Enquanto brinca com seu ócio, como o próprio Leo Falcão diz, Leo sai se aventurando por diversos caminhos, seja por cinema, música, quadrinhos, literatura ou mesmo desenhos e ilustrações. O importante, para esse inquieto Leo Falcão, é ir se descobrindo e descobrindo sua capacidade criativa em diversas mídias. Premiado nos festivais de cinema, como o Cine PE, Leo hoje transita por jogos e quadrinhos. Porém se espalha mesmo quando o assunto é cinema, contar ótimas histórias sejam elas reais ou não. O importante é criar. Criatividade que descobriu no curso de Propaganda e Publicidade e não largou mais. Conversamos com o inquieto Leo e descobrimos que o céu é o limite para esse Falcão que traz a veia criativa dos tios João e Adriana Falcão.
A publicidade te levou ao cinema ou o cinema te levou a Publicidade? Meu ingresso no mundo publicitário foi meio contingencial, pois na época era a forma de conciliar um monte de coisas que eu queria continuar fazendo e não sabia por qual optar (texto, desenho, música). E foi no curso de publicidade que aconteceu um episódio que costumo contar, de como descobri um possível talento para o cinema. Eu apresentei algumas páginas de quadrinhos para um professor que trabalhava com cartuns, e ele me disse que meu traço não tinha identidade (ele estava certo!), mas que eu daria um bom diretor de cinema. Meio frustrado, perguntei por que, e ele respondeu que os enquadramentos e o fluxo de montagem estavam muito bons. Neste sentido, acho que nem o cinema me levou à publicidade, e nem o contrário — acho que a escrita, os quadrinhos e a música me levaram aos dois. Da mesma forma, o cinema veio para preencher uma lacuna que permaneceu na minha vida depois que eu comecei a trabalhar com publicidade, que era a de contar histórias. Em termos técnicos, foi na publicidade que comecei a conhecer e praticar a gramática cinematográfica, além de ganhar experiência e estabelecer relações com produtores e técnicos. Neste sentido, meu trabalho em publicidade veio antes, mas não foi o que definiu minha carreira cinematográfica. Tudo aconteceu de forma bem natural, me parece.Seus tios, João e Adriana Falcão, são sucesso na TV. Isto não te inspira a investir neste meio mais do que no cinema? A TV tem dinâmicas bem menos autônomas que o cinema, e é preciso saber jogar com elas. Eu me aventuraria na TV, sim, como me aventuraria em qualquer mídia — tenho feito isto, na verdade, com “Santo por Acaso” para a TV Jornal, em 2007, e “Carícias”, primeira peça de teatro que dirigi, em 2009. Recentemente, fiz alguns roteiros para jogos e instalações multimídia e estou cogitando fazer quadrinhos de novo, praticando um traço mais solto. Enfim, estou tentando fazer com que minha falta de foco se torne algo produtivo.
Ler, ver e ouvir. O que você curte em cada categoria dessas? É difícil dizer, tem muita coisa boa feita no mundo. Mas pra dar um resumão, em literatura me agrada muito as histórias fantásticas e policiais inglesas, como Agatha Christie, Conan Doyle, Edgar Allan Poe e, mais recentemente, Neil Gaiman, Suzanne Clarke, Paul Auster e Alan Moore. Gosto também de Umberto Eco (tanto sua produção literária quanto acadêmica) e outros nomes da literatura latina como Borges, Cortázar, García-Marquez e Saramago. Calvino e um escritor italiano contemporâneo chamado Alessandro Baricco também. A lista seria infindável se incluirmos outros clássicos, mas vamos parar por aqui. Em cinema, é igualmente difícil dizer, mas pensemos em Hitchcock, Eisenstein, Wilder, Capra, Truffaut, Kubrick, Fellini, Antonioni, Wenders, os filmes do Monty Python, além de outros contemporâneos como Paul Thomas Anderson, Lars von Trier, Alfonso Cuarón e Wong-kar Wai. Quanto a ouvir, Beatles e um monte de outras coisas. A música pra mim é um terreno infinito.Você chegou a fazer um “estágio” de residência no núcleo de Guel Arraes, na TV Globo (Rio), como roteirista. Como foi essa experiência? O que ela agregou à sua carreira? Com Guel, Adriana e João (Falcão), além de André Laurentino, que trabalhava conosco na época, eu aprendi a ser rígido com o roteiro, de não me contentar em contar uma coisa de qualquer jeito, mas de elucubrar e exercitar e buscar o melhor modo possível de expressar as coisas. Terminei tomando um caminho diferente do deles em termos estilísticos, mas essa lição de buscar a justa forma ficou. Sou grato por isso.
Por André Porto e Nadezhda Bezerra
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