CAPA: ANTONIO FAGUNDES E ALEXANDRA MARTINS: A ARTE DO ENCONTRO

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Poucos atores atravessam gerações com a presença e a relevância de Antonio Fagundes. De volta à televisão em “Quem Ama Cuida”, o ator marcou presença na trama de Walcyr Carrasco e Cláudia Souto em uma participação central para a história, reencontrando grandes nomes da dramaturgia e celebrando, mais uma vez, a força da televisão brasileira como espaço de cultura, reflexão e diálogo com o público. Mas é no teatro que Fagundes vive atualmente outro encontro especial. Ao lado de Alexandra Martins, sua parceira na vida e nos palcos, eles seguem em cartaz com “Dois de Nós”, espetáculo escrito por Gustavo Pinheiro e dirigido por José Possi Neto que já ultrapassou a marca de 300 apresentações e conquistou mais de 250 mil espectadores. Uma trajetória construída a partir da força das relações humanas, do humor, da emoção e, sobretudo, da conexão direta com a plateia.

Nesta conversa com a MENSCH, Antonio Fagundes fala sobre sua participação em “Quem Ama Cuida”, a importância que a televisão ainda ocupa na cultura brasileira e a experiência acumulada ao longo de uma extensa carreira. E Alexandra Martins nos revela também os bastidores e a sintonia de uma parceria que ultrapassa a vida pessoal e chega ao palco, refletindo sobre o sucesso de “Dois de Nós”, o frio na barriga que permanece mesmo depois de centenas de sessões e a capacidade do teatro de provocar, aproximar e transformar pessoas.

Como foi participar de que Quem Ama Cuida, sendo um personagem tão central na trama? Pois é, foi uma maravilha participar de Quem Ama Cuida por diversas razões. Primeiro, por ser uma novela do Walcyr Carrasco e da Cláudia Souto, são dois autores maravilhosos. A direção da Amora (Mautner) também. Foi uma colega com quem eu tinha trabalhado pouco, mas queria trabalhar de novo. E esse talento extraordinário, a Letícia (Colin), o Tony (Ramos), o Dan (Stulbach), enfim uma turma maravilhosa. A minha agenda muito apertada não ia me permitir fazer uma novela inteira então, até o fato do personagem ter uma participação pequena na novela, foi bom pra mim, isso foi realmente uma experiência muito gostosa.

Você acredita que a televisão tem hoje um papel diferente na maneira de contar histórias e abordar temas que fazem parte da vida real? Eu acredito que a televisão tem um papel ainda muito importante dentro da cultura brasileira, até porque, infelizmente, nós somos um país que lê muito pouco e que tem poucos hábitos culturais. A televisão veio preencher, digamos, essa lacuna cultural que o Brasil apresenta e de uma forma brilhante, principalmente a TV aberta, onde todo mundo assiste ao mesmo capítulo e discute no dia seguinte. Eu acho que a televisão ainda tem um papel muito importante dentro da cultura brasileira.

Existe alguma característica do personagem que você leva para a vida ou que, de alguma maneira, dialoga com a sua personalidade? Você sabe, eu acho que a gente acaba levando mais da nossa vida pra vida do personagem do que o contrário, até porque a gente precisa. É parte da, digamos, deformação profissional do ator a observação de outras vidas, a gente sempre está prestando atenção a tudo que está acontecendo à nessa volta, porque um dia sabe que vai usar em algum personagem. Então, é muito difícil você levantar uma vida inteira de um personagem em alguns capítulos, é preciso que você venha com uma carga de acontecimentos grandes da sua vida pra colorir aquele personagem. Então, geralmente é o contrário, o personagem que sai ganhando com a sua vida, né?

ANTONIO FAGUNDES e ALEXANDRA MARTINS:

Como é para vocês contracenarem juntos na peça? ALEXANDRA: É uma alegria! Nós não somente contracenamos como trabalhamos juntos também na produção. Nós nos conhecemos por conta do nosso trabalho e descobrimos ao longo dos anos que essa parceria é mais uma das delícias da nossa relação.

ANTONIO: Eu e Alexandra nos conhecemos trabalhando e isso foi uma maravilha, e tem sido maravilhoso até hoje. A gente fez um monte de coisas juntos, fez cinema, teatro, televisão e vamos continuar fazendo, porque é sempre muito prazeroso.

O que mais encanta no texto da peça? ALEXANDRA: A humanidade, a universalidade. Guardo no meu coração uma frase dita por uma mulher 90+ na nossa plateia durante o bate-papo: “essa peça nos autoriza a viver”. Temos públicos de todas as gerações, isso é lindo.

ANTONIO: O Gustavo Pinheiro, que é autor da peça, é um mestre das relações humanas e é um autor cheio de compaixão pelos seus personagens, então costumamos brincar que esse texto do Gustavo é inescapável. Não tem uma pessoa na plateia que não se identifique pelo menos em um momento do espetáculo, e temos observado isso todos os dias, porque fazemos um bate-papo com a plateia depois do espetáculo, e temos uma resposta realmente fabulosa do público nesse sentido, e que confirma o que acabei de falar.

Existe algo em seu personagem que mudou de significado para você conforme a temporada da peça avançou? ALEXANDRA: Não há nada mais poderoso para uma atriz do que fazer o mesmo texto mais de 300 vezes. Isso permite um mergulho incomparável no universo da personagem e mais ainda na comunicação com as diversas plateias. Assim os significados vão sendo resignificados. 

O teatro exige uma entrega muito diferente da televisão. O que você sente quando está diante do público, sem a possibilidade de repetir uma cena? ALEXANDRA: Para mim, a razão de existir do teatro é o público, o teatro só acontece quando esse encontro se realiza. Em teatro uma cena nunca é repetida, pois a relação que se estabelece com cada plateia é única.

Depois de tantos anos de carreira, o palco ainda provoca frio na barriga? ALEXANDRA: Sem dúvida! Borboletas no estômago antes de cada sessão. Se um dia isso deixar de acontecer será melhor repensar a profissão.

ANTONIO: Todos os dias antes, de entrar em cena, a gente sente sim aquele friozinho na barriga. Nós já fizemos 300 espetáculos de Dois de Nós, mas cada um deles é completamente diferente do outro, é isso que faz com que a gente ainda tenha ansiedade, porque as plateias são diferentes, e a nossa comunicação com essa plateia é diferente a cada dia. Isso dá esse friozinho na barriga que não é um friozinho ruim não, é aquele friozinho antes de um encontro gostoso em que a gente se fala “puxa, eu tenho umas coisas tão legais aqui pra contar pra essas pessoas vamos ver como é que elas recebem”. Esse friozinho que faz com que a gente se sinta vivo todos os dias.

O que o teatro te permite experimentar como ator que a televisão não permite? ALEXANDRA: Essa magia do encontro 100% humano e a cada dia com uma plateia diferente. Nenhum veículo é capaz de reproduzir essa experiência. 

Como vocês explicam o sucesso da peça? ALEXANDRA: Nós nunca sabemos o que fazer para uma peça ser sucesso, isso está no panteão das deusas e deuses do teatro. Mas sem dúvida o primeiro passo é a escolha do texto, isso é o início de tudo e “dois de nós” cria uma comunicação única. A genialidade do nosso autor – Gustavo Pinheiro captura o público desde o primeiro segundo de espetáculo. Ele propõe um jogo irresistível e absolutamente humano numa louca montanha russa cômica com lindos mergulhos de emoção. É inescapável. 

ANTONIO: Uma peça faz sucesso por uma série de razões. A principal delas é o texto fabuloso do Gustavo Pinheiro, que atinge, como eu já falei, quase todas as pessoas na plateia. Como nós brincamos, é um texto inescapável. Mas, além disso, tem uma direção primorosa do José Possi Neto, um cenário e um figurino muito bem criados pelo Fábio Namatame, a música incidental do André Abujamra é muito boa. E uma união em cima dos quatro atores. Nós nos damos muito bem no camarim, muito bem em cena, trocamos muito com a plateia, e o espetáculo só tem crescido ao longo desses últimos dois anos. Não é à toa que esse conjugado de elementos fez o espetáculo atingir mais de 250.000 pessoas.

Em uma profissão em que tantas pessoas observam e avaliam seu trabalho, o que te faz manter os pés no chão? ALEXANDRA: A realidade.

ANTONIO: Nós vivemos na chamada era da comunicação, mas nunca estivemos tão sozinhos, tão isolados uns dos outros como agora, quando nos comunicamos através desses aparelhos que parecem mágicos, mas são um isolamento pras pessoas. As pessoas estão se isolando umas das outras e o teatro, e principalmente esse tipo de espetáculo que o Gustavo Pinheiro vem desenvolvendo na sua obra, com muito carinho e com muita sabedoria, esse tipo de espetáculo resgata essas relações, resgata esse essa possibilidade de se pensar humanamente, né? É gente falando pra gente sobre gente todos os dias, e podendo se manifestar. É uma coisa imprescindível nas relações hoje em dia. E o espetáculo reforça isso.

O que faz você dizer “sim” imediatamente a um projeto? ALEXANDRA: A possibilidade de comunicação através temas que me são caros.

ANTONIO: Essa vontade que a gente tem de se modificar e de melhorar o futuro, de mexer com o presente no sentido de que a gente possa progredir no caminho de coisas melhores pela nossa vida, é que fazem a gente manter o pé no chão. A gente sabe que talvez, através dessa vontade que a gente tem de se modificar, consiga modificar um pouquinho cada uma das pessoas sentadas na plateia.

Existe alguma rotina ou ritual antes de entrar no palco? ALEXANDRA: Nenhum! Ficamos batendo papo até o último minuto. Vale aquecer a voz e fazer um pipi, claro!

Quando as cortinas se fecham, o que fica para você? ALEXANDRA: Um enorme prazer por ter tido mais uma oportunidade de que pelo menos uma pessoa na plateia tenha saído do teatro modificada, provocada e feliz.

ANTONIO: As cortinas se fecham e a gente sai do teatro com aquela sensação gostosa de dever cumprido e continua torcendo pra que as pessoas saiam do teatro um pouquinho modificadas em relação ao momento em que entraram lá.

Fotos Nanda Araujo

Beleza Zuh Ribeiro

Producão executiva e styling Samantha Szczerb

Agradecimentos Angelo Bertoni, Amil Confecções, Dois Maridos, Democrata, Powerlook, Nayane, Gutê

Agradecimento especial Windsor Hotel (locação)