CAPA: DANTON MELLO, O OFÍCIO DE EMOCIONAR

Poucos atores brasileiros podem olhar para a própria trajetória e encontrar mais de quatro décadas dedicadas à arte de contar histórias. Danton Mello faz parte desse grupo. Desde que apareceu ainda criança em A Gata Comeu, o ator construiu uma carreira marcada pela constância, versatilidade e por uma inquietação que o levou a transitar com naturalidade entre televisão, cinema, teatro e dublagem, atravessando gerações sem perder o entusiasmo pelo ofício.

Hoje, Danton vive uma fase especialmente movimentada. Em Nobreza do Amor, interpreta Diógenes, um homem poderoso cercado por conflitos familiares e segredos que movimentam a trama. Paralelamente, celebra o retorno a Sessão de Terapia, experiência que ganha um significado ainda mais particular por colocá-lo em cena ao lado do irmão, Selton Mello, numa parceria que mistura cumplicidade familiar e admiração profissional.

Com uma trajetória construída entre personagens populares, dramas intensos, comédias e até vilões que revelaram outras facetas de seu trabalho, Danton mantém intacta a curiosidade diante do próximo desafio. Nesta conversa com a MENSCH, ele revisita momentos importantes da carreira, fala sobre a evolução da dramaturgia brasileira, a influência da dublagem em sua formação, o prazer de trabalhar com Selton e revela por que, depois de tantos anos diante das câmeras, sua maior motivação continua essencialmente a mesma: contar boas histórias, cercado pelas pessoas que ama.

Você começou a atuar ainda na infância e construiu uma carreira que atravessa diferentes gerações da televisão brasileira. Como enxerga a evolução do Danton de “A Gata Comeu” para o ator que é hoje? Tenho muito orgulho da carreira que não apenas construí, mas que continuo construindo. É muito bonito olhar para trás e ver tudo o que vivi, cada desafio, cada experiência e cada aprendizado. Ao longo dos anos, fui amadurecendo não só como profissional, mas também como pessoa. A minha carreira sempre foi uma grande escola, encaro dessa maneira, sabe? A cada novo trabalho, a cada encontro, a cada troca e em cada dia de convivência com colegas mais experientes ou com quem está apenas começando, aprendo alguma coisa. Acredito que esta profissão é, acima de tudo, uma grande troca. Tenho muito orgulho de olhar para trás e ver tudo o que construí na televisão, no teatro, no cinema e também na dublagem, que faz parte da minha vida desde a infância. Em cada lugar por onde passei e com cada pessoa com quem tive a honra de trabalhar, procurei observar e aprender. Essa foi a minha grande escola. Conviver com grandes artistas e que tive a honra de trabalhar e cada um deixou uma marca na minha trajetória e contribuiu, de alguma forma, para o profissional e a pessoa que sou hoje. Sempre busquei evoluir,me desafiar e me arriscar em novos caminhos. Sinto muito orgulho de tudo.

Depois de mais de quatro décadas de carreira, o que ainda desperta em você a vontade de aceitar um novo personagem ou projeto? A vontade de contar histórias, de emocionar, fazer rir… Amo muito esse ofício que me escolheu. Sinto muito prazer, muita alegria! Então, quero sempre novos desafios, novos personagens, novos encontros e reencontros (risos). Quero seguir contando histórias até o último suspiro da minha vida porque amo muito isso que faço.

Em Nobreza do Amor, você interpreta Diógenes, o homem mais rico da cidade e peça central da trama. O que mais o atraiu nesse personagem e quais camadas o público pode esperar? Um trabalho muito especial e um personagem marcante. Mas, acima de tudo, um reencontro. Reencontrar Duca Rachid, uma autora brilhante, que sempre nos presenteia com histórias incríveis; trabalhar novamente ao lado de Gustavo Fernandez e de toda a sua equipe talentosa; e dividir essa jornada com Emanuelle Araújo, uma artista completa, sensível, generosa e uma grande parceira, torna essa experiência ainda mais especial. O meu personagem é um homem poderoso, mas, que perde a mão com a educação com a filha, tem os seus segredos (uma filha que ele teve fora do casamento) e todas as questões que isso traz.

Estamos agora em um momento na trama que aconteceu essa revelação, confesso que estou aguardando muito a cena que ele vai assumir a filha – tô aguardando muito esse momento com a pequena Julia (que faz a Ritinha). Mas uma novela com uma história linda, super elenco, equipe incrível. Novela também é um trabalho muito puxado, então, é muito importante ter bastidores leves. E ter um grande elenco querendo contar com muita vontade aquela história. Agora aguardar os próximos movimentos até porque sabemos que novela é uma obra aberta e a gente vai recebendo aos poucos e também vai descobrindo e construindo junto com os nossos parceiros os caminhos que a gente vai seguir.

Ao longo da carreira você transitou entre novelas, cinema, teatro, dublagem, streaming e apresentação. Como cada uma dessas linguagens contribuiu para enriquecer seu trabalho como ator? Acredito que todas elas se completam. Como falei anteriormente, sou e estou muito feliz por ter espaço e estar em todas essas áreas, seja na televisão, dublagem, teatro e no cinema. Se completa e enriquece a gente como artista. Todos os mestres com quem convivi ao longo dessas décadas, com quem aprendi, seja na dublagem ou na atuação. Sou muito honrado por ter vivido todas essas experiências. Isso tudo foi muito importante para construir o ator que sou hoje, que carrego dentro de mim todas essas experiências.

Um dos seus personagens marcantes no cinema foi o vilão, em Ninguém É de Ninguém, mostrou uma faceta pouco explorada da sua carreira. Interpretar personagens moralmente ambíguos é mais desafiador do que viver os heróis? Foi um personagem muito marcante e difícil de interpretar. Não só por ele ser aquele homem moralmente ambíguo, possessivo, desprezível, mas também porque, dentro da doutrina espírita, a gente conhece o lado obscuro dele e entende as dívidas de vidas passadas que ele carregava. Um trabalho intenso, que mexeu bastante comigo. Mas, apesar da dificuldade, do sofrimento, eu amei fazer. Fui muito bem acolhido, muito bem respaldado, tendo ao meu lado, como diretor e guia, o Wagner de Assis, que é um grande parceiro. Foi muito importante tê-lo ao meu lado durante todo esse processo. Foi um desafio, mas também foi um trabalho do qual tenho muito orgulho. E essa resposta é bem difícil, porque acho que qualquer personagem é desafiador, seja ele o herói ou o vilão. Mexer com o psicológico, com os sentimentos e com as emoções é sempre um grande desafio, mas, apesar do sofrimento, curti muito fazer esse personagem. E gostaria de viver, também, outros vilões.

Você também retorna em uma nova temporada de Sessão de Terapia, série marcada por conflitos emocionais profundos. O que esse projeto representa para você dentro da sua trajetória? Nossa!!! Uma alegria estar de volta em Sessão de Terapia, uma honra agora fazer parte do elenco, como irmão do Caio. É uma série maravilhosa que mostra a importância do autoconhecimento com personagens tão densos e intensos. Fazer esse personagem que acaba chegando pra transformar a vida do irmão, trazendo um outro olhar, novas perspectivas e trocas. E a emoção de dividir o set com meu irmão.

E isso inclui trabalhar com seu irmão Selton. Como é essa troca entre vocês? Vocês transparecem ter uma sintonia e uma troca muito boa? Aliás, às vezes até a voz é igual (risos)! É emocionante! Quando entrei na temporada passada, com aquele episódio lindo e sensível… o encontro dos irmãos foi incrível! Temos uma grande parceria e muito amor um pelo outro. A gente sempre foi uma família muito unida, com muitas trocas e muita torcida um pelo outro. Então, quando surgiu esse convite, fiquei muito honrado. E dividir o set com o Selton, não só como personagens, mas também como irmãos. Eu, que acompanho e tenho o prazer de viver ao lado dele,aliás, cada um conhecendo um ao outro, a nossa história, ver tudo o que a gente batalhou, lutou e estar neste lugar agora, em um trabalho, uma série tão amada pelo público, com esses personagens intensos… E estar ali com ele, vendo ele também dirigir e ser dirigido por ele, é muito, muito, muito gratificante. E agora, esperando as próximas temporadas. (risos)

Depois de tantos anos na TV Globo, como você percebe as transformações na forma de produzir dramaturgia e no relacionamento entre o público e as novelas? Eu acho que é mais uma evolução técnica, de recursos técnicos. Essa é uma evolução, realmente, de tecnologia. A gente continua tendo grandes histórias, mas, hoje, a gente tem mais recursos. E eu acho que o público adora. Apesar de a gente ter novos formatos, as séries, as plataformas de streaming, acredito que são maneiras diferentes de contar uma história. Você pode contar a mesma história em um formato de filme, ou em um formato de série, ou até mesmo no formato de novela. Então, o público tem essa opção de escolher. E acho incrível essa transformação que estamos vivendo. Assim, o público tem a opção de escolher como e onde quer ver: seja na sala de casa (na sua televisão), no computador ou pelo celular, e a hora em que ele pode ver. E isso é muito bom para o público, por ter essas opções, e também para a nossa classe artística e técnica.

Sua carreira inclui trabalhos marcantes como dublador, incluindo produções internacionais e animações brasileiras. O que a dublagem ensina sobre interpretação que muitas vezes o público não imagina? A dublagem foi muito importante na minha vida. Pela experiência que tive de dividir o estúdio, a bancada, com os maiores dubladores deste país. E aprender, principalmente, a usar um recurso do ator que é muito importante: a voz. Interpretação, dicção, impostação de voz. A dublagem foi uma grande escola. Tenho, e tive, o prazer de dublar grandes filmes clássicos. E isso me ajudou muito na minha interpretação, tanto no audiovisual quanto no teatro, de saber realmente o quefazer com a voz, o uso desse instrumento tão importante que é a voz.

Mesmo com uma agenda intensa entre novelas, filmes e séries, você sempre destaca a importância da família. Como consegue equilibrar a vida profissional com a pessoal ao longo de uma carreira tão longeva? É muito importante esse equilíbrio. Sempre tive esse pensamento, desde jovem, deque a gente tem que estar com as pessoas que ama, conviver e valorizar esses momentos. A vida nãopode ser só trabalho. E é isso! Apesar de ter uma agenda corrida, sempre valorizei estar com a família. Eu amo muito o meu trabalho, amo muito o que faço, mas amo mais ainda estar com a minha família (risos). Só consigo ter essa carreira, só consigo me dividir entre tantos projetos tendo essa base, tendo esse apoio, esse convívio, tendo essa troca, estando realmente o máximo possível com a minha família e com os amores da minha vida. Então, sempre tive esse pensamento e, cada vez mais, percebo que tomei a decisão correta. Apesar do público me ver em tantos trabalhos e tantos projetos, é importante saber que valorizo estar o máximo que eu posso com eles. Até porque são eles que me alimentam e me dão força para seguir nessa correria.

Você já conquistou reconhecimento em praticamente todas as áreas da atuação. Ainda existe um personagem, gênero ou projeto que considera um sonho a ser realizado? Penso sempre no próximo projeto. Não tenho um personagem, nem um gênero específico. Consegui, ao longo desses anos, transitar entre a TV, os palcos e o cinema, indo do drama à comédia. Então, só quero ser feliz! Quero um set agradável e trabalhar com pessoas queridas.

O que te tira do sério e o que te faz colocar um sorriso no rosto? Preconceito de todas as formas me tira do sério e minha família sempre me deixa com um grande sorriso no rosto.

Fotos: Gustavo Arrais