Depois de integrar o elenco de produções como “O Doutrinador”, “Divórcio” e “Maria do Caritó”, Gustavo Vaz acaba de estrear como o protagonista de “O Jardim Secreto de Mariana”, novo filme de Sergio Rezende, atualmente em cartaz nos cinemas. Rodado em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, com cenas gravadas também em Inhotim, Minas Gerais, o filme desenrola o romance entre João (Gustavo Vaz) e Mariana (Andreia Horta). Cinco anos depois da separação abrupta, ele decide seguir seu instinto e parte numa longa jornada de bicicleta para tentar convencê-la de que o romance nunca deveria ter acabado. O amor, que ainda existe entre os dois, é então posto em xeque. 

Paralelo ao lançamento do novo longa, o ator também acaba de estrear no Amazon Prime o filme “Depois a Louca Sou Eu”, com direção de Julia Rezende, onde interpreta Gilberto, um psicanalista ansioso que encontra o amor em tempos de angústia. Já no teatro e na literatura, seus novos projetos incluem “A Voz de Iara”, espetáculo solo autobiográfico onde escreve e atua, com previsão de estreia para o primeiro semestre de 2022, e seu primeiro livro, um romance, que também deverá ser lançado no primeiro semestre do ano que vem. Diretor e dramaturgo da ExCompanhia de Teatro, Gustavo Vaz também se prepara para comemorar o aniversário de 10 anos da companhia através de inúmeras apresentações que acontecem no próximo ano.

“O Jardim Secreto de Mariana” já é a sua segunda estreia no cinema este ano. Qual os desafios e as expectativas de viver seu primeiro protagonista nas telonas? O que esse personagem trouxe de novo para sua carreira? Fico muito feliz de cada vez mais trabalhar no cinema. Tenho recebido convites bonitos e carinhosos nos últimos anos – “O Jardim Secreto de Mariana” é mais um deles. Recebi, com muita alegria, a possibilidade de trabalhar com Sérgio e Andreia, artistas que sempre admirei, num projeto tão forte. Minhas expectativas são as de que o filme tenha uma vida bonita no cinema e depois no streaming. João me desafiou em muitos lugares, não só por se tratar de um papel protagonista, mas pela complexidade de sua jornada. Foi um grande aprendizado.

Como você enxerga o futuro das salas de cinema dentro de um cenário pandêmico e com o crescimento, cada vez maior, de produções exclusivas voltadas para as plataformas de streaming? O cinema, assim como o teatro, nunca acabará. As pessoas buscam a experiência coletiva que essas duas linguagens proporcionam e que não são encontradas quando se assiste a um filme em casa. Ao mesmo tempo, vejo com bons olhos o crescimento do streaming pois, além de aumentar o campo de trabalho para os profissionais do audiovisual, proporciona ao público maior variedade de escolha. Se esse crescimento for acompanhado por regulações que protejam os direitos de artistas e técnicos no Brasil, acho que só temos a ganhar.

Ainda dentro do mesmo cenário, com a pandemia, as pessoas passaram a ter uma outra forma de produzir e de consumir teatro. O público se viu diante da possibilidade de poder assistir a várias produções direto do sofá de suas casas. Você acha que isso veio pra ficar? Acredita que, além do espetáculo presencial, as produções também precisarão criar um formato virtual para aqueles que preferem assistir sem sair de suas casas? A Voz de Iara, seu espetáculo autobiográfico, deve estrear em 2022. Você pretende estrear nesses dois formatos? As experiências virtuais já existem há algum tempo. Faço parte de um grupo de teatro e experimentação artística que produz obra em formatos híbridos desde 2012. Sinto que, a partir de agora, o público acessará esse tipo de experiência com mais conforto e com menos estranhamento. Sobre meu espetáculo, inicialmente gostaria de realizá-lo apenas no palco, mesmo com algumas resultantes em outras mídias e plataformas. 

Você ao longo de sua carreira de 17 anos de atuação, foi premiado em importantes prêmios, como o Melhor ator no prêmio Shell. Como foi para você receber estas premiações? Você acha que um ator premiado tem mais chances dentro de um mercado tão competitivo? Acha que isso interfere na escalação de um ator? Não. Os prêmios facilitam uma espécie de percepção da sua trajetória ou contribuem num aumento de credibilidade, mas não sinto que sejam determinantes para uma carreira de sucesso. Muitos atores e atrizes incríveis nunca ganharam um prêmio e nem por isso deixaram de trabalhar. Tenho muito orgulho dos prêmios que recebi, mas tento sempre olhar para eles mais como uma lembrança boa do que como algo que me traga alguma certeza.

Como funciona a sua autocrítica ao assistir um trabalho seu? Gosta de se ver? Como é esse processo? Sou muito autocritico. Tenho diminuído esse olhar duro sobre mim nos últimos anos e isso tem me ajudado a ter mais prazer nos processos criativos. Sinto que essa característica é algo inerente a mim e não conseguirei apagá-la por completo. No entanto, nessa busca por mais relaxamento no ofício, tenho descoberto novas possibilidades de expressão bastante interessantes. Quanto a me ver, tento assistir para entender onde posso melhorar em outros trabalhos. Sou um eterno insatisfeito, e isso tem um lado que pode ser muito positivo e outro bastante difícil.

Você é um dos diretores e dramaturgos da ExCompanhia de Teatro, grupo com quase 10 anos de história. É mais difícil dirigir uma companhia de teatro nos dias de hoje? Quais os desafios e planos da Cia para 2022? Nosso grupo não se enquadra num molde ou numa expectativa relacionada a um grupo de teatro tradicional. Passeamos por diversas linguagens e formatos, tendo o teatro sempre como norte. A dificuldade de se trabalhar com arte no Brasil sempre foi muito grande, mas agora, com o terrível governo atual, tudo está mais difícil. Ano que vem completaremos 10 anos de estrada e espero que consigamos levar a público parte do nosso repertório e um novo projeto. 

Quais são seus projetos futuros? Além do livro e do seu espetáculo, existe algum novo projeto no audiovisual? Alguma nova série ou filme? Estou filmando um novo trabalho que ainda não posso divulgar ou comentar nada sobre, mas que, em breve, chegará até as pessoas. Além disso, alguns outros projetos que aguardam captação de recursos. Estou esperançoso de que ano que vem será melhor. Temos, inclusive, a chance de corrigirmos o erro que cometemos enquanto sociedade ao permitirmos que esse governo assassino fosse eleito. Espero que tenhamos aprendido.

Fotos Márcio Farias