Em meio à discussões sobre racismo, empoderamento, diferenças sociais e o espaço dedicado ao negro nas produções para a TV, especialmente essa semana com o “Dia da Consciência Negra”, temos o ator David Júnior em um momento especial na sua carreira. Alçado como um novo galã na TV, David divide com o ator Rômulo Estrela o protagonismo na novela “Bom Sucesso” (Globo), e o coração da personagem de Grazi. Em tempos conturbados como o nosso, um protagonista negro de certa forma é uma vitória. “Acho que esse movimento está acontecendo. Mas nem de longe é o ideal. Estamos fazendo isso acontecer”, comenta David durante entrevista exclusiva para a MENSCH. Destaque esse merecido por conta de muita dedicação e talento. Afinal, esse cara vai longe! Que seja o primeiro de muitos protagonistas desse dedicado ator que já mostrou a que veio.

David, como está sendo ser um protagonista de novela? Era um desejo pessoal? Meu desejo pessoal sempre foi construir um bom personagem e ressignificar algo em mim (David) através dessas experiências. Protagonismo é só um rótulo imposto em quem tem mais visibilidade na obra e essa visibilidade tem me mostrado o quão amado tem sido esse personagem. Sou parado nas ruas por diversas pessoas de diversas idades e atingir a massa dessa forma com a nossa arte, levando amor as pessoas é muito gratificante. Todos nós atores, somos protagonistas das nossas histórias dentro de uma dramaturgia e juntos montamos um corpo só. É nisso que eu acredito.

 

Acha que hoje em dia a TV está dando mais espaço para atores negros? Sente alguma mudança? Acho que esse movimento está acontecendo. Mas nem de longe é o ideal. Estamos fazendo isso acontecer. Vem da gente, atores negros que se mostram capazes de ocupar espaço e essa abertura acaba tendo que ser inevitável. Em meio ao caos social que vivemos atualmente, incluindo na arte brasileira, temos montagem de peças com protagonismo exclusivamente negro sem patrocínio e com um sucesso de público estrondoso, como: “Oboró, masculinidades negras”, “Rua Asuza”, “Solano Trindade”, “A cor Púrpura”, “Elza Soares”, agora acaba de chegar no Brasil um canal só com lugar de fala do povo preto chamado Trace, trazido através do Ad Júnior, que tem um movimento lindo social Admirável pelo povo preto. Somos 53% da população brasileira, se não tivermos visibilidade, não teremos o que consumir e estão enxergamos isso. Então sim, vejo uma mudança e uma abertura. Mas ainda temos muito pela frente. Temos Lázaro Ramos, Tais Araujo, Fabrício Boliveira e outros poucos nomes como representantes desse lugar de protagonistas, num País onde 53% é negro. Isso mostra o quanto ainda precisamos evoluir nesse sentido. Parafraseando Emicida: “Somos os únicos representantes do nosso sonho na face da Terra, se isso não nos fizer correr, eu não sei o que vai…”

Onde mora o preconceito? Como se pode combater? Tá na falta de empatia e escuta pelo próximo. Trazer esse tipo de diáspora para a roda de discussão dos brancos é uma ótima forma de mudar. O próprio jornalismo pode começar a perguntar as personalidades de destaque brancas, o que eles acham do racismo, se eles já vivenciaram alguma situação racista ou se sentiram racista alguma vez. Essas perguntas são fundamentais para a reflexão de quem oprime as vezes sem saber que está fazendo e por isso precisa pensar sobre. Na Alemanha eles sentem vergonha do Holocausto, enquanto nós brasileiros fazemos piada com o que vivemos aqui. Nosso conceito de certo ou errado é limitado ao passado, como se a falta de remuneração satisfatória, impossibilidade de estudos e acesso a terras não nos levasse a margem da sociedade, como vivem a maioria dos negros nos dias de hoje. Ouvir, refletir, discutir, absorver e ressignificar. Esses são os pilares para uma mudança nesse paradigma que vivemos no Brasil e no mundo, contra o preconceito racial e também contra todas as outras opressões, por que de nada adianta combater o racismo e continuar sendo machista, misógino ou homofóbico. Toda opressão é nociva e precisa ser combatida.

O que é mais desafiador e difícil para você como ator? Dar vida ao personagem de maneira consciente de que estamos diante de milhões de expectadores e dentro da dramaturgia e dentro desse corpo ser um corpo político. Ficar atento a TODOS os movimentos que ele faz e tentar transmitir o oposto do que sempre foi visto socialmente através de nossas imagens.

Para você como é a construção de um novo personagem? O que te instiga nesse processo? Um personagem é uma vida montada do zero. Cada passo, cada forma de agir ou respirar é iniciada por mim e isso é um privilégio que nós atores temos. É um filho que a gente gera e eu me delicio com essa brincadeira criativa através das construções básicas: Forma de andar, corte de cabelo, roupas, (a mala de tênis do Ramon por exemplo são minha paixão) (risos)… Tudo o que diz respeito aos primeiros movimentos do personagem me intriga e me ajuda a ver quem será esse personagem.

As diferenças sociais discutidas na novela são um bom gancho para gerar uma boa discussão. Como você tem sentido isso da parte do público? Acha que o tema está sendo eficiente? Confesso que não consigo acompanhar o feedback do público nesse sentido, mas acho necessário abrir essa pauta na dramaturgia brasileira. Somos produto do meio em que vivemos, temos escolhas mas refletimos na maioria das vezes o que nós é apresentado. O personagem do Lucas Leto (Waguinho) fala um pouco sobre isso, receber a oportunidade de ser diferente do que ele tinha como referência de sucesso dentro da comunidade, ao passo que, mudando as atitudes, mudam as oportunidades. A leitura também tem sido uma pauta importante e que tem tido uma aceitação linda do público.

Também existe muitos resquícios de machismo no seu personagem. Como tem encarado isso? Acha que vai ajudar muitos homens a refletir sobre sua forma de encarar isso? Como disse no início, gosto de usar os personagens pra ressignificar coisas na minha vida e o machismo tem sido uma opressão muito em voga com esse personagem. Todo homem deve discutir sobre machismo, tão quanto o branco deve falar sobre racismo. Toda mulher conhece uma história de abuso, mas eu como homem, Só soube de uma história de violência sexual próximo a mim e na minha infância. Nós enquanto homens precisamos começar a olhar para as mulheres como parceiras que andam do lado da gente, não atrás, como se tivessem alguma limitação, que nós não temos e o Ramon reflete bem sobre isso. Tem uma cena em que ele entra cobrando algo da Paloma e quando vê que está errado, volta pela mesma porta e entra de novo, fazendo tudo diferente. Essa atitude precisa ser uma constante em nossa vida heteronormativa, esse movimento não pode parar, por que todos os dias teremos coisas para ressignificar em nossas atitudes.

Onde busca inspiração e onde vai para relaxar a cabeça? Pra esse personagem eu voltei pra casa. Sou de Nova Iguaçu, cria da Baixada Fluminense, fazer um personagem suburbano é um presente, posso andar de chinelo de dedo, bermuda e camiseta, sentar no meio fio pra trocar ideia com meu irmão, deitar de perna aberta no sofá da sala e tudo isso em cena. Distraio a cabeça com minha família. Todo o tempo de folga que tenho, procuro estar com eles, pessoas que me conhecem como Júnior e não como ator da novela das 19:00. Eles são minha distração.

Curte basquete como Ramon? É de praticar esportes? Sempre curti fazer esportes, mas sou de época. Tem época que estou muito para corrida, outra época artes marciais, Bicicleta… Agora estou para o basquete, esporte que vi na escola e voltou pra minha vida agora é já estou viciado também. Outro dia me peguei vendo dois jogos ao mesmo tempo, um no aplicativo do celular, outro na TV, daí falei: É, esse “mosquito” te ligou mesmo! (risos)

É muito vaidoso? Do que não abre mão? Até onde vai? Já fui mais, hoje procuro ser saudável de corpo e mente. Não fico mais prezo à estética, prefiro me dedicar a minha mente, que é o que faz a máquina funcionar em harmonia. Procuro me aumentar bem, mas não sou restritivo ao que gosto de comer, meu peso se mantém bem graças a uma boa genética, confesso, o que tem minha maior atenção é meu cabelo. Estou sempre no barbeiro cortando o cabelo e de olho pra que fique do jeito que eu gosto.

O que uma mulher precisa ter / ser para chamar sua atenção? Já tenho uma mulher que tem todas as qualidades que admiro e que chama atenção ao acordar do meu lado todos os dias. Minha família é grande e não falta mulher, então o que eu espero delas é que sejam autênticas em suas verdades, independente do outro.

Depois da novela quais os planos? Temos sempre coisas em mente pra produzir, espero ter tempo hábil pra isso, mas também quero descansar um pouco. Respirar novos ares e buscar novas inspirações. Quero “voltar” a África, voltar por que acredito ter vindo de lá, apesar de nunca ter pisado no continente. Quero fazer uma imersão documental sobre aquele lugar.

Para conquistar David basta… Saber ouvir… Essa é uma qualidade de poucos.