Não se engane com a imagem, a aparência largada de quem ainda está abaixo dos 30 anos. Na cozinha, o chef Danillo Coelho busca a maturidade que poucos nessa fase conseguem planejar na carreira. A prova está no que fez até aqui. Se o nome pode soar novo aos pernambucanos, em São Paulo, ele é conhecido pela temporada em restaurantes como Mocotó e Maní – este comandado por Helena Rizo, já eleita uma das melhorres chef do mundo. Em 2014, formou-se na escola porteña de gastronomia Gato Dumas e passou pelo renomado El Baqueano, também em Buenos Aires, ganhando referências firmes em relação aos processos técnicos. Em Recife, sua cidade natal, participa de um grupo de jovens cozinheiros que pensa as novas possibilidades da gastronomia – o Mesa Coletiva, e não se desapega das consultorias que dá para os mais variados restaurantes. Mas foi em sua mais recente empreitada que Danillo chamou atenção dos quatro cantos desse universo. Participou do 4º The Taste Brasil, exibido no canal GNT, e chegou à etapa final do reality com o time do chef Claude Troisgros. Sorte de principiante? Nessa entrevista exclusiva, é fácil perceber que não…

Você faz parte de uma nova geração de cozinheiros pernambucanos atentos a ingredientes cada vez mais brasileiros. Como enxerga essa nova movimentação na gastronomia? Terroir e sazonalidade são peças chave pra obter os melhores ingredientes. Esse é um pensamento que, pra mim, é completamente natural. É uma filosofia que você adquire quando trabalha com chefs que pensam dessa forma. Pra mim, é algo que veio para ficar e espero que, não transformem a cozinha de ingrediente em mais uma modinha gastronômica.

Quando o assunto é bar e restaurante, o jeito de receber também vem mudando. É um movimento conjunto? Simpatia e atenção sempre foram importantes no atendimento. Acho que as coisas têm ficado mias relaxadas. A concepção de alta gastronomia tem mudado. Cristais, prataria e outros detalhes não são mais tão importantes assim. As pessoas querem continuar se sentindo especiais sem luxo ou medo.


E como você definiria seu trabalho hoje?  Ser chef de cozinha é muito mais que só fazer comida. É pensar em todas as etapas do processo. Eu não quero que as pessoas precisem comprar uma roupa nova para frequentar o restaurante em que eu trabalho. Isso não faz parte do que eu acredito que seja uma experiência inclusiva. Já foi o tempo em que exagero era sinal de luxo. Hoje em dia, menos é mais. 

Mas se você não fosse cozinheiro, o que seria? Eu me encontrei sendo cozinheiro. Talvez eu tentasse transformar cinema, meu principal hobby, em um trabalho. Ou jornalismo, quem sabe. Eu gosto de aparecer, me comunicar. Trabalhar com entretenimento também seria uma alternativa. Apresentador de programa de culinária conta como outro emprego? (risos)

Para quem está interessado nessa mesma área, qual o conselho mais importante? Seja humilde, pratique muito e aprenda sempre. Chef de Cozinha é só um cargo, ser cozinheiro é pra sempre.

Sinal de que ainda há mitos em torno da palavra chef? Ser cozinheiro parece ‘glamouroso’, mas não é. Por muito tempo seu salário quase não dava para pagar as contas do mês. Faxina faz parte do trabalho. Você passa muito tempo replicando receitas dos outros. Criação colaborativa não faz parte da filosofia de trabalho da grande maioria dos restaurantes no Brasil. Criar é responsabilidade do Chef. E quando você chegar nesse cargo, você vai saber que errar faz parte do processo de criação. E nesse processo, você erra muito mais que acerta.

Recentemente, você participou do The Taste Brasil e foi longe nele. O que o motivou a aparecer em um reality? Eu entrei no The Taste Brasil porque eu queria saber se a minha forma de expressão na cozinha é o caminho que eu realmente tenho que seguir. Ser legitimado e elogiado por pessoas que você respeita, é um sentimento inimaginável. Todo mundo quer ter seu trabalho reconhecido e esse prêmio eu acho que conquistei ao longo do programa.

Durante o programa deu para perceber que não foi fácil. Mas para você qual foi o desafio mais marcante? Saber lidar com a pressão e a ansiedade, era peça-chave pra conseguir cozinhar bem. Além disso, você precisa ser criativo todos os dias e ter muito repertório técnico pra conseguir transformar ideias em colheres boas. O The Taste é um jogo, e quando você entra no clima, as coisas ficam um pouco mais fáceis. Você precisa ser confiante, mas confiança demais também pode te derrubar.

O que de mais curioso acontecia nas gravações e o telespectador não viu? Acho que a amizade que todos os participantes construíram, é a melhor coisa. A gente se divertia demais no camarim. Cantava, fazia piada, trocava receitas. Era um clima muito legal, nem parecia que estávamos competindo entre nós. 

Quais são os projetos daqui para frente? Em outubro estou indo para as Ilhas Faroe. Um conjunto de ilhas que pertence ao Reino da Dinamarca e fica ao Norte do Atlântico, entre a Escócia e a Islândia. Vou para um período de estágio de dois meses no Koks, restaurante contemporâneo – uma estrela Michelin. Eles têm os melhores frutos do mar do mundo e esse é o meu foco – trato com ingredientes. Quando voltar para Recife, quero me dedicar a buscar parceiros para colocar em prática meu projeto de um restaurante contemporâneo. Depois de tantas idas e vindas, eu decidi voltar para a cidade com o objetivo de ter uma cozinha com a minha identidade e com ingredientes pernambucanos.

agradecimento: Restaurante CAJÁ (locação) – @vempracaja