Fama, reconhecimento e invasão de privacidade fizeram parte dos questionamentos da atriz Mariana Xavier há algum tempo e foi alguns dos temas discutidos aqui nessa entrevista. Sempre leve e divertida ao falar desses e de outros assuntos, Mariana é uma delícia. Talentosa e dedicada, ela já se desafiou no “Dança dos Famosos”, e com personagens na TV e no teatro, seja com humor ou drama. “Eu não faço somente humor, eu sou uma atriz que faz qualquer coisa, o que me desafiarem a fazer”, comentou Mari. Sem papas na língua, Mariana também não deixa passar barato muita coisa e nem se intimidar por padrões estéticos. Segue livre e consciente de quem ela é e do que lhe faz bem, seja no trabalho, seja na vida pessoal. Sempre um prazer tê-la por perto.

Mariana a sua carreira como atriz surgiu nos anos 90 no teatro. É isso mesmo? Como aconteceu? É isso mesmo! Comecei a fazer teatro com 9 anos. Uma coisa na escola e no clube perto de casa no Grajaú que era onde eu morava. Eu era uma criança fazendo peça para outras crianças. Por que logo no início eu já entrei em cartaz com alguns espetáculos, eu adorava! E fora isso minha vó morava do lado da antiga Herbert Richers, que antes de existir o Projac era onde a Globo gravava algumas novelas. Então eu ficava ali na porta, tirando foto, pegando autografo dos artistas, e sonhando em um dia trabalhar na televisão em fazer uma novela. Inclusive fui figurante da novela “Top Model”! Olha isso, como entrega a idade.

Quando foi que você despertou que ali nascia uma atriz? Quando teve essa consciência? Desde muito cedo eu descobri, que gostava de fazer isso, eu gostava de emprestar o meu corpo, minha voz pra contar essas histórias. Eu falo que foi no teatro que aprendi tudo, o teatro me ensinou que eu queria ser atriz e não necessariamente ser famosa. Claro que eu gostava da ideia de ter meu trabalho conhecido e reconhecido. Mas eu via isso como uma consequência de um trabalho bem feito e não com objetivo. Inclusive muitas pessoas que me escrevem, perguntando falando “a quero ser atriz!” “me ajuda quero trabalhar na Globo” antigamente eu respondia todos. Porem hoje em dia e mais difícil eu ter tempo de responder, mas já respondi muitas vezes! Eu sempre dizia “opa! você quer ser atriz ou trabalhar na Globo?” Por que são coisas completamente diferente. Se você realmente quer ser atriz, se você descobre que tem amor pelo oficio, você vai ser feliz sendo atriz em qualquer lugar e não necessariamente na televisão.

E desde criança sonhava em ser bailarina… Era o sonho maior ou o de ser atriz superou? Então… Não! (risos) eu nunca tive essa pretensão de ser bailarina profissional. Quando era criança eu queria ser aeromoça, eu via um glamour na profissão. Mas bailarina não. Não sei como e é hoje em dia, mas na minha geração era muito comum colocar as meninas pra fazer ballet e jazz desde muito pequenas, mesmo que isso não fosse uma ambição pro futuro, uma ambição de profissão. Minha grande paixão quando eu descobri por volta dos meus 8, 9 anos foi de ser atriz. Dançar eu sempre gostei! Mas, de uma forma mais despretensiosa.

Quando você foi participar do “Dança dos Famosos” ano passado baixou a bailarina do passado? Como foi a experiência? Eu amei participar! Era um grande sonho da minha vida, eu tinha muita vontade de fazer a “Dança dos Famosos”, muita vontade de usar aquelas roupas, aprender ritmos com os quais eu nunca tive muito contato. Foi muito legal, muito especial. Uma oportunidade das pessoas conhecerem melhor a Mariana, desvincular um pouco dessa coisa de personagem. Foi muito legal, mas ao mesmo tempo muito tenso, não sei se faria outro reality. Por que é muita pressão e cruel, você saber que só tem uma chance, para acertar o que você passou a semana inteira se dedicando pra fazer, e sabendo que você está sendo julgado pelo tribunal implacável da internet. Enfim, e muita adrenalina. Foi incrível, não me arrependo de ter participado, foi muito muito legal. Fiz grandes amigos! Inclusive, o Leo meu professor foi um encontro de almas, eu falo com ele direto, quero levar pro resto da minha vida. Vale muito pelo tanto que a gente se descobre, se conhece, ultrapassa nossos limites. Mas eu descobri que prefiro dançar sem esse frisson da competição.

O sucesso de personagens na TV te trouxe uma visibilidade maior e com isso mais cobrança? Para você é algo natural ou precisou ir com calma? Sim, a visibilidade, inevitavelmente, gera mais cobrança, nem sempre justa! Por que quando você tá ali exposta, você é julgada muitas das vezes, equivocadamente. Por que as pessoas pegam informações pela metade, frases fora do contexto e tentam entender o que você falou naquilo e as vezes o que você quis dizer não era bem aquilo. Pra mim é uma questão muito complicada. Por ser muito transparente, já paguei um preço muito alto várias vezes, mas não quero perder minha identidade, minha essência. Acabo tento mais cuidado com as coisas que eu falo.

No seu canal de Youtube você fez um desabafo sobre crises de ansiedade por conta da fama. Como lida ou lidou com isso? Hoje sente que tem como controlar? Esse é um vídeo muito forte, muito honesto, revelador em que eu mostro meu lado mais frágil, vulnerável. Mas, eu fiquei muito feliz em conseguir fazer este vídeo. Porque faz parte das escolhas que eu fiz pra minha vida, de desconstruir o mito da celebridade, e mostrar que eu sou um ser humano como qualquer outro. Essa coisa de querer que a pessoa pública seja infalível é surreal. Ninguém consegue dar conta de uma expectativa deste tamanho. Então foi um processo bastante difícil mas muito importante de reconhecer essas fragilidades, conseguir buscar ajuda. Que isso e muito importante que a gente e muito orgulhoso, que quando temos uma dor física corremos para o médico mas as dores emocionais geralmente a gente vivencia. Eu acho importante dividir com as pessoas este momento, pra estimulá-las também a olharem para suas dores emocionais e buscarem ajuda. Eu acho também que quando a gente se expõe desta maneira, quando a gente se abre, fala a verdade ao mesmo tempo que a gente fica muito vulnerável a gente também fica mais forte, mais protegido. Porque se você reconhece publicamente que você é um ser humano, que você tem fraquezas, que você tem falhas, as pessoas acabam se reconhecendo nisso e você acaba tendo um álibi pra se você eventualmente fraquejar em outras coisas. Então é um vídeo que eu fiquei muito feliz, de ter tido coragem de fazer. Porque eu sei que foi um vídeo muito corajoso. Muitas pessoas falam até hoje: “Nossa, você é louca, pois você falou de coisas que são meio proibidas, você se arriscou muito”, mas isso sou eu né! Não seria eu, se eu não arriscasse. E eu gostaria muito que esse vídeo chegasse a muito mais gente.

Qual o ônus e o bônus da fama? Eu acho que ainda tem muito mais bônus do que ônus. E muito legal você saber que você e muito querido por muita gente, que as pessoas se identificam, torcem, se inspiram, é muito legal ser convidado para vários eventos legais, e ter oportunidade de conhecer pessoas que às vezes no anonimato são muitos distantes da nossa realidade. Isso tudo e muito legal. Mas como sempre digo, tudo na vida tem o lado bom e lado ruim e justamente esse que falei, nesse vídeo do youtube, que as vezes a pessoas esquecem que antes de você ser um artista você e um ser humano que precisa ter as suas fragilidades respeitadas.

Como lida com assédio e exposição indesejada? Eu procuro manter minha vida muito dentro da normalidade, talvez por isso as coisas tenham me incomodado tanto e me feito tão mau em relação a ansiedade. Por que me senti privada da minha liberdade de ir ao mercado, andar de metro de fazer coisas. Foi algo que me fez muito mal. Então, passado esse momento maior da ansiedade, eu continuo tentando levar a vida dentro da normalidade. Por que eu acredito muito, que este momento de fama pode ser profundamente passageiro, e eu não quero me acostumar a um padrão de vida, que de repente daqui um ano não vai ter como eu sustentar. Eu gosto de fazer tudo muito normal ir no mercado popular, andar de ônibus, metrô. Então, o vídeo como eu falei, ao mesmo tempo que ele me mostrou vulnerável, ele me protege. Por que a partir do momento que eu mostro para as pessoas, claramente, que determinado tipo de assedio me faz mal, me faz sentir invadida, agredida. Eu comecei a me sentir no direito de me posicionar em algumas situações, de estabelecer limites, de ficar mais quietinha, quando eu acho que não estou muito extrovertida. Então eu acho que tenho lidado de uma forma melhor com as coisas. Mas, tem situações que são muito difíceis, você se sente como um bichinho acuado, só que normalmente eu falo isso né. Mesmo nas situações desconfortáveis, eu gosto de ter um pouco de humor pra lidar.

Em geral seus personagens tem um bom humor mais aguçado. É uma preferência sua ou dos diretores? É uma demanda do mercado né!? As pessoas continuam me conectando muito a questão da comedia e a gente tem que trabalhar então a gente vai fazendo. Mas não é uma opção minha. Eu gosto muito de fazer comedia, e sei que faço comedia bem, mas faço drama muito bem também. Fico sempre esperando uma oportunidade de mostrar esse outro lado. Eu acabei de rodar um filme, em Brasília, que se chama “Rir para não chorar”, da Cibele Amaral, diretora. O que mais me encantou e motivou a aceitar o convite do filme foi justamente que o foco da comedia, não estava em mim. O filme é uma comédia mas muito sensível, uma comédia que fala sobre as perdas, que fala sobre o luto. Eu tinha cenas de muita emoção, e foi isso que me encantou. Espero ter muitas oportunidades ainda, de mostrar que eu não sou uma humorista apenas, eu não faço somente humor, eu sou uma atriz que faz qualquer coisa, o que me desafiarem a fazer.

Falando em humor, o que tira seu humor e como ele está presente na sua vida? Ele está presente na minha vida sempre. Eu em geral sou aquela pessoa que faz piada até do próprio mau humor. Eu sou terrível, tenho sempre uma resposta na ponta da língua. Eu acho que saber rir de si mesmo, é muito importante pra sobreviver no mundo de hoje. Agora o que tira o meu humor normalmente é desrespeito, me sentir invadida, me sentir desrespeitada ou ver desrespeito com qualquer outra pessoa. Grosseria e desrespeito são coisas que tiram o meu humor.

Sem dúvida a Marcelina do filme “Minha Mãe e uma Peça” é um dos grandes destaques na sua carreira. Repetiria a personagem mais vezes se necessário? O que te agrada nela? Sim, repetiria! Temos ai uma grande expectativa de rolar “Minha Mãe e uma Peça 3″. O Paulo Gustavo falou comigo informalmente que deve acontecer, filmar em 2019 e estrear 2019 ou 2020. Tomara que eu possa fazer, que as agendas de trabalho batam. O que mais me agrada nela… não sei se nela especificamente, mas assim o “Minha mãe e uma peça” e muito especial pra mim, foi o trabalho que me revelou pro Brasil em grande escala. E um elenco que tem muito entrosamento, muita química, muito gostoso de trabalhar e sempre muito feliz estar com essas pessoas, divertido e acho que por isso, que e um sucesso tão grande! Parece cliché mas acho que e muito verdade ” Quando e divertido pra quem está fazendo e divertido pra quem está assistindo”!

Hoje em dia você sente que a patrulha pela estética da beleza está maior ou mais democrática? Então, eu acho que as duas coisas ao mesmo tempo! Eu acho que estamos vindo num crescente de pessoas preocupadas em falar disso, em desconstruir esses padrões de beleza, em fazer as pessoas a se sentirem mais aceitas, menos cobradas, tem muita gente fazendo trabalho muito legal nessa seara de auto estima, auto aceitação, amor próprio de empoderamento. Eu sou uma delas né! Fico tentando muito fazer isso, hoje em dia, eu acho que a parte mais motivadora do meu trabalho é saber que estou transformando a vida de algumas pessoas de dentro pra fora. Mas ainda é muito grande o preconceito, ainda é muito grande a pressão estética, ainda é muito grande, principalmente, o desrespeito das pessoas. Nessa era da internet, todo mundo se sente muito livre, pra se esconder no anonimato, muito livre pra falar o que quer, pra ser agressivo com os outros nas suas casas virtuais. Entrar no perfil de alguém e falar essas barbaridades pra essa pessoa, é como bater na porta da casa dela pra falar a sua opinião. Eu procuro muito esclarecer as pessoas nesse sentido de que opinião todo mundo tem, mas o fato de você não gostar de alguma coisa, você não achar bonito, desejar um determinado corpo, não tira o direito daquele corpo de existir! Então eu acho que as pessoas estão precisando entender isso e pararem de ser desrespeitosas e agressivas.

Você já sofreu preconceito nas redes sociais. Algo infelizmente muito comum hoje em dia. Como lida com isso e que recado daria para as pessoas que já praticaram ou sofreram com algo assim? Para as pessoas que sofreram, sofrem e certamente ainda sofrerão por isso. O que eu quero dizer é… machuca de qualquer jeito, dói mesmo sendo injusto, mesmo sendo descabido sempre machuca. Mas o que eu acho é que temos que parar pra pensar que essas ofensas dizem muito mais sobre quem está fazendo a ofensa do que quem está sendo ofendido. Por que o que falo sempre “imagina que vida horrível essa pessoa deve ter, pra ela investir o tempo dela em ofender os outros na internet?” Ela não deve ter nada de mais agradável, nada que a faça feliz de verdade. Então é entender, que as vezes que nossa liberdade e alegria com próprio corpo incomoda essas pessoas, e que tudo que elas querem é tentar nos prejudicar, tenta fazer com que a gente vá para o mesmo lugar de infelicidade em que ela se encontra. É esse tipo de coisa que não podemos permitir.

Você já posou de lingerie e nesse ensaio está toda fatal. Quando se sente mais sexy? Qual a importância disso para você? Então, não tem muito uma regra. Às vezes me sinto profundamente sexy, assim toda mulherão como estou neste ensaio. Às vezes de lingerie, às vezes de uma forma mais despojada do mundo. Uma vez, a Paola Carosella falou uma frase em uma entrevista que me marcou muito: “Não existe nada mais belo do que uma mulher, que sente tesão pelo que ela é!”, e eu acho que esse é o ponto. Quando começamos a reconhecer o nosso valor, como conjunto da obra, como pacote completo, é isso a gente se reconhece em qualquer situação a gente dá valor à nossa essência.

Atualmente nos palcos com a peça “O Último Capítulo”. Como está sendo a temporada e qual o próximo capítulo? Neste exato momento, estamos em turnê! Voltamos pra estrada! É uma peça que amo fazer, estou fazendo desde maio de 2016, fez 2 anos. Dia 13 de julho, entraremos em cartaz em São Paulo. Eu estou muito feliz, porque apesar de ter muitos anos de carreira, principalmente, no teatro, eu nunca fiz uma temporada em São Paulo. Então, eu tô muito animada, por que São Paulo, tem uma super efervescência cultural, tem essa fama de ser um público que verdadeiramente prestigia o teatro. E eu tô muito feliz, em entrar em cartaz em um momento tão especial, frutífero da minha carreira. Com um espetáculo que gosto tanto de fazer. A gente fica até o dia 2 de setembro, de sexta à domingo, no teatro Itália. São 8 semanas. Depois, a gente volta pra estrada. Aí quero conhecer vários lugares do Brasil que eu ainda não conheço. Eu falo que uso a peça como desculpa pra isso, mas é por que é muito legal ter a oportunidade de levar a peça pra lugares em que muitas produções do eixo Rio x SP não chegam. Eu quero ir pro Acre, Rondônia, Roraima, eu quero ir pra onde for possível, eu quero brincar de War no mapa do Brasil!