Apresentador, ator, produtor e esportista por adrenalina, Christiano Cochrane é um cara que personifica a título de ser um homem contemporâneo. Contemporâneo e inquieto, com garra pra fazer sempre mais e melhor. Seja como marido parceiro de todas as horas da atriz Daniele Valente, seja como precursor de um programa voltado para o público masculino. Chris, como é chamado, é um homem moderno que traz consigo valores tradicionais, como o da família.  E por falar em família, fora tudo isso, um outro desafio sempre o cercou, ser filho da famosa jornalista e apresentadora Marília Gabriela, que o faz ter que se superar sempre e mostrar que tem luz própria. É isso que confirmamos nessa entrevista muito franca e gostosa de ler.
Você se formou em administração enquanto morava nos EUA, e foi trabalhar na TV como produtor, apresentador e ator. O seu negócio é TV e não tem quem mude isso? O meu negócio é entretenimento e não tem ninguém que mude isso! Descobri que preciso fazer outras coisas (negócios, produções, etc) para ganhar dinheiro, mas se fosse herdeiro ou tivesse acertado na loteria, nem pensaria em outra coisa.

Como foi a experiência de apresentar um programa voltado para o público masculino? Como foi a aceitação? Foi incrível!! O “Contemporâneo” foi – e ainda é – o único programa do gênero no Brasil. Pintaram outras tentativas, mas ninguém acertou a fórmula como nós fizemos.  Era um barato, porque o programa era para homens, mas as mulheres de todas as idades também curtiam. A aceitação foi incrível! Até hoje as pessoas vêem me perguntar “Quanto volta ao ar o seu programa”? Fazem isso TODOS os dias, sem exagero. Já faz quase quatro anos que o “Contemporâneo” acabou e as pessoas tratam como se tivesse prestes a estrear nova temporada.

Durante o programa, muitas vezes você se colocou como espectador, como homem consumidor? O que o Contemporâneo teve a ver com você?
Tudo. Ali tinha um pouco de tudo para todos os homens. Qual de nós não consome produtos, cultura, saúde?  Muitas reportagens tentavam enquadrar o “Contemporâneo” como programa para metrossexuais. Bobagem! Era um programa feito para todos os homens: o machão, o sensível, o estudioso, o tarado, o metrossexual, o heterossexual, o homossexual. Era um programa legitimamente democrático e cumpria bem sua função.
Ao longo desse tempo de programa o que deu pra você perceber em relação aos homens e às mulheres, quais os principais medos e anseios de cada um? Acho que o grande medo das pessoas é a solidão.  A gente pode esmiuçar muito e dizer que as mulheres são curiosas por natureza, os homens estão se descobrindo neste milênio tão feminino, mas a verdade é que se a gente analisar bem a fundo, o nosso grande medo é a solidão – não somente se tratando de relacionamentos, mas no sentido mais amplo da palavra.
Voltaria a fazer um programa naqueles moldes? A fórmula seria atual ainda ou o público mudou um pouco hoje? Claro que voltaria! A fórmula é super atual, porque já era muito vanguardista quando estreou. Ouso dizer que faria sucesso na TV aberta.

Que experiências você levou do tempo de produtor do “Domingão do Faustão” para o “Contemporâneo”? Produção é um trabalho duro, que exige mais que competência, exige tesão do produtor. Conheço gente como eu, que produzia como porta de entrada para a TV, mas os melhores produtores com os quais trabalhei, eram gente que curtia produzir!  Produtor que não quer ficar frente às câmeras, que é produtor de carreira. Agora, acho que se todos os apresentadores trabalhassem pelo menos um ano como produtores, teríamos muito menos “estrelas” e apresentadores muito mais eficientes por aí…  Como produtor você aprende como a TV realmente funciona. No “Contemporâneo” eu sabia  quais eram as limitações e as capacidades dos produtores, então nunca pedia mais/mais rápido do que eram capazes, mas também não me contentava com menos/mais devagar do sabia ser possível.

[vídeo de um dos programas apresentado por Christiano, no caso esse traz uma entrevista com Sabrina Sato e uma matéria sobre ternos]

Para você o que mudou no papel do homem e da mulher na sociedade hoje em dia em relação a 20, 30 anos atrás? Ao passo que a mulher tem passado as ultimas três décadas conquistando o que lhe era de direito, o homem tem passado as últimas décadas percebendo que seu papel mudou e agora está perdido tentando descobrir qual o seu papel. Estamos menos necessários para as mulheres de acordo com os moldes antigos, mas a nova mulher, que trabalha muito, ganha muito, ocupa cargos antes do homem, agora tem a necessidade de parceiros mais disponíveis, mais presentes do que nunca.  Isso para nossa engenharia genética/evolutiva é muito difícil, é um trabalho em andamento, porque nos somos mais dispersos, impetuosos.

Quando Christiano é um homem machista e quando é um homem sensível? Sou sensível a maior parte do tempo, mesmo no meu (às vezes) jeito truculento de agir. Me sinto meio machista vez ou outra quando vejo uma mulher pilotando um carro muito bem, ou fazendo um esporte tipicamente masculino muito bem. Acho graça de mim mesmo quando isso acontece – e se eu não perceber, a Dani me sacaneia na hora! Com a chegada da minha filhinha, acho que isso vai acabar de vez, pois quero que ela faça tudo que eu faço: correr de moto, velejar de kite, lutar Jiu-Jitsu, etc. Lá vem minha filhota para me ensinar muita coisa.
Ser filho de Marília Gabriela abre mais portas ou atrai mais cobranças? Abre a mesma quantidade que fecha. Por ter crescido literalmente dentro de estúdios de televisão, conheço muita gente. Minha mãe tem muitos amigos e as pessoas sempre me recebem, mas ninguém quer botar o seu na reta e arriscar ser acusado de favoritismo. Sempre que começo QUALQUER trabalho metade das pessoas ficam de bico, começam fofoquinha (eu sempre fico sabendo). Tenho que fazer tudo duplamente bem para as pessoas entenderem que não estou ali de favor. Minha mãe NUNCA conseguiu um emprego pra mim – e olha que ela tentou… Já levei muito mais não do que sim, mas isso só faz as conquistas ficaram tanto mais saborosas.

 

 

As pessoas tendem a achar que apresentar um programa de viagens é o trabalho perfeito, pois se conhece vários lugares. É verdade? Foi assim quando você apresentou o “Brasil é Aqui” no GNT?Trabalho mais duro que já tive! Partíamos para viagens de vinte dias, onde gravávamos das 5/6 da manhã até as 9/10 da noite, subindo e descendo montanhas, fazendo a mesma trilha N vezes, debaixo de um calor insuportável, etc.  Daí comíamos (muitas vezes mal), dormíamos (muitas vezes mal) e dia seguinte tudo de novo.  TV a cabo tem um budget SUPER restrito, então a gente tinha que tirar leite de pedra. No vídeo tudo fica lindo e parece divertido, esse é nosso trabalho e essa seria a experiência de um viajante a lazer, mas pra fazer aquilo ficar legal no vídeo, é duuuuro!

Você já saltou de pára-quedas, praticou rapel, kitesurf… adrenalina te motiva? Não. O pára-quedismo eu curtia depois daqueles segundos iniciais de frio na barriga, quando parece que a gente está voando de verdade.  O kite, por incrível que pareça, é muito relaxante, não traz muita adrenalina. É mais uma coisa de estar sozinho com o mar, você, a prancha e a pipa. A única coisa que traz adrenalina e eu gosto é a moto velocidade. A adrenalina precisa ficar sob controle, pois chego ao final das retas a 300 km/h, então tem que ter controle absoluto dos braços, pernas e nervos! Mas é muito divertido quando estamos num pega por uma posição.
Estar à frente de um programa de TV te deixa mais vaidoso? Como você lida com a vaidade? Não. Fiquei muito menos vaidoso depois do “Contemporâneo”.  Acho que minha auto estima melhorou,  então passei a me preocupar menos com o que visto, com a aparência.  Minha mulher me vê pronto pra sair de casa quase sempre com uma de duas bermudas BEM velhas que uso, uma das minhas camisetas brancas Hering (que ela tem que jogar fora de vez em quando, senão vou usando com o sovaco amarelo mesmo) e meus chinelos e diz “esse é o homem Contemporâneo”?! (risos)
O segredo de um bom relacionamento é sempre a cumplicidade, ser casado com Daniela Valente, que também é do meio televisão, proporciona isso com mais intensidade? O meio em comum facilita o entendimento do que a gente faz, então não pinta grilo com agenda esquisita, etc. Mas meu negócio com a Dani é muito mais profundo que isso. Se eu passar a trabalhar num escritório das 9 às 5 amanhã, ou se ela resolver que quer fazer faculdade de psicologia, nossa cumplicidade não mudará nem um pouco. Afinal, cumplicidade não é isso, é ser parceiro independente das circunstâncias?

Você está no segundo casamento… que lições você traz de positivo da primeira experiência? Que não podemos mudar as pessoas.  Minha ex era muito diferente de mim, de outra cultura, outro país (não que isso não dê certo pra muita gente) e queria muito que eu fosse outra pessoa, acho que eu também queria isso dela.  Tem que gostar do outro como ele é.  A gente evolui, mas não muda completamente. Com a Dani já expus toda a minha vida de cara, pra não ter surpresas. Nós não temos segredo algum e isso nos fortaleceu muito. Sabemos que gostamos um do outro como somos.

E ser um futuro papai, já te afeta de alguma forma? Tem se preparado para esse novo papel? Putz, estou completamente bobo! Quero comprar tudo que é cor-de-rosa por aí! A Dani até diz “menina pode usar outras cores, tá”! rs rs rs  Não tive irmã, então é tudo novo pra mim. Comprei vários livros e tenho estudado muito. Vamos fazer aquele curso para pais e estamos nos divertido escolhendo as coisas pro quartinho dela. Quero tentar não ser paranóico, mas tá difícil…  Fiquei um mês estudando os carrinhos e cadeirinhas antes de comprar e agora vamos trocar de carro para ter Isofix (que prende a cadeirinha melhor)…  Acho que faz parte de ser pai de primeira viagem. Parece que no segundo filho a gente alivia…

Por falar em papel, você já atuou em duas novelas e três filmes. Como foi a experiência de atuar? Se descobriu ator de vez? Nas novelas fiz participações pequenas, mas filmes já fiz quatro, dois deles com papéis principais. Sou apresentador por experiência, mas sou ator formado; estudei três anos profissionalizantes, mais vários cursos livres.  A curva de aprendizado de um ator é muito mais longa.  Um bom ator nunca deixa de aprender, evoluir. É um prazer bem diferente da apresentação. O prazer de fazer um filme é menos imediato que fazer um programa de TV. Às vezes é um prazer agridoce também. Você passa semanas, ou meses, se preparando e quando faz se diverte.  Daí quando vê aquilo na tela muito tempo se passou e aquela cena que você gostou de fazer, fica envergonhado de assistir, ao passo que coisas que nem tinha notado, ficam muito legais.  Não é à toa que atores são tão inseguros. Estamos sempre sob alguma lente analítica – nossa ou dos outros…

O que Christiano quer desse novo ano? Quero muito ver nosso país melhorar.  Gostaria que a Valentina conhecesse um mundo mais bonito, com menos briga, mais gente generosa. Acho até que existe um movimento universal neste sentido e gostaria de vê-lo cada vez mais forte.  Quero ser um bom pai e continuar melhorando como companheiro pra Dani, que só me traz alegria, evolução e amor.

Capa:
Foto: Rodrigo Lopes
Tratamento de Imagem: Jorge Souza
Agradecimento: Bia Serra – Montenegro & Raman
Entrevista: André Porto e Nadezhda Bezerra
Revisão: Dulce Porto