Das salsas, merengues, rumbas, mambos, danzon, guajiras à atual, nueva trova, os ritmos com o calor das condensações dos protestos, da alegria dos cabarés e cassinos, todo esse sabor intenso é o que marca a vida cubana. Além da presença campestre, a marginalização induzida, os trombetas, as maracas, os cravos, os contrabaixos, a volúpia, tudo em uma miscelânea nativa e afro-espanhola. O cha-cha-chá que invade a alma e faz dançar sobre o bongôs, timbales e congas, como um grito cadenciado de indulgências e o bolero que reúne para cantar a melancolia em seus acordes amorosos a la José Pepe Sanchéz – TRISTEZAS. Assim, ES CUBA, em cores vintage, o ocre forte, o colorido intenso, mais um sépia no ar. A arquitetura complexa e contraditória, retrato de sua história embasada numa economia de produção de riqueza e pobreza, de altos e baixos – colonizadora. 

Da ilha Bahío, dos jutias (pequenos roedores) das coletas litorâneas, dos Guanajatabeis, dos Arawak (comedores de mandioca), dos Taínos, das técnicas de transformação do solo à produção de cerâmica, rica em adornos brancos, negros e amarelos, da invasão Espanhola, da exploração de minerais ao plantio do açúcar pelas mãos dos escravos trazidos do oeste africano – a Coabanga. Cuba vivenciou movimentos, insurreição, revoltas, construção do partido revolucionário cubano a José Martí (1868), o GRITO DA YARA, Guerra Hispano-Americana, a Emenda Platt, passagem das mãos dos espanhóis ao domínio americano. Restrições, aculturação, pobreza em massa, levaram em meados dos anos cinquenta do século XX a várias explosões e lutas em massa sob um ritmo e uma marcha libertária, num “repertório vermelho”, Cuba verteu uma nova ordem social, política e econômica. Os filhos da terra, do rum e do plantio de tabaco criaram um novo contexto, ante os colonizadores. A Cuba das restrições e dos bloqueios, das coligações com a URSS, a Guerra Fria, do desenvolvimento humano e social, da erradicação da mortalidade infantil e da desnutrição. Cuba nesse período lutava por sua independência contra o imperialismo estadunidense, porém existiram críticas ao governo totalitário. 

MISTURAS CUBANAS

Quizá, Quizá, Quizá – bolero de Osvaldo Ferrés (1947) em sua letra romanceada, muito nos fala do TALVEZ, do tempo em que as paixões, quais elas fossem, causavam essa contestação, esse desespero por novos caminhos. Havana, a capital, tem essa dramaticidade, esse apelo pelo apego, essa cidade cercada pelos prédios art décor, pelo luxo de suas assinaturas de renomes variados em obras de grande suntuosidade – os Arcos do Triunfo, o Capitólio Nacional, a sede da empresa Bacardi, o Armazém de Tabaco, o Hospital Quinta de Dependientes, o Hotel Nacional de Cuba nos moldes de Paris e Nova York. Também tem o centro com seus prédios degradados, porém com habitantes incríveis. Os bairros – se você quer a cultura cubana, vá a Callejón e Vedado, imperdíveis. O bairro Havana Vieja, onde é possível tomar uma cerveza dispensada (à granel), uma Bucanera. Pratos como o arroz congrís ou mouros e cristãos, feito de arroz com feijão vermelho, referenciam a pele escura dos mouros africanos e dos cristãos ibéricos, clara. O ajiaco (sopa e milho, batata e frango), os chicharronos (torresmo), yuca com mojo (mandioca com molho especial), tamales, ropa viega (ensopado de carne, arroz, feijão e salada). 

PALADAR LATINO

As bebidas são um assunto a ser tratado com reverência – grandes e célebres coquetéis saíram dessas paragens. Entrar nessa ilha e não se render a esse assunto, é como não saborear o melhor que ela tem. Se entregue ao mojito, realizado no La Bodeguita (bar tradicional). Entre os grandes que lá bebericaram, Nat king Cole, Gabriel Garcia Marques, Salvador Allenda e outros. Tome um Daiquiri, e saiba o que é condensar cada ingrediente em sua medida – limão, rum e açúcar. Isso tudo em El Floridita, La Cuna Del Daiquiri (berço do Daiquiri). No Castillo de Farnes, beba um Cuba libre e escute histórias sobre Fidel, um dos seus frequentadores famosos. Escute a célebre canção, Guajira Guantanamera, no Monserrate Bar. Restaurantes como Os Hermanos e o Café Presidente, são charmosos e vale uma ida, pelo visual e comida aprazível. Outra bebida que não se pode esquecer é a Crema de Vie, usada nas datas comemorativas e tradicionais, passada de geração em geração – sua receita com ovos, leite condensado, leite evaporizado, rum, açúcar e água. É um deleite. 

Cuba tem tudo isso, e muito mais. Cercada de água com praias lindíssimas de cores enigmáticas, trazem aos que a ela se rendem, essa sensação de plenitude. Dos que por ela passaram e fincaram raízes eternas, como os escritos Ernest Hemingway em sua Finca La Viega (residência cubana), Pablo Neruda em suas passagens por Calle Empretado, 207. Depois de tudo isso, sentar para ver o pôr do sol do Malecón e olhar em volta, sentir o vai e vem, é de fato estar em terras cubanas, planando num grande universo artístico, de odores, cores, ritos, sensações, impregnados, principalmente, do seu povo de rostos marcantes, alegres e expressivos, entremeados pela história de luta, suor, contrastes, preservados na atmosfera e pronto à desvendar.

HOMENAGEM à Ebome do Ilê Axé Opô Aganju, griot Nancy de Souza- vovó Cici.

*SEBASTIÃO ARANGO é antropólogo cubano e professor catedrático na Colômbia.