
Nascida na cidade Cova da Piedade, uma localidade portuguesa do Município de Almada, a trajetória de Patrícia Ribeiro é cheia de percalços, superações, barreiras, mas também de muito sucesso. Os desafios enfrentados por Patrícia desde a infância não foram poucos, mas com toda perseverança ela conseguiu superar e tornar-se referência para quem conhece a sua história de vida. Em meio a tanto preconceito e discriminação, Patrícia, a primeira cantora transexual portuguesa, no fim só quer ser feliz e realizada assim como qualquer pessoa. Os julgamentos sempre foram muitos. Mas afinal por que ela não poderia ser feliz da forma que ela se sente, se enxerga? E é com esse desejo de ser quem ela deseja ser, que Patrícia tem conquistado seu lugar ao sol. Cantora premiada com dois discos de ouro, Patrícia vem recebendo vários convites para realizar palestras motivacionais, com o seu testemunho de luta e superação. E ainda este mês a artista irá voltar a estúdio para gravar dois novos temas musicais. De Portugal para além-mar, com você Patrícia Ribeiro!
Patrícia, soubemos que desde muito cedo você começou a se envolver com a música. Como foi isso? Comecei a cantar na pré-adolescência, com 11 anos de idade em grupos de grande sucesso aqui em Portugal, Jovens Cantores de Lisboa e Onda Choc. Lá fiz uma audição com centenas de crianças e fui selecionada.

Você nasceu na pequena cidade Cova da Piedade, que é uma localidade portuguesa do Município de Almada. Quando percebeu que ali não era seu lugar e que você queria ganhar o mundo? Percebi desde cedo que era uma criança diferente, pois sempre fui fascinada pelo universo feminino, e sofri muito na escola de bullying. Apanhei muito, e decidi iniciar a minha transição de gênero com 17 anos de idade. Vim morar na capital, Lisboa para me tornar a mulher que sou hoje.
Ao longo da sua trajetória você enfrentou muitos preconceitos e derrubou barreiras. Do que você mais se orgulha até aqui? Foi muito difícil confesso. Há 20 anos, não havia os meios de informação que existe hoje, e eu sendo neta de um oficial da marinha e com uma educação muito rígida e conservadora foi bem difícil no seio familiar enfrentar todo o preconceito e discriminação. Mas Deus todo poderoso foi quem me deu força pra enfrentar o mundo e lutar pela minha felicidade, e conseguir ser quem eu sou e sempre fui mentalmente e psicologicamente, a Patrícia Ribeiro. Deus está sempre presente na minha vida, ele foi a minha salvação.
E qual (ou quais) desafio interno foi mais difícil de superar? Olhando para trás ter orgulho dessa superação? A privação da minha liberdade. Foi duro, muito duro. Nunca pensei que iria suportar a dor de ser presa durante seis anos, mas eu agradeço a Deus ter me colocado ali na cadeia, estava num caminho obscuro, fiz escolhas erradas, estava perdida. E com a fé em Deus, consegui superar e tornar-me uma pessoa melhor, e através dos cursos que frequentei na prisão de desenvolvimento pessoal e aquisição de competências morais e éticas, aprendi a me colocar no lugar do outro. Consegui evoluir e consolidar a minha personalidade e me tornar uma mulher mais forte e determinada, foi um grande aprendizado.

Num mundo tão mais liberal e ao mesmo tempo cheio de preconceitos, por que é mais difícil ser quem você de fato gostaria de ser? Hoje em dia o mundo após a pandemia ficou mais frágil, as pessoas de alguma forma ficaram afetadas mentalmente com isso e perderam seus valores morais. As pessoas estão mais amargas e é aí, como referi anteriormente, que a força de Deus me faz enfrentar tudo. Todos os dias faço orações e vou à igreja uma vez por semana. Acendo uma vela branca ao meu anjo da guarda. A fé me salvou.
Ser a primeira cantora transexual portuguesa é um marco. Mas acredita que se fosse em outro país a aceitação seria diferente (seja para pior ou melhor)? Foi uma luta muito grande em Portugal, tive dois discos de ouro, foi gratificante, mas não foi fácil. Portugal ainda é um país muito conservador, e por vezes as mentes parecem regredir. É uma luta constante para nós mulheres trans. Eu sou apaixonada pelo Brasil, talvez aí fosse mais fácil.

2011 foi marcado pelo lançamento do seu primeiro trabalho solo intitulado “É Real”, álbum que conta com 11 canções nos ritmos de Dance Music e latino-americanos. No ano seguinte já se dedicou à produção de seu segundo álbum. Neste álbum, o single ‘Lotaria do Amor’ foi premiado com disco de ouro, um marco importante em sua carreira. Isso foi um atestado de que você chegou lá. Como isso repercutiu para você? Como referi na pergunta anterior o álbum Lotaria do Amor foi um marco na minha carreira, foi esse o sucesso, o estouro. Tudo começou com um clipe moderno com muitos bailarinos, um ritmo que contagiou Portugal e até aí no Brasil, pois em 2015 gravei o clipe num cenário brasileiro em São Paulo e foi um sucesso. Foi gratificante passaram mais de 10 anos e todo mundo canta o êxito “Lotaria do Amor”.
Em 2015 você lançou o álbum ‘Beat Sexy’, disco que rendeu mais um disco de ouro e te elevou a outro patamar. O que mais te marcou nesse período como artista e como pessoa? Beat Sexy foi um sucesso também e aí percebi que tinha conseguido na verdade consolidar a minha carreira e me estabelecer na música enquanto mulher e artista. Um sonho de criança. Um enorme orgulho para mim, pois lutei muito para conseguir esses dois discos de ouro e ser bem sucedida em Portugal e aí no Brasil onde fiz vários shows com milhares de pessoas a assistir.
E como surgiu sua ligação com o Brasil? Que referências ou influências o país te traz? Eu sempre quis conhecer o Brasil. Quase todos os meus amigos são brasileiros e fiquei fascinada com o Rio de Janeiro com a amabilidade do povo brasileiro, o clima. As praias do Rio de Janeiro são tudo de bom. Eu já, já estou chegando, será um retorno triunfal (risos) com muitas surpresas.

A receptividade no Brasil foi tanta que você gravou o Hit “O Amor e o Poder”, da cantora Rosana, e Boys (Meu Príncipe Encantado) cujo clipe foi gravado no Brasil, nas Praias de Ipanema e Arpoador. Como foi a repercussão desses trabalhos em terras brasileiras? E refletiu no mercado português também? De todas as minhas passagens pelo Brasil, fui confundida tantas vezes com a cantora Rosana (risos), daí juntamente com o meu produtor decidimos regravar esse grande hit dos anos 90, “O Amor e o Poder” e me tornei no clipe a Deusa da canção. Foi incrível e impactante a reação dos fãs do Brasil. Mas o maior sucesso foi sem dúvida e continua sendo o Hit Boys (Meu príncipe encantado) gravado em Ipanema. Foi um êxito aí no Brasil e aqui em Portugal quando nos shows canto essa música o público vibra de uma forma contagiante com o refrão. Foi sem dúvida o grande sucesso.
Onde recarrega suas energias? Recarrego as minhas energias na igreja, com um banho de mar para lavar a alma, e com o carinhoso abraço da minha querida avó, o meu grande pilar de sempre e para sempre, o meu bálsamo.
Quais os planos para um futuro próximo? Regressar ao Brasil e contar toda a minha história e ser uma inspiração para muitas mulheres trans de todo o Universo. E realizar minhas palestras motivacionais, lançar a minha nova biografia, e um novo sucesso que aí vem e ser muito feliz. Um abraço com carinho a todos os leitores.
