Com 20 anos de carreira, o ator Caetano O’Maihlan celebra os frutos que tem colhido através da sua trajetória na TV, no cinema e no teatro. Falando nisso, atualmente ele é um dos destaques da série Reis, na Record, se prepara voltar ao teatro com o Grupo Tapa e em breve lançará um curso sobre a técnica Chubbuck. Técnica essa que ele aprendeu nos EUA e trouxe para aplicar no Brasil. Bem, vamos lá conhecer um pouco mais desse cara talentoso que tem dado vida ao general Quedés.

Caetano você acaba de estrear em sua 6ª produção bíblica, no caso, Reis. A experiência desse universo bíblico facilita num novo trabalho? Que bagagem você traz? Sem dúvida a investigação sobre esses personagens bíblicos no longo prazo me oferece experiências que vão me dando mais substância pra colocar cada vez mais densidade, profundidade e vida no próximo personagem. Vou ampliando meu estudo histórico sobre a época para dar mais apoio em relação às circunstâncias da obra, entendendo melhor como esse tipo de personagem opera no mundo. São comuns os workshops de luta e equitação, o que vai me dando mais domínio dos hábitos e, por fim, do corpo desses personagens que, somado à evolução, durante todos esses anos, das condições técnicas – caracterização, efeitos especiais, figurino e cenário que vão me ajudando a manifestar cada personagem novo com cada vez mais propriedade, sendo o Quedés minha obra prima, até agora.

Você andou declarando que o público irá se chocar com seu personagem em Reis. Como assim? O que pode nos adiantar? Quedés é general e primogênito do rei Guedór que deseja reaver as terras que os Israelitas ocuparam e que pertenciam aos Filisteus. O que Quedés mais deseja é a admiração do pai.  Então,  ele não vai medir esforços pra conquistar seu amor, nem que nesse jogo de poder tenha que tramar, dissimular, trair, assassinar quem quer que se coloque em seu caminho, sem perder a plácida majestade de um estrategista.

Que desafio seu personagem Quedés tem te trazido? Conta um pouco sobre ele? Quedés me desafia a achar essa natureza estrategista, que pondera e elabora antes de agir, que dissimula e está sempre três passos à frente de seu oponente. Eu sou muito mais franco e atirado, do tipo que primeiro faz e depois pensa sobre, (risos). Outra dificuldade foi o físico; estava escrito que o Quedés era o mais musculoso dos irmãos e a direção da série me cobrou isso. Então, tinha dias que acordava e ia treinar, pedia pro carro da produção me pegar na academia e depois da gravação, pedia pro carro me deixar na academia pra treinar de novo! Foi duro, mas consegui entregar o que queriam.

Para encarar o novo personagem você mudou totalmente o visual. Que valor tem a caracterização na hora de compor um personagem? O cabelo, a tatuagem, as roupas me ajudaram a compor o guerreiro que ao mesmo tempo, é um príncipe. Claro que os elementos externos só funcionam, se primeiro você trabalhou a base interior do personagem. Como os gregos sempre enfatizavam, não há nada mais potente que forma alinhada ao conteúdo.

Por incrível que pareça, você completou 20 anos de carreira. Como avalia sua trajetória até aqui? Que momentos destacaria? Passa tão rápido, mas ao mesmo tempo em que me lembro de coisas que parecem que foram em uma outra encarnação. Acho que, ter sido modelo internacional aos 18 anos, logo depois de ter estreado no teatro profissional em São Paulo, me ajudou a construir repertório cultural pra dar mais cor e textura pros meus personagens. Ter estado num set da produção hollywoodiana ZooLander como figurante nesse período explodiu minha mente também.

Depois, a experiência com minha companhia de teatro ao longo desses 17 anos – Cia de Teatro Íntimo, desenvolvendo uma pesquisa continuada que deu consistência ao meu trabalho e me vez crescer na fonte que dá sustento e vida para o ator que é o teatro. Já na reta final, da segunda década, perceber o prazer em atuar nos múltiplos meios – TV, teatro, cinema, publicidade, mestre de cerimônia, locução… Tudo isso me deu maturidade e a habilidade de viver da minha arte.

Por fim, ter ido para Los Angeles e ter me formado professor na técnica de uma das principais preparadoras de atores no mundo – Ivana Chubbuck, abriu um novo horizonte pra mim quando ressignifiquei a maneira como via a atuação, (e o Quedés é o segundo personagem em televisão em que pude aplicar essa técnica), além de poder contribuir para o aprimoramento da nossa profissão com o knowhow que aprendi com ela. Estou prestes a lançar um curso no Hotmart da Técnica Chubbuck.

Você já participou de produções em praticamente todos os canais de TV. Os contratos por obra terminam propiciando variar de emissora. Você tem contrato fixo, ou por obra? Como encara isso? Sempre tive contrato por obra. O ônus disso é a insegurança e a instabilidade financeira. Agora, o bônus é que você precisa se movimentar, se aprimorar e diversificar, já que é a necessidade que faz o sapo pular. Acho que a saúde dessa profissão está em saber jogar nas onze posições, fazer locução, comercial, TV, teatro, dar aula… O que você puder aprender de novo, que vá ampliar sua capacidade de ação é bem vindo e com isso, você vai se tornando um ser humano cada vez mais cheio de recursos também, entre estes, a resiliência.

Indo lá para o início, você começou a trabalhar como modelo e correu o mundo. Aprendeu diversos idiomas. Até que enveredou pelas artes. Quais lembranças guarda dessa época de modelo e como foi a transição para a atuação? Ser modelo não deixa de ser uma arte, na minha opinião. As duas expressões artísticas, aconteceram em paralelo. Estreei como ator em 1998, no espetáculo Clarão das Estrelas, do finado Waldomir Capella, ao lado de Marcelo Medici, Talita Castro e Selma Egrei. Mas, tive um convite para ir modelar em Nova Iorque logo depois da peça, com tudo pago pela agência. Como isso trouxe desdobramentos, fiquei dois anos trabalhando lá, na Europa e no Japão.  As duas profissões caminharam tão juntas nesse começo, que foi através da minha agência de modelos, que cheguei na Oficina de Atores da Globo, em 2001. A transição definitiva para a atuação, ocorreu porque, em algum momento, ficou evidente que ser principalmente modelo não dava conta de tudo que queria comunicar e me voltei para a carreira de ator. Ainda amo me expressar de vez em quando como modelo e a Carol Beiriz, fotógrafa dessas fotos, é uma das minhas parceiras favoritas nessa arte.

Você chegou a cursar Artes Dramáticas nos EUA e até chegou a participar do filme Zoolander, dirigido por Ben Stiller. Como foi essa experiência? Na verdade, não cursei Arte Dramática nos EUA nessa época, mas sim participei do set do filme ZooLander de Ben Stiller, quando estava modelando nos EUA em 2000, e usei a minha bagagem de atuação que tive no Brasil. Já na época, notei um nível de profissionalismo absurdo, desde a organização e grandiosidade do set ao respeito com os profissionais, lá. Um exemplo – se passássemos algum tipo de insalubridade, chuva, fumaça… Ganhávamos um acréscimo de 50 dólares no nosso cachê. Pude estar cara a cara com Ben Stiller, ator e diretor, Owen Wilson, David Bowie e Nathalie Portman, o que foi bizarramente delicioso.

Acho que a principal diferença é que a estrutura deles é muito maior e foi desenvolvida ao longo de muito mais tempo. Por exemplo, entre janeiro e abril temos a temporada dos pilotos de série, quando as cinco emissoras em Los Angeles, (sem contar os streamings), produzem em torno de 70 a 100 pilotos – “amostras” de séries que podem virar um Game of Thrones ou um Friends. Aqui no Brasil, só agora estamos saindo da hegemonia das principais emissoras, que oferecem  bem menos oportunidades, e, apostando, em séries no streaming, tendo uma lei de audiovisual que demanda que esses streamings produzam séries brasileiras. Realizar essas novas produções com roteiros criativos e artistas potentes, independentemente de seu “celebritismo”, na minha opinião, é o caminho para nosso audiovisual florescer.

Algo que ficou muito claro depois da minha formação na técnica Chubbuck é que nossa atuação, influenciada pelo melodrama que aportou em Cuba e depois veio para as rádio-novelas aqui, e por fim, deu origem à telenovela no Brasil, ainda enfatiza muito o sofrimento, o tal “dramalhão mexicano”, o que não entrega uma performance inspiradora e empoderada como se costuma ver nas produções Hollywoodianas onde os obstáculos estão ali sim pra serem vividos, mas superados!

Ter passado pela Casa de Artes de Laranjeiras parece ter sido algo transformador na sua formação como ator. Que pontos destacaria? Logo depois da Oficina de Atores da Globo, entrei no curso da CAL (Casa de Artes de Laranjeiras). Tinha interrompido minha formação no Teatro Escola Célia Helena em São Paulo, pra participar da Oficina. Lembro que vendi meu carro pra poder começar no curso. A CAL tinha um ambiente bucólico e impregnado da atmosfera teatral. Conheci muitos atores que eram simples estudantes lá na época como Paulo Gustavo, Rodrigo Pandolfo, Fábio Porchat, e os vi decolar. Foi imprescindível pra mim o treinamento de corpo, voz e o contato com os clássicos da dramaturgia, bem como o trabalho de montagem que acontecia ao final de cada período.

Onde se sente mais desafiado como ator? O desafio está sempre presente se você se coloca diante do trabalho inteiro, fazendo escolhas arriscadas e se colocando a disposição do erro no caminho de pesquisar novos caminhos para estar em cena.

Em breve você estreará o espetáculo Papa Highirte. Como vai ser conciliar peça e novela? Ou a peça vem após a novela? A novela, que agora esta sendo chamada de série na Record, está entregue. Agora posso focar no Papa Highirte com o grupo Tapa, onde faço o Hermano Arrabal, o Manito, que é um operário numa fábrica em Alhambra que quer convencer seu melhor amigo Diego Mariz a fazer a revolução armada para conquistar diretos para seu povo, desafiando um governo despótico. A peça estreia dia 15 de abril no Teatro Aliança Francesa.

Fora isso, você está trabalhando no lançamento de seu curso de interpretação A Fonte sobre a técnica Chubbuck. No que consiste essa técnica? Com a Técnica da Ivana Chubbuck, na qual me formei em Los Angeles e sou um professor licenciado, um novo propósito para atuação surgiu e ressignificou a maneira como eu enxergava a profissão. Num primeiro nível, a técnica tem ferramentas pra você eleger o que é importante analisar numa obra e é muito profunda e objetiva sobre como fazer isso.

É uma técnica baseada nos estudos de Stanislavski, que persegue uma interpretação real, viva, a partir da identificação de suas experiências pessoais, nas circunstâncias do personagem. O grande diferencial da técnica é como a Ivana aborda essa personalização. Nós investigamos a necessidade emocional do personagem em nossas vidas e a pessoa do nosso convívio que a desperta. Assim, se o personagem busca amor, por exemplo, nós vamos investigar de quem na nossa vida precisamos de amor e não temos. A necessidade emocional não resolvida, é muito importante pra gerar comportamento visceral, já que sempre desejamos conquistar, com intensidade, o que não temos. Incorporando essa ferramenta da técnica, trazemos pra cena uma relação cheia de camadas, com histórico e intimidade com o ator com quem estamos contracenando, que às vezes, acabamos de conhecer.

Com o tempo, superar essas dores e traumas em cena, bem como ter essa determinação em vencer essas dificuldades como o personagem, vai te dando essa postura empoderada também na vida, tanto pessoal como profissional, em contraposição a uma postura de vítima que aceita e valoriza os obstáculos. Além  de garantir uma interpretação visceral, viva e crível. No curso A Fonte, eu não só vou ensaiar a técnica, mas o caminho que a Ivana trilhou desde Stanislavski até os dias de hoje, pra que tenhamos todos os elementos pra entender plenamente essa nova maneira de olhar para a atuação.

Em meio a tantas atividades, onde e como encontra tempo para cuidar de si e manter o corpo em forma? Acordo mais cedo, (risos). Treinar não é uma opção, é uma condição para que possa ter disposição para dar conta de todo o resto. Não existe isso de não ter tempo de malhar se isso é uma prioridade. Aliás, isso vale pra qualquer atividade.

Qual pecado você não resiste? Matar! Não resisto em matar pernilongos, sou alérgico à picada.

E na hora de relaxar o que faz sua cabeça, praia ou campo? Onde recarrega as baterias? Gosto muito de me isolar na montanha com cachoeira. Tem um lugar no Rio de Janeiro que sempre que posso vou, que é o Vale das Videiras.