ESTRELA: LUIZA ROSA, A QUERIDA KELLEN DE “TRÊS GRAÇAS”

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A atriz Luiza Rosa vive um daqueles momentos que transformam uma carreira. Depois de conquistar espaço no audiovisual com talento e dedicação, ela recebeu um convite que mudaria tudo: integrar o elenco principal de Três Graças, novela das 21h que marcou sua estreia em um papel fixo na televisão. Interpretando Kellen Cristina, uma jovem evangélica de personalidade doce, mas firme, Luiza encarou o desafio de construir uma personagem humana e acolhedora, capaz de conquistar o público justamente por fugir dos estereótipos. Nesta entrevista, a atriz relembra o impacto do convite inesperado, fala sobre os bastidores da sua preparação e revela como foi dar vida a uma personagem tão sensível em um universo até então distante da sua realidade.

Como foi o impacto de entrar direto no elenco principal de uma novela das 21h como Três Graças? Quando eu recebi o convite, eu não imaginava que a Kellen estaria no elenco protagonista da novela, como coadjuvante, porque normalmente os convites rolam para papéis de apoio, normalmente elenco de apoio. Então eu fiquei bastante surpresa e amei. Falei que estão me dando grandes oportunidades e vou aproveitar para dar o meu melhor. Essa é a hora.

O que você sentiu ao receber o convite no dia 1º de abril? Chegou a achar que era brincadeira? Confesso que achei que era brincadeira, por alguns momentos aquilo se passou pela minha cabeça, eu falei assim, caramba, será que o Guilherme, Guilherme Gob, né, que é o produtor de elenco, será que ele faria isso? Aí eu falava, não, ele não faria isso. E o engraçado é que depois do convite, a produção sumiu, e só foram entrar em contato comigo de novo no final de maio. Durante quase um mês eu fiquei nas escuras esperando uma resposta e durante esse um mês, várias vezes se passava pela minha cabeça, será que é uma piada? Será que foi uma piada do dia 1º de abril?

Em que momento caiu a ficha de que esse seria seu primeiro papel fixo na TV? Quando eu assinei o contrato, foi a primeira queda de ficha, mas ela foi caindo aos poucos. Acho que ainda não caiu totalmente, não.

O que mais te chamou atenção na Kellen Cristina quando você conheceu a personagem? O que mais chamou minha atenção na Kellen foi o fato dela não julgar. Era uma das coisas principais na construção dessa personagem. Era para que eu ficasse atenta a isso. E aí eu tive que trazer esse exercício para mim, pessoalmente. Para que eu pudesse passar pra Kellen, assim. Ela não julgava nenhuma atitude dos personagens. Então assim, a coisa da Joélly vender o bebê, do Raul ter problema com drogas. Ela era mais solicita ajudando e consolando do que julgando. E tentando resolver. Então foi um exercício muito grande porque eu sou uma pessoa muito crítica.

Quais foram os maiores desafios em interpretar uma jovem evangélica sem fazer parte desse universo? Eu achei que o maior desafio seria a conquista do público. Antes mesmo da novela começar, tinham comentários na internet, como: ah, vai ser a hora, quando esse núcleo evangélico entrar em cena, vai ser a hora que eu vou ao banheiro ou vai ser a hora que eu vou desligar a televisão, eu espero que eles morram todos. Era esse tipo de comentário que tinha antes da novela começar, então eu falei caramba, vai ser difícil conquistar o público e acabou não sendo. Os personagens foram muito queridos do início ao fim.

Como você construiu o equilíbrio entre a doçura e a firmeza da Kellen? Uma das estratégias que eu usei para fazer a novela foi aproximar o personagem de mim. Alguns atores gostam de fazer isso, outros atores não, mas pra mim, como primeira experiência, funciona bastante. A gente tem muito tempo para brincar com o personagem, o que facilita muito criar nuances. Então, essa criação da personagem, que é doce, e ao mesmo tempo firme, eu tanto busquei em registros pessoais, para que ficasse mais fácil de entender e me aproximar do personagem, quanto eu tive momentos pra isso na novela, eu tive cenas que apontavam mais doçura, cenas que apontavam mais firmeza. E junto com as preparadoras, conseguimos construir uma personagem muito humana que consegue passear por esses dois lugares, sem sair da sua personalidade principal.

Como tem sido o seu processo de preparação, especialmente com as aulas de piano e canto? As preparadoras foram a Maria Betta Peres, Tatiana Muniz e Fernanda Rocha. A preparadora voltada para o sotaque e prosódia foi a Leila Mendes. E o pessoal que me ajudou com o canto e essa parte de tocar teclado, essa parte musical da Kellen, foi o Reno Duarte e o Alan Vieira. O Alan me deu aulas de teclado. E o Reno é o produtor musical da novela que conduziu todo esse processo musical da Kellen. Foram pessoas muito especiais, são profissionais excelentes, muito bem-preparados. E a gente teve uma presença também fundamental do Luiz Henrique Rios, que se colocou ali à disposição, que estava presente nas preparações, nas leituras. Então foi fundamental a gente ter esse olhar presente do diretor pra construir esses personagens, porque a novela é uma novela de personagens muito marcantes. Então era fundamental que a gente conseguisse tocar no ponto certo. Acho que todos nós acertamos o tom, todos nós acertamos o ponto do personagem e eu tive sorte de ter esses profissionais incríveis no meu lado.

Você buscou referências ou conversou com pessoas da comunidade evangélica para compor a personagem? Eu consumi muitos conteúdos de pessoas cristãs, consumi também muito conteúdo do audiovisual, conversei com pessoas, amigos e pessoas mais próximas assim, que são da religião evangélica, e a gente também teve a ajuda de um consultor chamado César Belliene, que é um pastor, muito legal, que escuta a gente, que entende, que acolhe e que explica muito bem. Ele faz parte da consultoria da novela, e inclusive membros da equipe da própria novela. Tem pastor, tem pessoas cristãs, tem pessoas de todos os tipos de cargo da igreja, então me senti muito bem amparada por essa minha pesquisa.

Qual foi a cena mais desafiadora até agora? Uma das sequências que eu mais gosto é a dos primeiros capítulos onde a Kellen vai salvar a Joélly e o Raul do Bagdá, então ela sobe no mirante, conversa com o Bagdá, conta de quem a Joélly é filha, desce do mirante, dá uma bronca neles, então assim, eu passeei por vários lugares da personagem, logo nesse início da novela e foi muito interessante pra mim toda essa sequência, mas uma das mais bonitas que eu destaco pra vocês é quando a Joélly diz pra Kellen que ela vendeu o bebê. Como ela é esse personagem que não julga? Eu fui conversar com as preparadoras e falei, como assim? Ela dá essa informação de que ela vendeu um bebê e a Kellen acolhe ela. Como é que a gente faz isso? Elas falaram, Lu, leva esse questionamento pra dentro da cena, nem conscientiza muito, só vai. Então quando você chegar em cena, você vai entrar em cena com esses questionamentos. Meu Deus, o que eu faço com essa informação? E isso foi muito interessante. Aconteceu várias vezes. Eu acho que é isso o que humaniza o personagem. A gente trazer questões que eles não sabem de tudo. Apesar de serem muito bem construídos, eles não têm um ponto final. Tem muitas nuances essa cena… Essas duas cenas que eu destaquei mostraram essa humanidade da Kellen muito forte.

Você enfrentou várias recusas em testes antes desse papel. O que te fez persistir? Com certeza, a gente é mais recusado do que passa nos testes. Então, isso é muito comum. Na própria Globo, eu fiz o programa humorístico Volte Sempre, onde eu fiz teste para três personagens diferentes. Não passei para nenhuma, mas fui convidada para fazer uma participação e adorei. Que, inclusive, é com o mesmo produtor de elenco de Três Graças. Talvez ali ele, me conhecendo melhor, levou ele a fazer o convite para a novela. Então, testar é muito importante. Mesmo que a gente não passe, fazer o teste, se colocar ali na frente da produção, na frente da direção, se mostrar disponível, entregar um bom teste, é muito mais importante do que passar. Porque, às vezes, a oportunidade vem um pouco depois ou bem depois, mas baseado naquele teste que você entregou.

Como as oficinas da Globo contribuíram para essa conquista? Eu fiz duas oficinas na Globo, em 2024, as duas voltadas para o humor, o que foi muito interessante. É muito importante porque a gente conhece, além dos preparadores. A galera que está com a gente ali fazendo oficina, é muito interessante a gente trocar esse contato. Na oficina nós temos tarefas em grupo, o que ajuda muito a gente a expandir nosso conhecimento, porque cada um sempre vai estar entregando o melhor de si. Às vezes um é melhor na internet, o outro é melhor fazendo um roteiro, o outro é melhor executando, o outro é melhor editando, e a gente, assim, entende, aprende no coletivo. E também os produtores de elenco que se apresentam para a gente, vão assistir a gente. Além disso, o nosso material todo é gravado e armazenado na Globo, então todos eles têm acesso a tudo que a gente fez nas oficinas, o que abre muitas portas. Com certeza.

O que você aprendeu com suas participações em Sob Pressão e Mussum, O Filme? ‘Sob Pressão’ foi meu primeiro trabalho, então foi meu primeiro contato com audiovisual, com a estrutura, com tudo. Eu muito perdida lá dentro, mas consegui entender muita coisa, né? Já fui preparada para isso, tive pessoas que me prepararam para esse ambiente, mas foi o meu primeiro grande contato. Fui muito bem recebida lá, percebi que trabalhar com audiovisual poderia não ser um bicho de sete cabeças, como as pessoas acreditam muitas vezes que é, né? Porque a equipe me tratou com muito carinho e em Mussum foi, assim, a minha grande primeira escola também. Foram magias. Me aproximei mais do elenco, teve um processo de construção melhor. Ganhamos muitos prêmios, então foi meu primeiro grande trabalho, onde eu conheci pessoas incríveis que tenho amizades até hoje e aprendi muita coisa. Um elenco preto, uma direção preta que me fez sentir em casa, confortável. Foi até agora um dos melhores, com certeza, um dos melhores trabalhos que eu já fiz na vida.

Existe algum trabalho anterior que foi decisivo para o seu amadurecimento como atriz? Com certeza, o Mussum me fez amadurecer muito como atriz. Eu tive ajuda ali da Cacau Protásio, que pegou na minha mão e falou, vamos embora, vamos juntas, a gente tem que se dar mão uma com a outra. E disse que a Adriana Esteves fez isso com ela e ela estava fazendo isso comigo também. E meu objetivo é passar isso adiante. Então, assim, ali eu cresci muito, eu conheci muito profissionais do cinema também, e foi muito importante para o meu desenvolvimento como atriz, com certeza.

O que significa para você estar no horário nobre como uma mulher preta retinta com seu cabelo natural? É muito importante estar com o meu cabelo natural, tanto para mim quanto para as pessoas que se sentem representadas por mim. Eu já fui parada várias vezes na rua, principalmente por mães de meninas, mães de crianças, que vieram contar que suas filhas, seus filhos, se sentiam muito felizes em ver alguém com cabelo igual ao deles na televisão. O que hoje, em 2026, está muito melhor, muito melhor representado, mas ainda não é comum. A gente vê muitas pessoas pretas, sim, que alcançaram lugares muito importantes, sim. Mas o cabelo, infelizmente, ainda é uma questão. Nem sempre está do jeito que o ator quer, porque passa por uma triagem de profissionais para construir aquele personagem, para formatar aquele personagem. Mas eu fiquei muito feliz. E quando o diretor Luiz Henrique falou que o cabelo dela seria assim, que não teria trança, que não teria aplique, que seria assim, natural. Me alegrou muito ele, como uma pessoa branca, reconhecer a importância disso.

Você sente uma responsabilidade maior em relação à representatividade? Como lida com isso? Não sei se seria uma responsabilidade maior, porque eu acho que o meu papel dentro da representatividade como uma mulher preta é o mesmo em qualquer área, em qualquer função que eu ocupasse, tendo sucesso ou não, estando nessa carreira ou em outra, mas com certeza ele é mais potente, ele alcança mais pessoas, então eu tenho tomado muito cuidado com isso, justamente para não fazer nada em vão e continuar assim carregando esse legado que muitas deixaram, enfim, e espero repassar isso para muitas outras.

Depois desse primeiro grande papel, qual é o próximo sonho? Eu tenho muitos sonhos. Tenho muitos grandes sonhos. Um eu prefiro guardar, outros eu posso compartilhar com vocês. Mas eu adorei fazer novela. Eu me apaixonei muito pelo universo. Eu gostaria muito de continuar nesse processo com a Globo. Gostaria muito de trabalhar com humor futuramente também. E quem sabe uma carreira internacional, já que aproveitando que eu falo inglês, que eu sou formada em inglês, que falo espanhol, de repente mais para frente uma carreira também internacional seria interessante.

Você já morou em vários bairros do Rio. Isso influencia sua forma de ver o mundo e a atuação? Com certeza a minha andança pelo Rio de Janeiro me transformou muito como pessoa e consequentemente como uma melhor profissional, porque eu já tive que estourar a minha bolha várias e várias vezes. Eu já morei em dez bairros diferentes, se não me falhe a memória. Dez bairros diferentes do Rio de Janeiro, tanto subúrbio quanto zona sul. Já passei por muitos lugares, já fui parte de muitas sociedades diferentes e grupos diferentes de pessoas, então isso com certeza me ajuda a criar, na hora de criar os personagens, na hora de me refazer. Eu tenho muitas referências de pessoas na minha vida, diferentes, então isso é uma parte muito grande de quem eu sou.

Como sua família reagiu à sua conquista na novela? Ah, eles ficaram malucos, né? Adoraram, choraram, minha família sempre me apoiou muito, assim, do jeito deles, lógico, mas a minha família sempre acreditou que fosse possível. Então, o apoio da minha mãe, das minhas irmãs, dos meus cunhados, meus sobrinhos, foram fundamentais para mim.

Fora das gravações, o que a Luiza gosta de fazer no dia a dia? Eu gosto muito de estar com pessoas. Então, meus amigos, minha família, é ali que eu recupero minhas energias, é ali que eu coloco minha cabeça no lugar, que eu me restauro para o resto da semana, para a rotina de trabalho intensa, enfim, então, estar na presença de pessoas que eu amo é fundamental.

Fotos Rodrigo Lopes

Produção executiva e styling Samantha Szczerb

Beleza Zuh Ribeiro

Assessoria Marrom Glacê

Agradecimentos Ana Barcala, Nayane, Inti, Gila