
Fernanda de Freitas vive um momento de reencontro com a televisão, mas também de reafirmação de uma trajetória construída entre diferentes linguagens e desafios. De volta às novelas da Globo em “Por Você”, a atriz interpreta Silvia, uma ex-bailarina marcada por frustrações que projeta na filha adolescente os sonhos que deixou pelo caminho. Contraditória, exigente e movida por uma relação em que amor e controle se confundem, a personagem apresenta a Fernanda a oportunidade de explorar um território dramático diferente de muitos de seus trabalhos anteriores. Com uma carreira que transita com naturalidade entre televisão, cinema, teatro e comédia, Fernanda chega a essa nova fase levando para a tela a experiência acumulada ao longo dos anos — especialmente nos palcos, que considera uma verdadeira escola para o ator.
O tempo também transformou sua maneira de lidar com exposição, cobranças e escolhas profissionais, sem diminuir o entusiasmo por novos personagens e boas histórias. Aos desafios do presente somam-se muitos desejos ainda por realizar: dos clássicos no teatro ao trabalho com grandes cineastas, passando por personagens capazes de ampliar a representação de mulheres maduras na dramaturgia. Em conversa com a MENSCH, Fernanda fala sobre o retorno às novelas, os conflitos de Silvia, maturidade, frustrações que fortaleceram sua relação com a profissão e a certeza que permanece depois de tantos anos: atuar continua sendo uma de suas grandes paixões.


Você está de volta às novelas da Globo em “Por Você” depois de um período afastada do formato. Como está sendo esse retorno e o que mudou em você, como atriz, desde sua última novela? É sempre um prazer fazer novela. Adoro! Falar para o grande público, muito me agrada! Foi onde comecei. Mas também acredito muito na força do teatro, quando falamos para menos pessoas, ao vivo e cara a cara. O teatro é formador, é escola para o ator. E acho que ter voltado aos palcos, nesse hiato com a TV aberta, é o que mais me amadureceu como atriz. A gente sempre aprende toda vez que entra em cena.
Em “Por Você”, você interpreta Silvia, uma ex-bailarina que projeta na filha os sonhos interrompidos pela maternidade. O que mais despertou seu interesse nessa personagem e nas contradições que ela carrega? A Silvia é uma personagem desafiadora, contraditória mesmo. A relação com a filha é, ao mesmo tempo, cheia de amor e de conflitos. Na mesma medida que ela ama, ela cobra, exige da filha, ainda adolescente, a dedicação e a busca pela perfeição, que ela, um dia, teve com a sua profissão. É uma relação tóxica. Ela projeta na Hanna o que não conseguiu alcançar, exatamente por ter se tornado mãe, jogando na menina a culpa e toda a sua frustração por não ter se tornado uma grande bailarina. É muito diferente de tudo o que já fiz como atriz. E isso me encantou!


Silvia acredita estar buscando o melhor para a filha, mas acaba estabelecendo uma relação tóxica e controladora. Como encontrar humanidade em uma personagem que pode despertar sentimentos tão controversos no público? A humanidade dela está no grande amor que sente pela filha. Tenho buscado fazer as cenas com muita verdade e espero que isso chegue em que assiste.
Sua trajetória na televisão passa tanto pelo drama quanto pelo humor, incluindo trabalhos que exploraram bastante seu timing para a comédia. Você sente falta de fazer humor? É um gênero que gostaria de revisitar? Eu gosto muito de passear pelos gêneros. Fiquei muitos anos fazendo séries de humor na Globo e na época, fui buscar a tragédia, no teatro, em Pulsões, para me alimentar como atriz e sair da minha zona de conforto. Recentemente, minha última novela e esta agora, me trouxeram personagens dramáticos, assim como na peça Habitat, que voltarei a atuar em setembro, em São Paulo. Mas tenho dois filmes a serem lançados, Assalto à Brasileira e Álibi, onde revisito a comédia. Então, o que quero mesmo, no momento, é contar boas histórias!
Depois de tantos anos de carreira, sua forma de encarar sucesso, exposição e reconhecimento mudou? O que hoje define um momento profissional feliz para você? Acho mais difícil hoje em dia. Antigamente, tínhamos “apenas” os jornais e algumas revistas e seus críticos. Com as redes sociais, a exposição é gigantesca, as críticas vêm de todos os lados. Temos que tomar muito cuidado para que isso não atinja a nossa saúde mental. A felicidade, na carreira, para mim, existe quando temos certeza do amor que temos pelo que fazemos e disso, eu não tenho nenhuma dúvida!


Houve períodos em que você esteve menos presente na televisão. Esse afastamento foi importante para repensar prioridades e a própria relação com a profissão? Amo fazer TV, amo estar no teatro, cinema, agora, nos streamings…. Trabalhar é o que me move como pessoa. Mas também amo ficar em casa, com a minha família, viajar, ficar no ócio… São momentos importantes para nos renovarmos, nos reciclarmos.
Televisão, cinema e teatro oferecem processos muito diferentes para um ator. Existe hoje algum desses espaços que desperte uma vontade especial ou algum projeto artístico que você ainda queira realizar? Nossa, taaanta coisa que eu ainda quero fazer como atriz, que nem sei por onde como começar. Por exemplo, nunca fiz um clássico no teatro, como Shakespeare ou Nelson Rodrigues, fazer um road movie, trabalhar com grandes diretores de cinema, como o Karim, o Kleber Mendonça, fazer grandes personagens na tv, enfim, são muitos desejos.


Você começou a ganhar projeção ainda muito jovem e atravessou diferentes momentos da televisão brasileira. Como enxerga as transformações da profissão e, principalmente, as novas possibilidades para atrizes que chegam à maturidade? A produção dramatúrgica precisa acompanhar o amadurecimento da sociedade e acho que precisamos enxergar melhor as personagens na casa dos 40, 50 e até pós 60. Vejo muitas oportunidades nessas novas leituras, acho que temas pouco retratados, que acompanham as mulheres nessa fase da vida, de relevância nessa faixa etária, precisam acontecer com mais frequência. Elas já estão aí, mas, acho que ainda tem um universo de personagens para serem escritas e vividas por nós.
O que a Fernanda de hoje diria para a Fernanda de início de carreira? Que “tabus” sobre sua profissão você derrubou ao longo do tempo que eram um problema quando mais nova? Olha, o que eu diria para a Fernanda mais jovem e ainda digo para a Fernanda de hoje é: “se cobre menos!” (risos).

Com a experiência, muitos artistas passam a estabelecer uma relação mais seletiva com o trabalho. O que precisa existir hoje em um roteiro ou personagem para fazer você pensar: “quero contar essa história”? Eu quero ajudar a contar boas histórias e ponto. Se o roteiro me cativar, eu faço! E fazer personagens diferentes também, me motiva muito.
Olhando para tudo o que já construiu, existe algum trabalho que tenha provocado uma transformação especialmente importante na sua maneira de atuar ou de enxergar a própria carreira? E o que você ainda deseja experimentar daqui para frente? “Cidade Baixa”, filme que passei por muitos processos de teste, depois meses de preparação para viver a protagonista e no final, a 10 dias das filmagens, ter sabido que não ia mais viver aquela personagem, depois de tanta entrega, tanta dedicação foi muito triste e até traumático pra mim. Por outro lado, como em qualquer momento de dor, nós amadurecemos muito. Acho que foi o momento em que eu tive a certeza que não desistiria da profissão. Sempre fui batalhadora e aquele episódio me deu mais gana de seguir adiante, já que eu era jovem e uma iniciante na carreira. Eu poderia ter desistido ali, mas levantei a cabeça e fui em frente. E também quando estreei no teatro em “Ensina-me a viver”. Foi transformador estar no palco e ali, eu tive a certeza de que tinha feito a escolha certa: não desisti na primeira grande frustração. Como já mencionei aqui na entrevista, o teatro é escola para o ator e nos 5 anos em que tive em cartaz com essa peça, amadureci muito como atriz. Foi um divisor de águas na minha carreira.
Onde carrega suas baterias? O que te encanta? Carrego as minhas baterias quando estou em casa, com o meu amor, minha família, meus cachorros, quando estou em contato com a natureza.

Fotos Priscila Nicheli
Styling Samantha Szczerb
Beleza Patricia Nicheli
Assessoria First Press Comunicação
Agradecimentos: Ana Botafogo Maison, Nayane, Pathy


