Por André Porto / Fotos Sergio Santoian

Sérgio Dalcin era um cara simples do campo, com uma viola em mão e muitas canções em mente, que como ele mesmo diz nessa entrevista, “do interior, da roça, da infância correndo atrás de passarinho, riacho…”, até que sua outra veia artística o tocou e ele começar a expor sua arte na dramaturgia. Foi no Rio de Janeiro que o cara simples do Paraná se deparou (e tirou de letra) com grandes musicais e o rock mais pesado. Para coroar tudo isso ele faz sua estréia na telas de cinema com um polêmico, e importante, personagem no filme que conta a história do cantor e compositor Renato Russo, “Somos tão Jovens”. Com um personagem que é o seu oposto, Sérgio Dalcin provou que não tem barreiras quando se trata de música e atuar. E isso é só o começo, afinal vem muito ainda pela frente!

O que veio primeiro na sua vida, a vontade de atuar ou de cantar/tocar? E isso foi mesmo aos 10 anos de idade? A vontade de cantar com certeza veio primeiro na minha vida. Aos domingos lá no interior do Paraná em almoços no sítio do meu tio, me apaixonei de cara quando o vi cantando e tocando as modas de viola. Na seqüência, quase que ao mesmo tempo em que comecei a cantar, dei início também as aulas de violão. Isso por volta dos 10 anos de idade, ao contrario da atuação, que só fui pensar aos 20 anos, quando me mudei pro Rio de Janeiro.

Você consegue dizer o que te dá mais prazer? Cantar é minha vida, me dá muito prazer, mas não acredito que se possa cantar sem colocar a emoção certa em cada palavra, e aí que uso o lado ator, para interpretar a música. Um precisa do outro, o prazer é dobrado.

Participar de musicais seria uma forma de atrelar essas duas vocações artísticas? Acho que é uma forma generosa que o teatro musical nos dá de poder unir esses dons.

Ultimamente o público brasileiro tem descoberto os grandes musicais, com peças conhecidas mundialmente como o musical Hair, no qual você participou. Você acredita que o publico de teatro está se diversificando ou surgindo um novo público? Acho que um pouco de cada. Estamos ainda numa fase de mutação, tanto na liberdade de se recriar espetáculos de sucesso quanto para a criação de musicais inéditos. Graças ao mercado que cresceu bastante nos últimos anos, o público teve a oportunidade de ter mais acesso. A meu ver, os grandes responsáveis por esse crescimento no Brasil, por terem tido a coragem de acreditar nos musicais, são os diretores Charles Möeller e Cláudio Botelho, a quem sou muito grato.

Por falar em Hair, poderíamos dizer que é o tipo de peça/musical que todo ator que canta deveria viver essa experiência? HAIR foi um divisor de águas na minha vida e carreira. Pra mim foi uma experiência inesquecível, e com certeza seria para qualquer ator, por lidar com uma emoção a flor da pele o tempo todo. Temas da década de 60 infelizmente ainda atuais como preconceito racial, moral, drogas, a busca inconstante pela paz e amor entre as pessoas, decidir pela guerra ou paz, isso e muito mais estão imbuídos em HAIR e todo ator deveria sim vivê-lo.

 

Atualmente você está no musical “Milton Nascimento – Nada Será como Antes”. Você já tinha alguma afinidade musical com a obra de Milton Nascimento ou surgiu depois da peça? Na infância, fui convidado a cantar na igreja em homenagem aos estudantes a canção “Coração de estudante”. Foi a única ligação que tive antes da peça, mas graças a Deus e novamente ao gentil convite da dupla, pude conhecer e contemplar as lindas canções de Milton Nascimento.

Algum momento especial durante a peça? Algum momento que te toque mais que talvez te dê um nó na garganta? A peça é toda especial pra mim, mas dois momentos são mais marcantes sim. Em “Coração de estudante”, justamente por ser uma música de Milton que canto desde criança e que me traz lindas lembranças, e hoje aos 29 anos poder cantar: “E há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor, flor e fruto…” é compreender tudo que meus pais me ensinaram. Outro grande momento é na canção “Morro Velho”, esta mexe muito comigo também porque fala exatamente da minha vida, do interior, da roça, da infância correndo atrás de passarinho, riacho… É a terra, vivo ali não o personagem, mas a minha história.

Alguma dificuldade em atuar e cantar ao mesmo tempo? Não, mas busco sempre me aprimorar em ambos.

 

Como a música está sempre em sua vida, parece que sua estréia no cinema tinha que ser através dela não é? Afinal você está no elenco de “Somos tão jovens”, sobre a vida de Renato Russo. Como foi participar desse filme? O que teve de tão especial para você? Foi uma grande oportunidade que o diretor Antônio Carlos da Fontoura me deu. Poder conhecer Brasília, por onde toda uma geração de bandas nasceu ou passou, o punk rock…, poder mergulhar nesse universo que influenciou Renato e as grandes possibilidades de autoconhecimento como artista. Foi enriquecedor.

Fala um pouco do filme e do seu personagem, Petrus… “Somos Tão Jovens” se inicia no ano de 1973 e segue contando a história de Renato Manfredini Junior, artisticamente Renato Russo. Traz suas descobertas como músico, seus dilemas e seus anseios, o conflito com sua doença na infância e a vontade de mudar o mundo com uma banda de rock e a sua música. Meu personagem é o Petrus, apelido do André Pretorius, que por não encontrarem nenhum familiar a autorizar os direitos de uso do nome verdadeiro, ele é chamado no filme apenas pelo apelido. Petrus foi um dos fundadores do “Aborto Elétrico”, banda formada por ele, Fê Lemos e Renato Russo. Filho de um embaixador da África do Sul, já trazia consigo muitos conflitos internos por ter um pai racista. Apaixonado pelo Punk Rock e por Sid Vicious (baixista Sex Pistols), quando se muda pra Brasília em 1978, Petrus conhece Renato e Fê, e formam o “Aborto Elétrico” sendo o guitarrista da banda. Dois anos depois, deixa a banda pra servir o exercito na África do Sul.

 

Foi um grande desafio viver esse roqueiro, pois as únicas referencias que tive foram os irmãos Alex e Phillippe Seabra (Plebe Rude), Carmem (irmã de Renato) e Carminha (mãe de Renato). Cristina Bithencourt (preparadora de elenco) auxiliou bastante na construção do personagem. No distante paralelo, sou sertanejo, tranquilo, do campo, já ele totalmente explosivo, punk, revoltado e transtornado e usuário de drogas. Tive também que tingir meu cabelo de loiro, pois ele era assim.  O desafio de aprender a tocar guitarra pro filme, a dificuldade em tecer um sotaque inglês britânico de quem está falando português morando em Brasília por 2 anos. Deveres esses cumpridos graças a saudosa irmã de Renato, Carmem Manfredini que me ajudou no sotaque, e Carlos Trilha (diretor musical) na guitarra. Petrus foi um presente.

 

O que você gosta de ouvir? De tudo, mas especialmente rock e sertanejo.

É comum músicos usarem seu dom musical para seduzir alguém. Com você não é diferente? Nunca tive essa concepção, sempre lidei com a música com muito amor e respeito. O desejo sempre é de emocionar o público e não seduzir.

Você é mais vaidoso como homenagem ou como artista? Quando essa vaidade se mostra? Acredito que todo mundo é um pouco vaidoso, por uma questão de amar a si próprio pra poder amar o outro. Mas tenho uma mania com meu cabelo. (risos)

Quais os próximos passos? Estou no processo de criação para o lançamento do meu primeiro cd solo, pra falar das minhas raízes, do meu sertão, da minha história. Me dedicar mais a minha música mesmo. Um grande sonho que está prestes a se realizar e que sou muito grato a Deus por tudo que está fazendo na minha vida.

Acompanhe a MENSCH no Twitter: @RevMensch, curta nossa página no Face: RevMensch e baixe no iPad, é grátis:http://goo.gl/Ta1Qb