e você acha que nudismo é sinônimo de naturismo, dispa-se dessa ideia. Se você insiste que naturismo é “mera desculpinha” para ver gente nua, de novo, dispa-se dessa ideia. E de tanto se despir de ideias equivocadas você é capaz de se acostumar com o nu despido de conotação sexual porque o naturismo é muito mais do que estar nu, é uma filosofia de vida que tem como base a conexão do homem com a natureza.

De acordo com alguns historiadores, o naturismo nasceu na Alemanha, se espalhou pela Europa e após a segunda guerra, chegou aos Estados Unidos. O surgimento se deu sempre em busca de melhorias na saúde que combinava o banho de sol, sem roupa, e uma alimentação o mais natural possível e livre de carnes. A partir da expansão da prática, em 1953, foi fundada a Federação Internacional de Naturismo – INF, em Montalivet na França, com o intuito de defender os interesses dos que praticam essa filosofia de vida. Já a Federação Brasileira de Naturismo, foi fundada em 15 de janeiro de 1988.

Mas muito antes disso, a dançarina, escritora e feminista, Dora Vivacqua, mais conhecida como Luz del Fuego, foi uma das primeiras pessoas a se despir de preconceitos e a implantar a cultura do naturismo no Brasil, ainda na década de 40. Mas só em 1951, por meio de uma autorização que recebeu da Marinha do Brasil, foi viver em uma ilha por ela rebatizada de Ilha do Sol, na costa do Rio de Janeiro, onde fundou o primeiro Clube Naturalista Brasileiro na América Latina. Em 19 de julho de 1967, Luz del Fuego foi assassinada aos 50 anos de idade. Por conta de sua luta pelos direito dos que gostam de viver sem roupa, o dia do nascimento de Luz del Fuego, 21 de fevereiro, foi estipulado extraoficialmente como o Dia Nacional do Naturismo.

FILOSOFIA

O naturismo é uma forma de vida cujos princípios éticos, e de comportamento, que sugerem viver em comunhão com a natureza, defendendo boas práticas ambientais, a vida ao ar livre, alimentação saudável e natural, além, claro, da prática do nudismo.  E é aí, na prática do nudismo, que se gera as mais variadas reações e ideias sobre o naturismo, sendo a maioria malvista por falta de conhecimento e algumas doses de preconceito. Acontece que o nudismo pregado pelo naturalismo tem por finalidade favorecer o autorrespeito, o respeito pelo outro e o cuidado com o meio ambiente, ao conectá-lo com o próprio corpo. Qualquer outra intenção além dessas, com cunho erótico ou sexual não condiz com a prática do naturismo.

“O naturismo para mim foi um divisor de oceanos em muitos aspectos – o contato com a natureza sem barreiras (mecânicas ou sociais), a consciência ambiental, o amor pela “Mãe Natureza” e nossos irmãos animais e vegetais.  O despir-se de todas as formas de preconceitos (em relação a mim e ao próximo), o voltar ou mesmo aprender a ouvir o silêncio, escutar o vento e observar a grandeza da natureza nos pequenos grandes atos. A aceitação de minhas limitações e ‘imperfeições’ perfeitas, resultados das experiências vividas. A busca por melhorar como ser humano, o convívio de forma igual com todos os outros naturistas, sem grifes ou rótulos, a amizade mais pura e verdadeira entre os naturistas… Além dos vários benefícios à saúde física e psíquica. O que mais me cativou – ser Eu, na minha integralidade, fazendo parte da Natureza. Liberdade”. É o que nos conta Alex, presidente da SONATA – Sociedade Naturista de Tambaba, explicitando os valores e o que se busca através do Naturismo.

PRÁTICA DO NATURISMO

Tornar-se ou descobrir-se naturista não tem regra. A experiência é única e a motivação totalmente subjetiva. Thiago Lima, por exemplo, deu início a um novo estilo de vida depois que, movido pela curiosidade e uma dose de coragem, subiu as escadas que separam o lado vestido do setor naturista na praia de Tambaba, na Paraíba. Foram poucos minutos de desconforto para se integrar completamente ao lugar, ser invadido por uma sensação de plena liberdade e preocupação estética zero em relação ao seu corpo e aos demais. A afinidade foi tanta que, desde então, é Vice-Presidente da SONATA e participa ativamente da gestão da praia e está cada vez mais mergulhado na filosofia do naturismo.

O nu é uma consequência do naturismo e não um fim. Mas é claro que não se pode negar que nem todos os frequentadores de praias de nudismo, estão ali por filosofia de vida. A experimentação, a curiosidade e as fantasias sexuais fazem parte do cotidiano desses lugares, o que é um lamento para quem vive o naturismo como estilo de vida. “No Brasil é difícil desassociar o sexo de quase tudo. Existe a cultura sexual em nosso país. A cultura do corpo com as medidas “perfeitas”, que deve ser exibido e desejado… Então é muito difícil fazer essa desassociação na fase adulta. Só os fortes conseguem”. Explica Pedro Ribeiro, Presidente da FBRN – Federação Brasileira de Naturismo.

Para desassociar o sexo e o olhar erótico sobre o corpo das pessoas do naturismo, o caminho é a informação. Segundo Alex Passos, o preconceito existe a partir da ignorância do saber, do desconhecer e, principalmente, do desrespeito à liberdade de escolhas do próximo.  Para ele o único caminho para combater esse viés equivocado é o conhecimento “temos que divulgar, difundir, disseminar a filosofia naturista como um dos meios de transformação do homem, e a partir deste transformar o mundo”.

Pedro Ribeiro explica que o naturismo não é para todo mundo, mas somente para quem tem a disciplina que a filosofia preconiza, pois não é somente tirar a roupa e ficar nu durante um período em algum lugar. “É internalizar a postura, respeitar, de verdade, as diferenças, o ambiente, a natureza com sua vegetação, animais e paisagem”.

Mas se ainda assim você não está convencido que vale a pena pelo menos uma ida a uma praia de nudismo para entender mais e melhor sobre o naturismo, não precisa tirar a roupa, somente o preconceito. “Sofremos alguns preconceitos na família, provocado talvez pelas regras impostas pela religião ou dogmas da sociedade. No trabalho rende muita curiosidade, os colegas sempre perguntam algo ou brincam com algum assunto voltado a nudez”, diz Thiago sobre o fato dele e a noiva praticarem o naturismo.

Segundo Pedro uma boa dica para marinheiros de primeira viagem, é tirar a roupa logo de uma vez, pois quanto maior for o tempo para isso, menos se sentirá à vontade para se desnudar, pois a adaptação vai ficando mais difícil. Ao chegar à praia, a pessoa deve já estar decidida a participar e não ficar naquela vou ver qual é, pois nas áreas públicas nem todo mundo que está ali, nu, é naturista e a pessoa vestida acaba chamando atenção de voyeurs, que infelizmente ficam na expectativa do strip-tease. Bem, para quem no fundo tem uma curiosidade a dica é ir conhecer. “É provável que você nunca mais quererá ir a outra praia ou sítio que não seja naturista”, conclui Pedro.

Como e quando você se descobriu naturista? Eu descobri o naturismo assistindo uma reportagem na antiga TV Manchete sobre a primeira comunidade naturista na Praia do Pinho / SC, no ano de 1992, e o programa era “Documento Especial” – Naturismo. Quando terminou o programa eu disse para mim mesmo que um dia iria viver assim, com aquele modo de vida e aquela filosofia.

O que difere o nudismo do naturismo? Tudo. O nudismo é o fato de tirar a roupa. Não havendo o que é fundamental ao naturismo, a interação com a Natureza, o engajamento com a preservação da vida no planeta, a interação com outras pessoas naturistas, a conscientização e disseminação das práticas saudáveis a nossa sobrevivência como planeta Terra. O despir-se de todas as formas de preconceitos, o respeito a si, ao próximo e a nossa “casa”. É nunca usar o seu templo “corpo” como objeto de prazer pelo puro prazer. O naturismo é família e é aprender a viver com o necessário (minimimalista).

Quais as maiores dificuldades de se manter uma praia como Tambaba dentro do roteiro naturista no Brasil? A dificuldade de se manter uma Praia Naturista no Nordeste do Brasil são inúmeras, a começar pela formação religiosa conservadora de nossa sociedade. A falta de conhecimento por parte da sociedade e de muitos “naturistas” sobre a filosofia naturista, sua história e seus benefícios. A cultura da associação, quase sempre, da nudez com hedonismo, pornografia ou outras atitudes não naturistas. A omissão dos órgãos públicos (Estado e Município) em gerir uma área pública com estrutura, segurança, conservação e divulgação, a falta de consciência por parte do empresariado sobre a importância turística de uma área naturista como diferencial. A própria atitude de muitos que se dizem “naturistas” em não “sair do armário” e se assumir como naturista e divulgar a filosofia e a não divulgação da área e da filosofia naturista pelos órgãos turísticos do Estado e do próprio Brasil.

De que forma Tambaba é vista e aceita no cenário naturista nacional? O que mais atrai o público apreciador? Tambaba é considerada a praia naturista mais bonita do Brasil e a mais internacional das praias, sendo a primeira praia do Nordeste a ser oficializada como naturista. Anualmente a praia Recebe o “Tambaba Open”, competição de surf naturista, que neste ano fez parte do VIII ENNN (Encontro Norte-Nordeste de Naturismo) nos dias 06, 07 e 08 de Setembro. A beleza da natureza, o clima, as águas mornas e o Naturismo atraem turistas não só do Brasil, mas do mundo inteiro.

Como o público e empresas privadas pode ajudar a manter a praia? De um modo geral, os frequentadores da praia podem nos ajudar estacionando seus veículos no estacionamento da FBrN (Federação Brasileira de Naturismo) pois o dinheiro ali arrecadado, em parte, é revertido em prol da praia ou se associando a SONATA, entidade local que emite o passaporte Naturista FBrN/INF, pagando a anuidade – parte do dinheiro arrecadado, é utilizado em determinadas benfeitorias/serviços. O setor público, pode ajudar instalando equipamentos turísticos que tragam mais conforto e informação ao turista, ordenamento do espaço e segurança. Já o setor privado, as empresas podem formar parcerias com a SONATA, ajudar com alguns projetos de infraestrutura/mobiliários para a praia e ter retorno na divulgação de seus produtos e serviços.

Como está o perfil naturista no Brasil em relação ao do exterior? O que temos de mais positivo e negativo em relação a eles? Atualmente, o perfil naturista no mundo inteiro está envelhecido. Em geral, há poucos jovens que se interessam. No Brasil, no entanto, a média de idade de quem frequenta áreas fechadas é mais jovem do que na Europa. Diria que na faixa dos 45 anos, enquanto que na Europa e Estados Unidos a média é de 60 anos. Mas nas praias, você encontra mais jovens ainda. Aqui no Brasil, há mais interatividade entre os naturistas. Eles se encontram mais, mesmo fora dos locais naturistas. No exterior, há um grande preocupação de incentivar a participação de adolescentes e de jovens adultos. O que vejo de mais positivo atualmente no naturismo brasileiro, é a plena expansão e a possibilidade ainda maior de crescimento.

Ainda existe muita distorção sobre o que é naturismo, nudismo… Você poderia explicar de forma simples para o leitor entender de uma vez? A grande questão entre essas duas palavras é que historicamente elas significam a mesma coisa. Não há diferença entre naturismo e nudismo. Ambas significam a mesma filosofia que prega a reunião fraternal de pessoas de todas as idades em estado de nudez, sem conotação sexual, com objetivo de se aproximar da natureza, com preocupação ambiental e cuidados com a saúde física e mental, visando o respeito a si próprio e pelo outro.  

O que diria para alguém que nunca foi a uma praia ou a um parque de naturismo, mas, que no fundo, tem vontade? Para quem nunca frequentou e tem vontade, mas ainda acha que ficará envergonhado ou excitado, digo que a experiência mostra que quase a totalidade das pessoas que se desnuda pela primeira vez numa área naturista, sente-se à vontade em no máximo dez minutos. Depois deste tempo, já estará conversando naturalmente e, em meia hora, esquecerá inclusive que está nua.

Dentro do Brasil onde você percebe que o público aceita melhor o naturismo, existe alguma diferença? Basicamente não existe muita diferença de atitude em relação ao Naturismo nas várias regiões do Brasil. Existe preconceito, quase universal, que acredita que naturismo é um disfarce para a sacanagem, o que faz muita gente procurar as áreas naturistas justamente com essa intenção. Mas quando se deparam com os grupos naturistas organizados veem que estão indo para o grupo errado e a maioria vai embora, mas alguns acabam mudando de intenção e permanecem no Naturismo. A aceitação aparece à medida que as pessoas conhecem os grupos naturistas organizados e filiados à Federação Brasileira de Naturismo. No entanto, estatisticamente, pelo número de associações e de eventos organizados, o estado de São Paulo poderia ser dito como o estado que aceita melhor o Naturismo, mas por outro lado, o estado não conseguiu emplacar nenhuma praia oficial de nudismo até hoje.