ENTREVISTA: CARLOS ABATE – A DISCIPLINA DE ESCOLHER NOVAMENTE

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Fotos Yhuri Ramos

Depois dos 50, o empresário transformou a disciplina em método para mudar o corpo, retomar a música, escrever um livro e construir uma nova fase profissional. Nesta conversa, fala sobre decisões, maturidade, fé e a coragem de não aceitar que o melhor da vida ficou para trás.

Existe uma diferença importante entre estar motivado e estar decidido. A motivação depende do estado de espírito. A decisão, não. Foi nessa distinção que Carlos Abate encontrou um novo método para conduzir a segunda metade da vida. Empresário com mais de três décadas de atuação no mercado de turismo e à frente de uma empresa com 24 anos de história, Carlos poderia ter escolhido preservar o que já havia construído. Fez o contrário. Depois dos 50, decidiu aplicar a mesma disciplina que levou para o esporte a diferentes áreas da vida: corpo, negócios, música, relacionamentos, fé e propósito. O resultado é uma nova fase que combina a expansão de sua trajetória empresarial com a criação da ABATE Lifestyle, o retorno à música e o lançamento de um livro de memórias sobre fé, reinvenção e propósito.

Mais do que uma história de recomeço, a trajetória de Carlos fala sobre escolha. Sobre não enxergar a maturidade como um ponto de chegada, mas como a possibilidade de olhar para a própria história, reconhecer o que já foi construído e, ainda assim, decidir quem se quer ser daqui para frente. Em conversa exclusiva com a MENSCH, o empresário fala sobre disciplina, decisões, negócios, corpo, fé e a coragem de começar novamente — mesmo quando a vida já parece estar definida.

Você acredita que disciplina é mais importante do que motivação para transformar a própria vida? Acredito, e com convicção. Motivação é emoção — vai e vem, depende de como você dormiu, do humor do dia. Disciplina é decisão, e ela não pede permissão para o seu estado de ânimo. Eu treino todos os dias com meu personal, chova ou faça sol, motivado ou não. Se eu dependesse de motivação, teria parado há anos. Foi disciplina, não motivação, que me levou de um corpo que eu não reconhecia para um InBody de 93 em 100, sem cirurgia, sem atalho. Motivação faz você começar. Disciplina é o que faz você continuar depois que a vontade passou.

Qual é a diferença entre querer mudar e realmente tomar a decisão de mudar? Querer mudar é um desejo confortável. Você pode carregar esse desejo a vida inteira e nunca se mexer, porque querer não exige nada de você. Decidir é o momento em que você para de negociar com a preguiça e começa, mesmo sem estar pronto. Foi assim que meu livro nasceu. Eu queria escrever há anos, mas ele só passou a existir quando decidi gravar áudios contando minha história todos os dias, até aquilo virar capítulo. Hoje já são mais de trinta mil palavras. A decisão não vem com vontade. Vem com ação repetida, antes mesmo de você se sentir capaz.

Você já tinha uma carreira consolidada. O que levou você a decidir se reinventar depois dos 50? Eu já tinha uma carreira sólida: mais de trinta anos de turismo e uma empresa com 24 anos de história. Mas percebi que sucesso consolidado e vida plena não são necessariamente a mesma coisa. Eu tinha construído um negócio; não tinha necessariamente construído o resto de mim. Decidi que os anos que ainda tenho pela frente não seriam apenas sobre manter o que já funciona. Seriam sobre crescer em tudo: corpo, fé, voz, relacionamento, propósito. Reinventar depois dos 50 não foi uma insatisfação com o passado. Foi recusar a ideia de que o capítulo mais importante da minha vida já tinha sido escrito.

Em que momento você percebeu que precisava fazer escolhas diferentes para a sua vida? O momento mais claro foi quando o físico começou a responder à disciplina. Quando vi resultado de verdade, não apenas esforço. Aquilo me provou algo maior do que estética: se o corpo, que eu carregava do mesmo jeito a vida inteira, podia mudar depois dos 50, então nada nessa fase da minha vida estava definitivamente decidido. Se uma coisa podia mudar, todas podiam. Foi aí que resolvi tratar minha voz, minha fé, meu negócio e minha vida pessoal com a mesma disciplina que já estava aplicando no treino.

Existe uma relação entre a disciplina que você desenvolveu no ciclismo e a forma como conduz seus negócios? Total. O ciclismo não perdoa quem quer resultado sem repetição. Você não sobe uma subida forte porque teve um dia de inspiração. Você sobe porque pedalou centenas de dias em que não queria. Levei isso para os negócios. Toda empresa que já construí, e agora a ABATE Lifestyle, foi erguida na mesma lógica: pedalada depois de pedalada, decisão depois de decisão, sem depender de estar inspirado. O ciclista sabe dosar o esforço para durar a prova inteira. O empresário precisa fazer o mesmo com o negócio. Aprendi os dois praticamente ao mesmo tempo, um ensinando o outro.

O que a maturidade trouxe para a maneira como você toma decisões? A maturidade tirou de mim a pressa de provar alguma coisa para os outros. Hoje decido menos pela reação de quem está olhando e mais pelo que realmente importa: fé, família, propósito e legado. Isso não me tornou mais lento. Me tornou mais preciso. Decisão madura não é decisão sem risco. É uma decisão sem ruído.

Para um homem 40+, quais são os principais obstáculos para sair da intenção e partir para a ação? O maior obstáculo não é físico. É a solidão de decidir sozinho. Um homem de 40 ou 50 anos geralmente já carrega responsabilidade demais para admitir que está com medo de recomeçar. E, sem ninguém para validar a decisão, é fácil ficar apenas na intenção. O segundo obstáculo é comparar a vida de hoje com a energia de vinte anos atrás, como se só valesse a pena começar se pudesse ser do jeito que era antes. Não pode, e não precisa. Você começa do ponto onde está, com a idade que tem, cercado das pessoas certas — não da versão de si mesmo que já passou.

O que mudou na sua vida depois que você passou a colocar mais disciplina na rotina, no corpo e nas suas escolhas? Tudo. O corpo mudou primeiro, e isso me devolveu confiança para mudar o resto. Voltei a cantar depois de décadas guardando minha voz em uma gaveta. Recomecei um negócio inteiro do zero, mesmo já tendo uma empresa consolidada há 24 anos. Pedi minha companheira em casamento cantando na frente de todo mundo, porque parei de esperar o momento perfeito e comecei a criar os momentos. E finalmente tirei do papel um livro que carregava dentro de mim havia anos. Disciplina não muda uma coisa só. Ela muda o padrão inteiro de como você vive.

Qual é o papel da fé, do propósito e da construção de um legado nessa nova fase? A fé é o que sustenta a decisão quando o medo aparece — e ele aparece sempre. Levo o Salmo 27:1 comigo: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei?”. Ele está até gravado em uma joia que eu mesmo desenhei. Propósito é o que transforma disciplina em direção. Sem propósito, você pode estar ocupado, mas não necessariamente está caminhando para algum lugar. E legado é a razão pela qual não quero guardar nada disso só para mim. Estou construindo uma mentoria dentro da ABATE Lifestyle porque quero que aquilo que aprendi na prática vire uma ponte para outros homens que estão exatamente onde eu estava.

A ABATE Lifestyle reúne turismo, estilo, joalheria e mentoria. Qual é o fio condutor entre esses universos? O fio condutor é a travessia. Toda transformação de verdade tem um atravessar. Não existe atalho. O turismo, que é minha origem, é a travessia externa: viajar é literalmente sair de um lugar e chegar a outro, diferente. O estilo é como você se apresenta depois que atravessou. A joalheria carrega o significado dessa travessia no corpo. Cada peça tem uma cruz, um símbolo de fé, algo que permanece com você quando a viagem acaba. E a mentoria é a travessia que eu ajudo outra pessoa a fazer, usando aquilo que já paguei caro para aprender. Não são quatro negócios separados. É a mesma jornada, contada de quatro maneiras diferentes.

O que você diria hoje para um homem de 40 ou 50 anos que sente que precisa mudar, mas acredita que já passou da hora? Eu diria que a data de validade que ele acredita ter passado nunca existiu. Foi ele mesmo que inventou. A travessia inteira começa com um primeiro passo pequeno, que ninguém vê: um treino, uma conversa difícil, uma aula que ele vem adiando. Ele não precisa se sentir pronto para começar. Eu não estava. Comecei depois dos 50, com uma empresa de 24 anos nas costas e uma vida inteira de coisas que eu tinha decidido que já não cabiam mais em mim. Se serviu para mim, pode servir para ele. A única coisa que realmente passa da hora é aquela que a gente nunca decide começar.