Tomada pela arte, Emanuelle Araújo vive sua inquietação como artista, seja nos palcos de teatro, seja na TV ou na música, onde se releva uma artista ainda mais completa. Após se dedicar à duas produções na TV, a novela “Órfãos da Terra”, na Globo, e a série “Samantha”, a Netflix, Emanuelle volta seu foco para a música e lança seu segundo álbum solo, “Quero Viver Sem Grilo”, uma bela homenagem ao mestre Jards Macalé. Fora isso, final do ano passado ela ainda celebrou os 15 da “Banda Moinho”, na qual faz parte ao lado de Lan Lanh e Toni Costa. E agora, depois de 6 anos que foi nossa capa, Emanuelle está de volta ainda melhor como artista e muito mais interessante como mulher. E nós, ficamos ainda mais fã!

O que Zuleika e Samantha de trouxeram de bom? Como foi encarar essas duas personagens? Foram duas personagens muito especiais e muito, muito diferentes. Dois universos distintos e que eu tive a possibilidade de transitar e criar de um extremo ao outro. Zuleika, uma mulher criada com padrões bem tradicionais que buscava romper essa tradição e se reinventar, sempre estava em um contexto familiar que era o centro da novela, sobre esse cenário dos refugiados, tão importante de ser abordado…Uma trama das seis com muitas reflexões. Um trabalho lindo. Samantha me levou para um outro lugar, para aquela mulher em busca da fama que teve um dia, quase que perdida no tempo. Os anos se passaram, mas ela não acompanhou (risos). Como atriz, é uma delícia fazer papéis tão distintos e desafiadores. Existem também os sabores diferentes do formato, que influenciam na nossa interpretação. “Samantha” é uma série, de uma plataforma de streaming, um obra fechada, sabendo o primeiro e último episódio. A gente pode estudar de forma diferente, construir de uma forma. Novela é uma obra aberta. Você imprime uma personalidade, mas fica aberta para o desenrolar da trama. Assim como tem um outro saber o longa-metragem, o teatro. Tanto a Samantha quanto a Zuleika, elas são mulheres fortes, que se destacam e tive um retorno muito legal do público.


Samantha (Netflix) foi uma série que questionou muito a fama pela fama. Como você enxerga a fama? Como te afeta? Fama é resultado de um trabalho. Apenas isso. E ela chega quando você faz um bom trabalho. Não me interessa muito se não for consequência de um trabalho solido. Prefiro olhar ela pelo prisma bom, que é a abordagem e o carinho das pessoas, a torcida que existe por nós. A resposta do público é o lado bom da coisa e de resto é muita responsabilidade e suor.

Mais medo de não ser reconhecida pelo seu trabalho ou ser esquecida? Olha, o que eu não posso é viver sem o meu trabalho, sem a minha arte. Sou muito mais do processo do que dos resultados. Se não for reconhecida pelo meu trabalho ou mesmo esquecida, isso não impedirá de seguir atuando e cantando (risos). Nem que seja para uma única pessoa. Tem coisas que estão na nossa essência, na nossa alma, e a arte está assim em mim.

Sabemos que fama e sucesso são duas coisas bem distintas. Por que hoje em dia essas duas situações estão tão banalizadas? Acha que a principal “responsável” são as redes sociais? Acho que temos mais pessoas famosas nos dias de hoje. E talvez elas tenham o mérito da comunicação para conseguir atingir tantas pessoas nas redes sociais. Eu não sou aquela que desmerece o outro. Mas sucesso tem muito a ver com uma trajetória que você constrói, com um ofício que você desenvolve ao longo dos anos. Mas vivemos um momento de tantas mudanças, de profissões novas surgindo. Existe a fama dos novos tempos. Nesse sentido sou bem mais nostálgica. As redes sociais mudaram muito a nossa vida.

Você sempre foi mais discreta sobre sua vida. Como controla o que é público do que é privado? Sim, eu sou. Gosto de ficar no meu cantinho ou com os meus amigos. E a gente consegue controlar bem o que é público e o privado. Tenho bastante noção disso. Divulgo nas minhas redes, por exemplo, aquilo que eu quero, aquilo que eu acho que pode trazer uma discussão interessante ou mesmo influenciar positivamente.


Como você lida com redes sociais? Tenho uma relação boa com as redes. Estou mais ativa nesse momento de isolamento social. É um lugar de troca que me agrada. Gosto de conversar, de ver o que estão comentando. De passar boas energias e onde me exponho é sobre o que acredito energeticamente de como podemos enfrentar o dia a dia. Me sinto começando neste entendimento sobre comunicação nas redes. Mas é uma relação muito saudável.

E falando em Zuleika, de “Órfãos da Terra”, ela tinha uma veia cômica mas se envolveu de certa forma com o drama dos refugiados. Como foi tratar desse assunto? Teve muita coisa que você não sabia? O que ficou disso tudo? Foi um trabalho que me ensinou muito mesmo. Aprendi demais com essa novela. Eu li coisas, pesquisei… Não temos ideia de tudo o que acontece mundo afora. E como é importante estudar, buscar informações, porque isso abre a nossa mente e tira a gente dessa bolha. Hoje percebo mais ainda a pertinência dessa novela que nos apurou o olhar para o coletivo algo extremamente importante diante tudo que estamos vivendo no momento.

Acredita que os artistas devem se envolver com causas como essa, por exemplo, ou procurar ser neutro? Acredito que viver por si é um ato político. As escolhas que fazemos diariamente nos coloca diante de ideologias. Temos que ter responsabilidade sobre a influência que temos diante do público. Estamos vivendo um momento delicado e a alienação não ajuda. Mas acredito que cada um deve seguir nessa expressão da sua forma. Não estou falando de escolhas partidária, mas de reflexão de como se posicionar em momento tão crítica. A Arte sempre foi salvadora diante do Caos. É isso gera responsabilidade.

Em janeiro você lançou seu segundo disco solo, dessa vez com canções de Jards Macalé compostas nos anos 1970. Como esse projeto chegou até você? Já era um desejo antigo meu fazer uma homenagem ao Jards. Ele é um artista necessário e que eu admiro demais. Há dois anos, eu estava em Nova York, e vi esse cenário como possível. Começamos a gravar esse trabalho lá e o resultado ficou muito especial. São músicas que me tocam, um projeto que eu me dediquei por inteira e fico muito orgulhosa do resultado dele.


“Quero Viver Sem Grilo”, nome do disco, é uma nova viagem musical para você? Por que só agora voltou a gravar? Tenho o meu trabalho com a “Banda Moinho” também, além de atuar. E esse projeto surgiu num momento em que dava para realizar da forma que eu queria. Eu gosto de me dedicar, de estar por inteira. É um trabalho musical mais consistente, mais maduro. Eu estou mais madura como artista, sei exatamente o que eu quero. E isso está presente nesse álbum.

A música entrou na sua vida através do seu pai não é isso? Como que aconteceu e o que ficou da influência dele na Emanuelle cantora? Sim, a música entrou muito cedo na minha vida. Chegou pela família e está no meu sangue. Meu pai é muito importante na minha vida e história. Eu sou o que sou porque tive ele na minha vida. E mesmo não estando mais no mesmo plano, nunca desconectaremos. Seu humor, amor e carinho está carimbado em tudo que faço. Hoje enxergo este legado com muita alegria e estímulo pra continuar com cada vez mais força!

Você sempre questionou, e viveu, muito o machismo. Acredita que a coisa está mudando ou parece que quanto mais informação mais o machismo se espalha? Temos uma mudança. A principal, inclusive, está na sua pergunta. Falar sobre esse assunto é extremamente necessário. As informações precisam ser disseminada e precisa ser quebrado o tabu do silêncio. Existem cada vez mais, temos denúncias. Espero que isto aumente. Não estamos mais caladas diante dos abusos. A união das mulheres é muito importante para a força dessa voz contra a opressão machista. Tenho muita fé na sororidade.

Já cruzou com algumas “mulheres machistas” na vida? São piores que homens machistas? Não sei concordo com esse termo “mulheres machistas”. Acredito que muitas mulheres são criadas e condicionadas a perpetuar um sistema em que o homem é o centro e só ele está certo. Feminismo não é uma luta contra o homem. Nada disso. Aliás é bem equivocado esse pensamento de que se quer roubar o lugar do homem. Feminismo busca apenas direitos iguais entre homens e mulheres. Respeito, igualdade salarial… Coisas básicas. Nossa sociedade ainda é muito machista. Eu não critico mulheres. Eu estou do lado delas. Sou ouvido, se for o caso. Estou aberta ao diálogo.

Acha que hoje em dia o discurso feminista às vezes parece mais modinha do que de fato mudança de comportamento? Não, não mesmo! Enquanto o número de mulheres morrerem nas mãos de seus parceiros, enquanto o número de agressão contra mulheres aumentarem… Desculpa, feminismo não é modinha. O que complica é ter pessoas com voz ativa minimizando tantas tragédias e coisas ruins no nosso país. Isso é muito triste. Eu, se fosse homem, teria muita vergonha. Eu, se fosse homem, estaria conversando com outros homens para conscientizarem de que não se oprime uma mulher em nenhuma circunstância.

No que homens e mulheres ainda estão errando nesse aspecto?
Posso falar do nosso país, ver pessoas do poder minimizando o feminicídio ou a agressão à mulher, enfim, primeiro erro está aí. É preciso campanhas de conscientização. Mulheres estão se unindo, estão lutando pelos seus direitos… E muitas delas seguem morrendo nessa luta. Quem, de fato, está errando? Quem, de fato, está matando? Acho que essa é uma conta e reflexão que os homens deveriam fazer.

Que atitudes num homem te encanta hoje em dia? Encantar me lembra os desenhos animados, que nos ensinam que devemos encontrar o príncipe encantado (risos). Mas o que um homem precisa ter para estar ao meu lado é: respeito por mim e pelo meu trabalho. Ser do bem. Saber dialogar. E ser companheiro. Não quero um homem apenas do meu lado, eu quero um parceiro. Isso é muito diferente.


Uma mulher dona do seu destino e senhora das suas escolhas ainda assusta hoje em dia? Acredito que sim. Muito homem acredita que é o centro da terra e que a mulher tem que ser um satélite ao seu redor. Se for só susto pode até ser um bom ponto de partida para reflexão e busca da transformação através do diálogo. Mas pros que se afirmam nesse posicionamento de competição e de subestimar o potencial feminino: tolerância zero!!

Como você se vê no meio disso tudo? Sou uma artista, uma mulher independente, que, desde cedo, trabalhou e ralou muito para conquistar tudo o que tem. Sei o meu valor, sei, hoje, mais do que nunca, o que eu quero e o que eu não quero. Desejo um mundo mais igual, com menos injustiças e mais empatia por parte de todos.

O que te conquista? A sinceridade!

Onde busca inspiração? Em tudo. Tudo é inspiração para mim. Uma paisagem, uma cena que vejo na rua, um sonho, um insight… Inspiração acontece naqueles momentos que a gente menos espera. E eu estou sempre aberta para recebê-la.

Foto Dêssa Pires

Styling Alê Duprat

Beleza Everson Rocha