Ela é leve, divertida e talentosa. Ao mesmo tempo pode ser densa, polêmica e ousada. Isso só vai depender do papel do momento. Regiane Alves é tudo isso e mais um pouco. Por conta de seus personagens, nenhum passa despercebido, ela pode ser amada ou odiada, como aconteceu com a personagem Dóris. Essa personagem é só mais uma na galeria de sucesso de Regiane. Recentemente ela interpretou a mau caráter Maria Clara em “O Tempo Não para”, e antes foi a vez da divertida Marli na série “Cidade Proibida”. Nessa entrevista descobrimos muitas outras “camadas” dessa atriz que nos encanta e nos enche de orgulho em ter na capa mais uma vez. Que venha muito mais. Por sinal vem mesmo, em dose dupla no cinema. Confere aí!

Regiane por um tempo você chegou a se sentir “refém” de Dóris? Que por mais que você fizesse outros papeis marcantes, a Dóris sempre estava presente no imaginário do público? Ainda está presente por incrível que pareça. Mas não me importo, pelo contrário me sinto orgulhosa por ter feito um papel tão marcante e que me abriram oportunidades para outros grandes papéis também.

Já foi difícil para você se livrar de uma personagem? Já sim, com o tempo a gente aprende a se distanciar mais. Depende muito se é uma personagem mais pesada, como foi o caso da Renata do filme “Isolados”, quando as filmagens acabaram eu fiquei uns 3 dias de cama. Ou como a Marli da série “Cidade Proibida” que eu amava ela e me distanciar foi bem dolorido, é como se alguém morresse e você tem que viver aquele luto. Uma viagem logo após o trabalho ajuda muito.

E quando o seu santo e o dela não batem, como seguir em frente e passar verdade? Eu senti isso fazendo a Clara de “Laços de Família”, ela era bem chatinha e mesmo assim tive que fazer lá da melhor forma possível, por um lado é bom você olhar e entender o outro ponto de vista. Minha profissão me ajuda a entender mais a alma humana mesmo não gostando da personagem.

Ao longo desses 20 anos de carreira na TV que avaliação você faz dessa trajetória? De muita persistência, de dar uma passo de cada vez, nunca parar de estudar e um pouco do sorte. Mas dizem que a sorte é você estar preparada para as oportunidades, talvez eu nunca tenha acreditado no sucesso ou que já tenha chegado ao topo. Sempre quis e quero me tornar uma atriz melhor.

Dá para citar os momentos mais “fáceis” e difíceis da carreira? Acho que o início é bem difícil pois você precisa de alguém que acredite no seu talento. Difícil também, quando você faz um sucesso grande e esperam que o próximo trabalho seja igual ou melhor. A instabilidade da carreira é algo que a gente precisa sempre trabalhar a cabeça, o tal do sucesso e do fracasso. Se torna fácil quando você tem bons companheiros ao seu redor, passar a arrebentação fica mais fácil quando tem alguém que segura na sua mão e diz vamos juntos o que não posso fazer sozinho.

Em que fonte você bebe para procurar inspiração para compor uma personagem? Cada personagem é um processo. Eu gosto do processo de criação, ainda mais no teatro. Prefiro ensaiar do que fazer a peça por incrível que pareça, é a hora que cresço como pessoa e atriz. Depois é só cumprir. Às vezes um perfume te inspira, uma cor, um animal, um trabalho corporal, um laboratório, livros, filmes, séries, observar muito o comportamento de quem está a sua volta. Sempre ativando a nossa sensibilidade e aprendendo a deixar o ego de lado para dar espaço para quem chega. É fascinante e às vezes dolorido o processo até chegar no ideal.

Recentemente você fez a Maria Carla, que era uma personagem meio obscura e de caráter duvidoso. Como foi participar desse trabalho? O que te trouxe de novo ou instigante? O que era instigante era não saber para aonde ela ia, aonde mesmo ela queria chegar e a ambição toda era para que? Mas no final da trama que ela se revelou uma pessoa fria e calculista, sem piedade. Como faço quase sempre personagens duvidosos ou mau caráter, cabe a mim dar uma diferença entre uma e outra. É uma batalha diária para não cair no lugar conhecido, não é fácil, mas amo o que faço e no final é muito gratificante.

Antes você tinha feito a prostituta / mocinha Marli na série “Cidade Proibida”. Que era uma personagem bem mais leve e talvez mais divertida. Como foi isso? Maravilhosooooo. Talvez a personagem que mais amei fazer, por tudo. Pelos companheiros, pela direção, pelo texto, pela ilusão sobre o amor sendo uma prostituta. Me inspirei muito na Shirley MacLaine para compor ela. Conversei com uma prostituta que trabalhou na época também. Foi muito gratificante voltar da maternidade fazendo uma série como essa. Uma pena que não teve a segunda temporada.

A gravidez te deixou um pouco afastada da TV, como foi lidar com isso? Tirou de letra? Foi bem planejado parar esse tempo. Trabalho desde meus 13 anos e em TV desde os 19 anos, e engravidei com 35 anos. Sentia que já tinha conquistado meu espaço e precisa me realizar pessoalmente. Ter filhos era um grande sonho e estou vivendo ele. E quando voltei tudo estava lá e voltei com mais desejo de fazer bem o meu trabalho. Mas para qualquer mãe voltar a trabalhar e se achar outra vez, te traz vida, você volta a ser você outra vez.

Regiane, você acha que o “homem ser de marte e as mulheres de Vênus”, cria um abismo que ao mesmo que afasta pelas diferenças também aproxima pelas partes que se completam? Sim acho muito isso. Acho que para nós mulheres é muito difícil entender como funciona a cabeça deles e eles a nossa. Mas a graça toda é essa diferença, tem que ter humor nas relações, tem que ser leve. (Pena que só aprendi isso agora aos 40 anos) tem que querer estar juntos, ter uma boa companhia não é bom demais?

Como você vê esse movimento de feminismo e machismo atualmente? Existem exageros e extremos dos dois lados? Acho tão bom a gente se unir, nós mulheres, de darmos forças uma para a outra, por anos sofremos caladas e sempre, sempre tem algum caso de agressão ao nosso redor. É cruel o que passamos. Na hora que todos entenderem que ninguém é dono de ninguém, que o respeito e o direito cabe a todos, ficaria tudo tão mais tranquilo. Poder falar é bom demais. Mas por outro lado sinto meus amigos homens um pouco perdidos, sem saber como chegar numa garota ou com um certo receio de como falar ou o que fazer com a garota que eles estão afim. Acho que temos que buscar o equilíbrio, com mais diálogo, respeito e companheirismo de ambas as partes.

Que qualidades masculinas você inveja nos homens e que qualidades femininas você gostaria de ver mais presente neles? São mais práticos, mais objetivos, e nós mulheres temos mais sensibilidade e ao mesmo tempo uma força enorme, eu admiro muito como a gente consegue dar conta de tudo! Talvez se eles tivessem só 50% da nossa sensibilidade já seria incrível… (risos)…

Mãe de dois meninos, que qualidades e lições você espera deixar para eles? Qual a maior herança na formação que você pode deixar? E o que evita repetir? O respeito ao próximo. Sobre cuidar do outro. Ser educado, o tempo todo aqui em casa é por favor, muito obrigada, você poderia. Ou sempre pergunto… Você gostaria que fizessem isso com você? Preso muito também a independência neles, para serem livres mas terem consciência das suas escolhas. É um trabalho diário mas gratificante no fim do dia. E de respeitar as mulheres sempre.

Você parece ser alegre e bem humorada, o que te tira do sério e o que coloca um sorriso no seu rosto? Ver as pessoas serem mau tratadas e humilhadas. A falta de educação ou quando as pessoas só pensam nelas e nunca no outro. Como é difícil para algumas pessoas se colocarem no lugar do outro?! Se isso acontecesse seria tão fácil as relações e o respeito. Eu sou alegre mesmo, sou solar e basta acordar para sorrir e agradecer tudo que tenho e ao meu redor. Sou adepta do yoga há anos então sempre trabalhamos a gratidão. Mas com certeza ver meus filhos e cachorros brincando me deixa com um sorriso no rosto.

O que te distrai nas horas vagas? Instagram. Coisas de decoração, filmes…

E o que vem por aí em matéria de trabalho? Tenho dois filmes para serem lançados. Uma comédia com a Fabiana Karla que se chama “Uma pitada de sorte”. E outro filme que conta a história do espírita Divaldo Franco, faço a Joana de Angelis. O nome é “Divaldo”. Tenho também uma peça para São Paulo mas ainda não tenho a data de estreia.

Para conquistar Regiane basta… Ser leve e ter humor!!!!

Fotos @sergiobaia  /  Style @tracyrato  /  Make @teodorojr