CAPA: IGOR RICKLI – A ARTE DE VIVER COM VERDADE

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Em um momento de maturidade artística e pessoal, Igor Rickli vive uma fase em que diferentes linguagens se encontram de forma natural. De volta à nossa capa e à TV Globo após mais de uma década, o ator estreia em Quem Ama Cuida dando vida a Patrick, um professor de dança cuja sensibilidade e complexidade prometem surpreender o público. É mais um personagem que reforça uma trajetória marcada por escolhas que privilegiam intensidade, profundidade e constante transformação. Ao longo da carreira, Igor construiu um percurso singular entre novelas, teatro, musicais, séries e projetos autorais, sempre guiado pela arte como ferramenta de expressão e autoconhecimento. Nesta entrevista à MENSCH, ele fala sobre o retorno à emissora, a construção de Patrick, a importância da música e da dança em seu processo criativo, os desafios da paternidade, a liberdade de viver sua verdade e a busca por histórias capazes de despertar reflexão, empatia e humanidade.

Em Quem Ama Cuida, você interpreta Patrick, um professor de dança que promete revelar muitas camadas ao longo da trama. O que mais chamou sua atenção nesse personagem e quais foram os maiores desafios para construí-lo? O que mais me encantou no Patrick foi justamente o que não aparece de imediato, tanto para o público quanto para os personagens que o cercam. Ele é um homem sensível, especialmente pela sua conexão com a arte através da dança. Mas estamos diante de alguém que também carrega conflitos, medos e contradições. Gosto de personagens que fogem do óbvio e nos convidam a investigar o ser humano. O desafio está sendo construir essas camadas sem antecipar respostas, permitindo que o público descubra quem ele é aos poucos.

Patrick tem uma relação muito forte com a dança e a expressão corporal. Como a arte do movimento contribuiu para a composição emocional desse personagem? O corpo fala antes da palavra. A dança é uma forma de comunicação muito profunda e, para o Patrick, ela funciona quase como um idioma emocional. E, mais do que isso, ele tem essa “vantagem” a favor dele. Foi e segue sendo interessante pensar em como ele se movimenta, ocupa os espaços e se conecta com as pessoas através do corpo. Desde o inicio isso trouxe uma dimensão muito rica para a construção do personagem.

Você já transitou entre novelas, teatro, musicais e séries. O que cada uma dessas linguagens acrescentou à sua formação como artista? Cada linguagem exige uma entrega e uma dedicação que complementa a outra. E a soma dessas vivências ajudam a formar um artista mais diverso e experiente. O que mais me chama atenção quando estou no teatro é que nessa profissão precisamos estar presentes e ter disciplina. Os musicais ampliaram minha consciência corporal e musical. A televisão me deu entendimento sobre ritmo e continuidade, enquanto as séries têm me permitido explorar novas formas de composição de um personagem. No fim, tudo se abriga e conecta, e amplia meu repertório como ator.

Falando nessas novelas, você estreou na Globo com Flor do Caribe, em 2013. Agora, 13 anos depois, você está de volta à emissora. Como surgiu o convite e como está sendo essa volta? Foi um convite que chegou de forma muito natural e que me deixou muito feliz. Voltar depois de tantos anos, em um outro momento da minha vida e da minha carreira, tem um significado especial. Hoje me sinto mais maduro, mais seguro das minhas escolhas e mais disponível para viver personagens complexos. Tenho encarado esse retorno com muita gratidão.

Sua carreira sempre foi marcada por personagens intensos e cheios de nuances. O que faz você dizer “sim” para um novo papel atualmente? Hoje o que mais me instiga é pensar nas possibilidades do que posso encontrar pela frente. Sejam aqueles encontros com a história, com a equipe, com o diretor e, principalmente, comigo mesmo, com o que quero contar a partir daquele personagem. Gosto de papéis que me tirem do lugar comum, que provoquem perguntas e despertem alguma transformação. Se um projeto me atravessa de verdade, ele desperta meu interesse.

Ao longo da carreira, você participou de produções marcantes como Alto Astral, Flor do Caribe e A Terra Prometida. Qual personagem mais transformou você como ator e por quê? É difícil escolher apenas um, porque cada personagem me ensinou algo diferente. Mas acredito que todos aqueles que me colocaram diante de grandes desafios acabaram me transformando mais profundamente. Quando um personagem exige que você se desconstrua, inevitavelmente você também cresce como ser humano.

Além da atuação, a música ocupa um espaço importante na sua vida. Sua estreia nos palcos foi com o musical Hair, em 2010. Depois disso vieram outros musicais e você se consolidou como ator de musicais. Como essas duas formas de expressão dialogam e se complementam no seu processo criativo? Para mim elas nunca estiveram separadas. Música e interpretação nascem do mesmo lugar: da emoção. Cantar é uma outra forma de contar histórias. Muitas vezes uma canção consegue expressar aquilo que as palavras não alcançam. Os musicais me ensinaram a integrar voz, corpo e emoção de uma forma muito orgânica.

Você costuma investir em projetos autorais e explorar diferentes linguagens artísticas. O que ainda deseja experimentar que o público talvez não tenha visto em você? Acho que sempre terei presente em mim essa vontade de desenvolver projetos em que eu participe também da criação, seja escrevendo, produzindo ou dirigindo. Gosto de pensar a arte de forma ampla. Também penso em explorar mais o audiovisual em formatos diferentes, contando histórias que provoquem reflexão e criem conexões verdadeiras.

Em um momento em que o entretenimento se transforma rapidamente com o streaming e as novas plataformas, como você enxerga o futuro da dramaturgia brasileira? Vejo um futuro muito promissor. As plataformas ampliaram as possibilidades de contar histórias, de consumir conteúdos e abriram espaço para narrativas que talvez antes não encontrassem lugar. O Brasil tem uma riqueza cultural enorme e excelentes profissionais. Quanto maior a diversidade de olhares, mais forte a nossa dramaturgia se torna.

Sua trajetória demonstra uma busca constante por autenticidade, sensibilidade artística e liberdade em viver como se quer. Como você equilibra a exposição pública com a necessidade de preservar sua essência e criatividade? Acho que esse equilíbrio nasce do autoconhecimento. Nem tudo precisa ser compartilhado. Aprendi que preservar alguns espaços da minha vida é uma forma de cuidar da minha criatividade, da minha família e da minha saúde emocional. A exposição faz parte da profissão, mas ela não pode definir quem somos.

Falando em liberdade e autenticidade, em 2022 você abriu para o público sua bissexualidade. Que importância teve isso para você? Isso chegou a interferir de alguma forma no seu trabalho? Foi um processo muito pessoal e vivido com naturalidade. Nunca senti necessidade de transformar isso em um grande anúncio, apenas de viver a minha vida com honestidade e tranquilidade. Em relação ao trabalho, não mudou a forma como encaro a minha profissão. Continuo focado em contar boas histórias, construir personagens e me dedicar ao que faço, que é o que realmente importa para mim.

Em 2023 você e Aline resolveram aumentar a família com a adoção de Fátima e Will. Como foi a adaptação com Antônio e essa ampliação da sua paternidade? Quais os novos desafios? Como é ser pai de menina? A chegada da Fátima e do Will transformou profundamente a nossa família. Cada criança tem sua história, seu tempo e suas necessidades, e isso nos convida diariamente ao exercício da escuta, da paciência e do amor. O Antônio acolheu os irmãos de uma forma muito bonita, e todos nós seguimos aprendendo juntos. Ser pai de menina também ampliou ainda mais meu olhar que já era sensível para as questões femininas. A paternidade é um aprendizado permanente.

Vocês sempre foram uma referência de casal. Afinal, o que dá essa liga? Que pontos têm em comum que fazem toda a diferença? Acho que o principal é o amor. E, a partir disso, uma escolha diária. Eu acredito que relacionamentos são construídos todos os dias, com diálogo, admiração, respeito e disposição para caminhar junto. Nós mudamos muito ao longo dos anos, e tivemos a serenidade de entender e acolher a mudança do outro. Existe muito sentimento, mas também muito trabalho para manter essa parceria viva.

Olhando para a sua caminhada até aqui, qual legado você espera construir por meio da arte e que tipo de histórias ainda sonha em contar? Espero que meu trabalho possa tocar as pessoas de alguma maneira. A arte tem a capacidade de ampliar consciências, despertar emoções e criar pontes entre diferentes realidades. Quero continuar contando histórias que provoquem reflexão, que despertem empatia e que nos lembrem da nossa humanidade. Se eu conseguir deixar essa contribuição, já me sentirei realizado. Eu quero seguir trabalhando em projetos que me sensibilizem o suficiente para que eu possa passar adiante ao público.

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Fotos Felipe Gaspar (@felipegaspar_)

Direção de ate Marco Antonio Ferraz (@marcoantonioferrazoficial)

Beleza Graciane Vezquez (@gracianevazquez)