Apesar de não ser o que eu estava procurando, resolvi bater na porta para deixar minha última fita. Quando abriram, eu comecei a falar o texto que dizia em todos os lugares em que pedia trabalho. Dessa vez, quando disse que era do Brasil, uma mulher me puxou pelo braço dizendo que eu estava atrasado. Sem entender, esperei na recepção até que um homem chegou e me abraçou dizendo que estava feliz em me ver. ”Como tá o Marcelo?”, Quando perguntei quem era Marcelo, o homem falou que Rodrigo era muito engraçado. Em seguida, disse que eu poderia começar na segunda. Assustado, finalmente perguntei o que estava acontecendo e o homem explicou que, no dia anterior, um amigo do Rio de Janeiro havia ligado dizendo que um cara do Brasil iria bater na porta pedindo emprego e que precisava ajudá-lo.

Eu mal conseguia acreditar. Durante os anos de 2001 e 2002, fiz somente trabalhos pequenos. Daí eu conheci um cara que ficou meu amigo, Ben Grossmann. Um dia, Ben me ligou e disse que ia ter um luau na praia e que eu tinha de ir, pois teria uma galera de cinema que eu precisava conhecer. Chegamos ao luau e um cara de barba começou a perguntar quem eu era, o que eu fazia. Falaram que eu era do Brasil e ele queria saber minha história. Disse que estava tentando realizar um sonho, mas não queria falar na frente de todos. Ele insistiu e eu contei que assisti a Independece Day e isso mudou minha vida. O cara só me respondeu: ‘Engraçado, esse filme também mudou minha vida. Foi meu primeiro Oscar.’ Ele era Volker Engel, supervisor de efeitos visuais do filme. Um ano depois, Volker me ligou e me ofereceu um trabalho, um filme pequeno. No meio desse filme apareceu a oportunidade para fazer outro, de um amigo dele, que precisava de algumas mudanças. O filme era O Dia Depois de Amanhã e o diretor era Roland Emmerich, o mesmo de Independece Day.

Os Nibelungos têm algo de especial pra você? É um projeto muito especial pra mim, pois foi a minha primeira grande chance de fazer efeitos em um filme e foi através desse que surgiu a oportunidade de fazer “O Dia Depois de Amanhã”.

E como foi essa história de cair num buraco? Num desses dias, eu estava caminhando em um beco, todo molhado, sujo de barro. De repente pisei em um buraco, caí e machuquei minha perna. Quando saí do buraco, cheio de barro e folhas, percebi que havia perdido o papel com os endereços. Comecei a chorar. Eu precisava dos endereços para o resto do dia e ainda eram 9h da manhã. Para um cara que estava controlando o dinheiro do ônibus, era o fim. Esse negócio doeu bastante e eu voltei caminhando. Mesmo que tivesse o papel, não poderia chegar aos lugares assim. Lembro de passar pela Universal Music, pela MTV e pensar: ‘Eu estou aqui na frente de todos esses lugares bacanas, mas nem sei se vou conseguir fazer parte disso’.”

Algumas cenas de “Superman Returns” foram cortadas depois do preview por não ter aceitação do público. Foi uma frustração pra você?
Na época foi, pois trabalhamos uns três meses em quase 15 minutos de filme onde o Superman volta a Krypton, mas no final o filme ficava com mais de três horas então a seqüência inteira foi cortada. Eu escutei falar que a Warner tinha soltado esse material numa edição especial recentemente e estaria até no youtube, mas não quis ver, pois o material nunca foi finalizado por completo.

Arrepende-se de ter “largado” o basquete pelo cinema? Não me arrependo, mas gostei muito e até certo ponto da minha vida tinha certeza que o basquete seria o meu futuro. Tive certeza até à tarde que fui ao cinema assistir o Independence Day! (risos)

“Keep Walking”. Mais que um slogan, um mantra pra você? ‘No caminho que eu fazia no início, tinha um billboard do Johnny Walker que dizia ‘Keep Walking’. Eu lembro de que quando via essa propaganda, sentia que estava no caminho certo, que precisava continuar caminhando. Todos os dias torcia para chegar logo ali, para ler aquele billboard e me sentir melhor. Cada vez que passo por desafios ou momentos difíceis lembro-me de “keep walking” e o quanto isso ajudou na conquista do meu sonho. Como diz o meu pai, a vida é um quebra cabeça e as pecas com tempo vão se acertando, portanto “continue andando”!

“Ninguém vai tirar minhas vitórias emocionais de mim. Eu me lembro das caminhadas, do dia em que caí no beco. Sempre me lembro desses momentos e da garra que eu tinha durante aqueles dias. São as coisas que me fazem vencer, que me fazem continuar caminhando.” Não esquecer das dificuldades torna cada vitória mais saborosa? Não esquecer as dificuldades ajuda a manter o equilíbrio e dar o valor merecido às conquistas sem deixar isso subir a cabeça. A vida é uma montanha russa cheia de altos e baixos, portanto precisamos aprender com cada derrota e usar essa energia como base para fortalecer nossas vitorias.

O que em “Alice” foi mais difícil e mais prazeroso de se fazer? Em Alice eu tive a oportunidade de trabalhar na sequência onde ela atravessa o pântano pisando nas cabeças decapitadas pela rainha. O mais difícil foi lidar com a escala dela em estéreo 3D, mas foi um projeto artisticamente tão rico e a iluminação foi tão linda que tiramos isso de letra. Trabalhar em um time de amigos torna tudo mais fácil e prazeroso.

3D, palavrinha mágica pra você ou palavrinha que permite você realizar mágica para outras pessoas? No inicio era uma palavra mágica pra mim, hoje o que me dá mais prazer é criar mágica para as outras pessoas, saber que eu fiz parte de algum sentimento bom que você teve ao sair do cinema, mesmo que ninguém nunca saiba quem somos e como foi feito.

Como é isso de você inserir “pequenas assinaturas” suas nos filmes, como O “T” na placa do carro de Bruce Willis em “Sin City”? Isso começou de uma forma engraçada durante o Day After Tomorrow quando o diretor Roland Emerich pediu para colocar um logo da NASA na estação especial perto da câmera. No dia seguinte eu tinha colocado o logo do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e não falei nada. Quando entramos no cinema para mostrar a cena ele apontou na tela com um laser e perguntou o que era aquilo. O Volker Engel respondeu… O Rodrigo é brasileiro e colocou o logo do INPE ali e o da NASA mais pro lado menor. O Roland só respondeu: ótimo! Nada mais justo já que a estação é internacional! Cada filme foi assinado por nós de uma forma engraçada ao ponto que no 2012 fui inserido na cena de destruição de Los Angeles onde estou no meio da rua tentando escapar da freeway que desaba!! (risos)

Consultoria tecnológica em mais diversos setores, como surgiu essa nova área de atuação profissional? No final do Superman em 2006 e decidi tirar umas férias de efeitos visuais e queria explorar outras áreas onde poderia aplicar a tecnologia que usamos em cinema. Uma das grandes vantagens de trabalhar em uma área tão criativa e técnica é que você tem acesso a tecnologias que só vão entrar no mercado daqui alguns anos. Portanto comecei a aplicar isso em outros setores (financeiro, saúde, militar, aeroespacial, educação, museus, óleo e gás, segurança, cassinos, etc…). Hoje isso traz um bom equilíbrio com os filmes e a mudança de terreno criativo me mantém afiado.

O Brasil só nas férias ou tem planos de voltar a morar e trabalhar aqui? Não tenho planos de morar agora pelo rumo que a minha vida tomou aqui, mas nunca se sabe, sempre estou de portas abertas para futuras oportunidades e mantenho um contado quase que diário com os amigos daí. Há anos atrás tive a oportunidade de trazer os meus pais pra cá e isso fez toda a diferença já que é o alicerce do meu caráter.

Trabalhar ao lado de grandes atores e mitos do cinema como Martin Scorcese ainda dá um frio na barriga ou o mito já se desfez e virou apenas colega de trabalho? Isso é estranho, porque sempre a ficha só cai depois que o projeto vai aos cinemas e você começa ver os cartazes na rua e a repercussão do filme. Estamos tão focados durante a produção e temos uma responsabilidade tão grande que não tem espaço para tietagem. Normalmente o frio na barriga só vem quando você esta dentro do cinema na estréia, escondido no fundo esperando a reação do publico.

O que você pode nos contar sobre Hugo, que você filmou com Scorcese? O Hugo foi um projeto de efeitos invisíveis em grande escala, algo que eu já queria fazer há anos. Foi difícil para nós no começo fazermos essa roda toda começar a andar, já que tínhamos por volta de 500 pessoas espalhadas em nove países. Mais uma vez eu tive a oportunidade de trabalhar com o mesmo grupo de amigos lá do começo (Ring of the Nibelung) e isso sempre torna tudo muito mais fácil. O Ben Grossmann (que esta concorrendo ao Oscar), Adam Watkins e eu ficamos aqui em Los Angeles montando todo esse quebra-cabeça, enquanto o nosso outro amigo Alex Henning (que também concorre ao Oscar) ficou em Londres comandando toda a operação Européia. Desde o começo já sabíamos que seria grande o desafio de fazer um filme 3D de efeitos que fosse confortável para os olhos, mas no final todo o trabalho durou quase 14 meses, valeu a pena. Ficamos muito felizes com as 11 indicações ao Oscar.

Você é um homem realizado? O que deseja do futuro? Se pudesse, naquele cinema em POA com 19 anos, abrir uma porta no tempo falar com o Rodrigo de 35 anos de hoje. Nunca iria imaginar que já aos 28 teria realizado os meus sonhos em cinema. Portando sou realizado e muito grato por todas as dificuldades que passei ate hoje e mais feliz ainda por ter as pessoas que amo por perto acompanhando toda essa jornada. Do futuro eu desejo estar aberto para percorrer novos caminhos nunca esquecendo dos princípios que me ajudaram a conquistar o sonho que hoje é minha realidade. Em momentos difíceis da minha vida eu li essa frase da Eleanor Rosevelt que resume muito bem essa minha jornada pela busca dos sonhos. “O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos”

Assista o making of completo do filme “As Aventuras de Hugo Cabret”:

Fotos: Capa: Lewis Payton http://www.lewispayton.com/
Ensaio no Griffith Observatory em Cinemascope: Andre de Souza
Makeup: Bruna Nogueira e Tina Soares-Sherer
Rodrigo veste: Ermenegildo Zegna
Agradecimentos: Paramount Pictures

 

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