Se você não acompanhou o trabalho fantástico na novela “Segundo Sol” ou não conhece a jornada dessa grande atriz em Salvador, você precisa ler essa entrevista urgente. Claudia Di Moura é uma mulher encantadora e uma referência nos dias atuais. Viúva, mãe de três filhas, atriz e estilista que respira e transpira arte, Claudia acaba de encerrar seu primeiro trabalho na TV com o sentimento de dever cumprido e consolidada como um dos grandes destaques de 2018. Aclamada pelo público, crítica e direção da novela, a atriz mostrou a que veio e fez bonito na pele da controversa Zefa. Resultado: Ficamos fãs e já torcemos para vê-la novamente em mais um belo desafio na TV.

Claudia, aos poucos Zefa foi tomando espaço e conquistou o público. Esperava por esse sucesso todo? Foi uma surpresa muito grande pra mim, até porque a personagem sempre foi controversa. Apesar de maternal e amorosa, suas motivações eram um grande mistério e causaram diversos questionamentos ao público. Mas esse mesmo público constantemente saiu em sua defesa e direcionou a ela (e a mim) seu carinho e cuidado.

O que foi mais desafiador nessa personagem tão cheia de segredos e sentimentos reprimidos? Interpretar uma personagem como a Zefa, repleta de camadas invisíveis, foi um exercício de investigação. Nem sempre o roteiro dava as respostas que eu precisava para compor as emoções da personagem porque havia toda essa aura de mistério acerca de suas motivações. Então eu me pegava fazendo as mesmas perguntas do público: por que ela faz isso? Por que tomou essa decisão? E eu precisava forjar a minha resposta para encontrar o status emocional da personagem e compor a cena sob o comando da direção.

Como surgiu o convite e como chegaram até você? O convite surgiu de Vanessa Veiga, produtora de elenco, que me viu em ação numa série baiana e compartilhou com o Dennis Carvalho. Em parceria com uma produtora local, a Globo entrou em contato comigo e, poucos dias depois, eu estava no Rio para o workshop da novela.

Você já é uma atriz bem conhecida em Salvador. Como foi esse início em sua terra natal e depois essa visibilidade nacional? Ser estreante na grande TV aberta com 33 anos de carreira é um privilégio, principalmente atuando numa novela das nove com um papel tão complexo e carismático. Meu histórico nos palcos e no cinema foi decisivo para que eu tivesse maturidade em administrar a rotina de gravações e representar tantas emoções que a Zefa trazia consigo, ora em segredo, ora à flor da pele.

Pelo que já percebemos, você é movida pela arte, seja na TV, teatro, cinema e até nas suas criações como estilista. O que a arte faz por você? O que te move sempre a favor dela? A arte é minha língua materna. Eu não sei dizer se não for através dela. Mais que um trabalho, é uma missão e a grande paixão da minha vida.

Por falar nisso, como surgiu a Claudia estilista? Foi uma consequência ou uma forma de dar suporte a Claudia atriz? Eu costumo dizer que ser mãe de meninas é brincar de boneca na vida adulta. De certa forma, esse exercício me preparou para que, mais tarde, eu viesse a usar a criação de roupas também como forma de expressão, vestindo grandes nomes da arte baiana. Não, necessariamente, foi minha forma de sustento financeiro porque nem sempre esse trabalho se pagou, mas já me salvou de alguns apuros que só quem faz arte no Brasil conhece bem. Hoje, quase quinze anos depois, sinto que a “Claudia Di Moura Rouparia” está trilhando um caminho de solidificação e, obviamente, a visibilidade trazida pela televisão pode colaborar nisso. Mas, como em todas as outras atividades artísticas que realizo, antes de tudo, a criação de moda é uma necessidade de expressão, de compartilhar uma visão de mundo através dos looks e dividir com meus clientes uma ideia de autocuidado, amor próprio e afirmação.

O que Zefa e Claudia tem em comum e o que tem de mais distante? O que nos une e nos separa é o amor. Se por um lado, tanto eu quanto a Zefa acreditamos no amor como elemento de transformação e redenção, por outro, apenas ela é capaz de se anular inteiramente em benefício de quem ama. Eu acredito que não há amor se não há reciprocidade. Colocar a todos acima de si mesmo é tóxico não só para si, como para os demais também.

Ficou algo ou emprestou algo? De resto, o que Zefa mais me deixou de herança foi o carinho do público que era parte devotado a mim e parte a ela mas, como eu a representava, recebi as duas partes.

Assim como ela, você parece ser uma super mãe. Como é sua relação com as suas filhas sendo uma mulher tão ativa e batalhadora? Que herança tem deixado para elas? Justamente por ser ativa e batalhadora, eu não sei o que seria da minha vida sem elas. Somos amigas, parceiras, confidentes. Para além dos laços familiares, elas são a certeza de que não estou sozinha, nos momentos de dor ou de alegria. E hoje eu me orgulho de mostrar a elas a confirmação de que fazer aquilo que se ama é recompensador e gratificante. Também mostro que não se deve baixar a cabeça diante dos obstáculos quando se tem um propósito construtivo.

Qual a maior função da arte? A arte é um espelho do seu tempo, tem por caráter refletir os anseios e receios da sociedade. E faz isso de forma crítica, pois enaltece o belo e denuncia o horror. Pode carregar nas tintas, pode ser feita sem nenhum recurso, pode ser espetacular ou controversa, mas sua matéria-prima é sempre o humano, aquilo que ele tem de mais poético e também de mais trágico.

O que te tira do sério e o que te coloca no rumo das coisas? O que me tira do sério é o preconceito, a tacanhez de pensamento, a cultura do ódio e da intolerância. O que me coloca no rumo das coisas, além da arte, é a fé em Deus e no humano, a fé em que cada pessoa é uma fonte inesgotável de histórias urgentes a serem contadas.

No eixo Salvador–Rio de Janeiro durante essa temporada com “Segundo Sol” o que te despertou como atriz? O que aprendeu nessa jornada? Foi a minha primeira vez no Rio e já cheguei no turbilhão das gravações, abraçada pelo elenco e pela equipe da novela. E depois teve a acolhida calorosa do público e da imprensa. O que mais aprendi foi a seguir com meu trabalho, com ânimos renovados e a gratidão pelo reconhecimento como atriz.

Atriz, artista, estilista, mãe de 3 filhas… No meio de tudo isso, algum preconceito por ser uma mulher tão batalhadora e independente? Sim, infelizmente. Por ser negra e autodidata, sempre tive que provar duas vezes o meu valor- o que não é novidade para mulheres como eu. Mas isso fez de mim uma artista obstinada e uma pessoa que não se quebra com facilidade.

Nas horas vagas o que mais curte para relaxar? Contemplação. Não apenas a contemplação da arte mas também na natureza e do humano, seus comportamentos imprevisíveis, diversificados e inspiradores.

O que te deixa mais realizada como artista e como mulher no meio disso tudo? Servir de inspiração para outras artistas negras que estão na luta pelo reconhecimento de seus talentos, ser um exemplo de que, a despeito de todas as oportunidades que nos são negadas, somos capazes de criar nossos próprios espaços de expressão.

Quais os próximos passos? Quando te veremos novamente? Sou uma mulher sonhadora e realizadora. Neste momento tenho o coração cheio de projetos para um futuro próximo.

Fotos Studio B. Art 

Maquiagem Diego Nardes

Cabelo Lucas Souza

Styling Alanna Campi

Locação Cidade das Artes