Expert em garimpar, descobrir e ressignificar espaços urbanos na capital paulista, ele acredita que o mundo já vive numa era pós-capitalista, onde empreender é ter consciência sociocultural, propósito sustentável e desejo pela singularidade. Em 2016, ele foi eleito um dos 100 empreendedores mais influentes do mundo pela revista norte-americana Good Magazine.

Em 2005, Facundo começou um novo e próspero ciclo em sua vida com a abertura do clube Vegas, no Baixo Augusta. A partir daí, vieram outros projetos de sucesso com sua marca –  Lions, Volt, Cine Joia, Yatch, Z, Riviera, PanAm, Frank, Drive-In e Mirante 9 de Julho. Em breve, o Grupo Vegas vai ganhar mais uma cria –  Arcos, um bar no subsolo do Theatro Municipal de São Paulo.

Com mestrado e doutorado em ciências políticas e pós-graduação em jornalismo internacional, ele formou-se em engenharia de alimentos no Instituto Mauá de Tecnologia e estudou nos colégios Mackenzie e Bandeirantes, como bolsista. Antes de se tornar o dono da noite mais cool de São Paulo, trabalhou nas multinacionais Tetra Pak, American Express e Aol.

Facundo tem dupla cidadania. Nasceu em Córdoba, na Argentina, e veio para o Brasil em 1976. É filho de pai brasileiro e mãe argentina. Tem 44 anos. Mora numa casa vintage, no bairro paulistano do Pacaembu. É solteiro e pai de Pina, de 5 anos, fruto de um relacionamento com a maquiadora Vanessa Rozan. Segundo ele, hoje, sua filha é prioridade.

Seu porte atlético é mantido com aulas de boxe. Em seu look despojado, à base de calça jeans, camiseta e botas, sempre chama atenção uma tatuagem que reproduz suas veias cefálica e basílica, que começam no dedo indicador da mão esquerda e vão até o cérebro e o coração. No dia a dia, Facundo é adepto de uma alimentação simples e saudável, sem bebidas alcóolicas.

Por conta de sua bem-sucedida experiência à frente do Grupo Vegas, ele é frequentemente convidado a participar de encontros e eventos sobre novos negócios. No final de 2017, lançou seu primeiro livro Empreendedorismo para Subversivos, pela Planeta, e, recentemente, estreou na direção artística de duas exposições de arte imersiva no recém-inaugurado Farol Santander.

Como andam os projetos do Grupo Vegas? A maioria continua funcionando bem – Lions, Cine Joia, Yatch, Riviera, Mirante e Z. Já Volt, PanAm e Drive-In fecharam por motivos diversos. No caso do Frank, um bar que funciona no Maksoud Plaza, ele foi criado por mim, mas é administrado pelo hotel. Cuidei de toda a concepção do projeto, porém não estou no contrato social.

E o novo espaço Arcos, no subsolo do Theatro Municipal de São Paulo, quando será inaugurado? O que ele tem de diferente dos demais? Acredito que só inaugure no meio do ano, já que a gente depende muito dos órgãos de proteção ao patrimônio. Ele será um bar de coquetelaria muito avançada, onde as pessoas poderão ouvir música clássica ao vivo em um palco mais informal, menos sacralizado como, por exemplo, na Sala São Paulo ou no próprio Theatro Municipal.

Além da capital paulista, você quer investir em outras cidades? Não há planos. Sou muito ligado ao meu território e não tenho como escapar disso. Já recebi vários convites de outras cidades, mas não iria só por causa de dinheiro. Precisaria adquirir a identidade do lugar. Ainda tenho muita coisa para fazer em São Paulo.

Como foi possível a parceria do Grupo Vegas com a Holding Clube, ou melhor, entre você e José Victor Oliva, com perfis tão diferentes? Não foi uma parceria, foi um acidente. Perdi muito dinheiro.

Recentemente, você assumiu a direção artística de duas exposições de arte imersiva no Farol Santander, do coletivo Tundra e de Laura Vinci. Isso é apenas uma experiência ou você quer apostar em arte? Sempre me interessei por arte, mas sempre tive preguiça dela ao mesmo tempo. Nunca quis comprar ou colecionar como propriedade. Já a arte como mecanismo de disparar experiências subjetivas, de transformar o jeito de enxergar o mundo, é sempre válida. Foi o caso do Farol Santander. Em 2016, fui provocar o banco para que reabrisse o Banespão [antigo prédio do Banespa] para exposições de arte imersiva. Daí, surgiu o projeto.

Seu primeiro livro Empreendedorismo para subversivos (Planeta) foi lançado no final de 2017. Qual o resultado dessa estreia editorial? Sendo muito sincero, não era um livro que gostaria de escrever. A ideia foi da editora. Não quis fazer um livro de receitas. Também não tive a pretensão de soar inteligente, aproveitei para fazer piada de mim mesmo. Mas quis contar minha trajetória como empreendedor de sucessos e fracassos, ressaltando a importância de ter um propósito, um objetivo que vá além de ganhar dinheiro. Escrevi e enviei para a editora sem ler. Ainda fiz capa e negociei só revisão ortográfica do texto, sem edição.

Ultimamente, você está fotografando com a ajuda de um drone. No Instagram (@facundoguerra), você anda postando várias imagens aéreas e urbanas, em ângulos inusitados e reveladores. Pretende transformar essa experiência em livro ou exposição? Talvez, faça um livro com recursos de crowdfunding. Há uma editora interessada em publicar. Mas quero que tenha conexões e diálogos de arquitetura, que é fruto do espírito do seu tempo. Com a tecnologia do drone, é possível fotografar perspectivas que nunca tive e comecei a ver coisas incríveis. Toda tecnologia é um suporte político e estético.

Além de empresário, agitador cultural e empreendedor, você é pai há cinco anos. O que isso mudou na sua vida? Pretende ter mais filhos? A melhor coisa que aconteceu com a chegada da Pina é que ela relativizou o que é problema para mim. Ela me faz economizar energia em coisas que não são necessárias e me deu uma dimensão completamente diferente de vida e morte. Se der, pretendo ter mais filhos.

Quais são suas expectativas políticas neste ano de eleições? Já pensou em se candidatar ou foi convidado por algum partido? Estou completamente perdido. Na verdade, estou com muito medo. Tudo que quero é um mal menor. E tudo que não quero é o Bolsonaro, mas ainda tenho esperança que ganhe um candidato progressista. Jamais me interessei em entrar no sistema político tradicional, mas me sondaram. Do meu jeito, acho que já faço política.

Nas redes sociais, o que você gosta de compartilhar, seguir e curtir? Sigo muitas redes de feminismo, movimentos negros e de gêneros… Como macho privilegiado branco, por estrutura e definição, tento me reeducar pelo discurso das minorias. Então, grande parte do que sigo, no Instagram e Facebook, são conteúdos que falam sobre o lugar de resistência dessas minorias pelo mundo. Acho que isso é o que há de mais contemporâneo e bacana. Qualquer forma de restrição, de preconceito, que elimine o direito do outro de existir, de se expressar, é intolerável.

Para finalizar, cite alguns programas imperdíveis em São Paulo. Visitar o SESC 24 de Maio, ver exposições na Pinacoteca, passear pelo parque Jardim da Luz, comer em algum restaurante coreano no bairro do Bom Retiro, caminhar no Minhocão e na Avenida Paulista nos domingos, dá um rolê no Conjunto Nacional, ir ao cinema no Reserva Cultural, Belas Artes ou Cinesala. Acho que são experiências muito fortes em São Paulo, principalmente para um iniciante.