Mesmo com pouco tempo de exposição na TV, ele está em seu terceiro trabalho no streaming, Eduardo Borelli mostra que não é mais uma jovem promessa de promissores atores da nova geração. Até por que tempo de estrada ele tem! Aos 9 anos já estava começando nos palcos do teatro e daí em diante não parou mais. Sua estreia foi em 2018 com a série “Rua Augusta” no canal TNT, mas foi ano passado que Eduardo conseguiu atrair a atenção do público e da crítica para seu trabalho na série “Desalma” no Globoplay, com seu personagem Roman. Aliás, o sucesso foi tanto que já está sendo providenciada uma 2ª temporada da série. E Eduardo, claro, segue firme e forte com seu Roman. Anote aí este nome, você ainda vai ouvir falar muito dele! A começar por essa matéria de capa.

Eduardo, você foi considerado um dos grandes destaques da TV ano passado por conta do seu trabalho na série “Desalma”. Esperava por isso? Eu nunca tinha parado para pensar sobre isso! Existe um sentimento de gratidão pelo reconhecimento do trabalho, como em qualquer outro. Mas acredito que, por ser e estar muito próximo da realidade do teatro (talvez, por enquanto até mais do que do audiovisual), eu tento guardar a vaidade ou o vislumbre disso um pouco na gaveta. Na verdade, eu tento encarar esse trabalho como mais um bom trabalho, seja em um teatro para 30 pessoas ou em uma grande emissora. Acho que é uma forma também de me proteger (e não como uma falsa modéstia). O trabalho artístico no Brasil, em geral, é muito ardiloso e inconstante. Por isso, tento me apegar sempre ao meu caminho enquanto ator em desenvolvimento, ao invés do significado dos lugares em que eu estou trabalhando. Mas é claro que, fazer parte do elenco de uma série como “Desalma” é extremamente gratificante.

Que autocrítica você faz? Sobre autocrítica, eu me lembro que no começo de 2020 (antes da pandemia) fomos convidados para assistir os primeiros episódios da série. Eu, obviamente, estava muito nervoso. O trabalho do audiovisual passa por tantas etapas e ver o resultado final é sempre uma expectativa muito grande. Então, perguntei para a Cacau (Claudia Abreu) como ela lidava com esse nervosismo. E ela disse que, ao longo do tempo, aprendeu a ter o olhar mais generoso para o trabalho dela. Temos a tendência de nos autocriticar e destruir ao nos vermos na tela. Então, tentei desenvolver o meu olhar para o meu trabalho a partir do único ponto de vista possível: o meu, o de quem viveu esse processo todo. Tentei entender esse trabalho como mais um aprendizado, assim como pretendo encarar todos os outros que estão por vir.

E como começou tudo isso? Como surgiu o convite para interpretar o Roman e como foi o preparo para interpretar o personagem? Aconteceram algumas fases de testes! Meu agente, Accacio Scarpelinni – da Another Agency, apresentou meu material para a produtora de elenco da série, e eu fiz um teste com um texto. Depois disso, fomos selecionados para um workshop aqui em São Paulo (houveram mais 2 com outras atrizes e atores, do Rio de Janeiro e de Porto Alegre) em que tivemos 2 dias inteiros com a preparadora de elenco Ana Kfouri. Desses workshops, o elenco foi escolhido. Nós tivemos um mês de preparação antes das gravações. Nesse mês, tive aula de ucraniano, aula de dança, aula de prosódia e a preparação em si. Como é uma linguagem muito pouco explorada no audiovisual brasileiro, foi uma pesquisa em conjunto muito bonita de toda equipe. Entender como trazer para nossa cultura essa linguagem e esse gênero… E claro que para além disso, tive minha preparação individual, onde busquei estudar sobre a cultura ucraniana, a cultura ucraniana no Brasil e o próprio gênero.

Você veio do teatro e segundo consta você começou aos 9 anos. Conta um pouco como foi esse começo. Eu comecei a explorar o mundo das artes com 7 anos, fazendo aula de piano. Minha avó materna tocava e ela foi quem me incentivou a estudar música. Mas sempre fui uma criança fissurada em filmes e personagens, adorava ir ao teatro e meus pais sempre me levavam. Então, aos nove anos, entrei na escola de teatro junto com a minha prima. No começo, era bem difícil! Eu tinha questões fortes com ansiedade e insegurança. Eu não ia para as aulas se minha prima também não fosse (risos). Mas sempre gostei muito de estar no teatro e já sabia que gostaria de fazer isso no futuro. Meus pais sempre me incentivaram, mas nunca me forçaram a nada. Lembro que no ano seguinte, minha prima decidiu sair das aulas e eu quis continuar. No primeiro dia de aula eu tive uma crise enorme de ansiedade, então minha mãe sentou comigo e disse: “Você não é obrigado a fazer isso, mas se é isso que você quer fazer, engole o choro, levanta a cabeça e entra na sua aula”. Depois disso, nunca mais saí.

A série trata de temas sobrenaturais e traz muito mistério. É um gênero que faz sua cabeça? Algo te assustou ou te surpreendeu ao longo da trama? Assumo que ler o roteiro sozinho no quarto de hotel, às vezes, era um pouco assustador (risos). Eu acho que sempre que estamos em cena ou contando uma história, estamos de alguma forma mexendo com energias. Não acho que seja a toa que algumas coisas “sobrenaturais” ou para os mais céticos, minimamente esquisitas, aconteçam durante o processo. Mas ao mesmo tempo, acho que estávamos muito amparados pela equipe e todos muito dedicados a contar essa história da melhor maneira possível. Mesmo sendo um gênero de suspense sobrenatural, a série lida com (e se trata) de questões muito humanas. Então, acho que houve esse equilíbrio no desenvolvimento de toda pesquisa: como trazer para a nossa realidade humana essas situações todas… Sem contar que a série tem momentos muito empolgantes, o que no fim foi muito divertido de gravar.

Como foi atuar ao lado de atrizes renomadas como Cássia Kiss e Cláudia Abreu? Deu algum frio na barriga? Eu tive pouco contato com elas em cena, mas nos cruzamos algumas vezes durante as gravações. Eu acho que é inevitável ter uma expectativa em encontrar essas figuras muito presentes no nosso imaginário artístico e isso causa um reboliço na barriga, sim (risos). Mas quando de fato entramos no trabalho, passamos a nos enxergar como companheiros artísticos, todos em função de um mesmo resultado. Em função de contar essa história da melhor maneira possível. Mas me lembro de momentos muito valiosos e conversas que tive com as duas, e é sempre muito bom escutar e aprender com atrizes mais experientes. Vale ressaltar que para além dessas duas admiráveis e gigantes atrizes, sempre fui um grande admirador da Bel Teixeira, que interpreta a Anele. A primeira vez que vi que estaria no mesmo elenco que ela, quando nos encontramos todos no aeroporto do Rio de Janeiro, foi inesquecível (risos). A série toda conta com um elenco muito inspirador e muito generoso. Fomos muito felizes e aprendemos muito juntos!

Seu personagem é tido como mau caráter por muita gente que assistiu a trama. Consegue defender o Roman? Se identifica com algo nele ou são totalmente opostos? Eu acho que é inevitável, pelo desenvolvimento da história, que se tenha essa leitura sobre o Roman. Ao mesmo tempo, eu acredito que exista uma diferença muito grande de como o público enxerga uma personagem e de como eu leio essa personagem para dar vida a ela. Eu acho que, como seres humanos, somos múltiplos e controversos. Eu acredito ser impossível nos definir com muita veemência, porque estamos em constante mudança e transformação. Então, tentei encarar o Roman, assim como faço com qualquer outro personagem, com essa humanidade. Prefiro não criar grandes definições para ele, porque eu acho que isso perde a humanidade da experiência real.

Sempre que estudo um personagem, busco apenas estudar suas ações sem colocar um juízo de moral em cima disso. Entendê-lo em um primeiro momento como um desenrolar de ações e não como um ser humano pronto e pré-definido. Isso perde profundidade! Além de ser mais humano, acho essa leitura até mais divertida. Assim, posso descobrir coisas sobre ele enquanto sou ele em cena. Gosto de me surpreender com os meus personagens e isso não foi diferente com o Roman. Dessa maneira, descubro coisas sobre mim que desconhecia também. Então, eu não sei responder se somos parecidos ou completamente opostos. Talvez, as duas coisas (risos).

O sucesso da série rendeu uma segunda temporada. Já começaram a gravar? Como está a preparação? Não sei se posso falar muito sobre isso (risos). Mas vamos começar a gravar em breve, e voltar a ter contato com essa história tem sido bem divertido e empolgante. A nova temporada vai ser um desafio ainda maior para cada um de nós e eu estou bem ansioso para começar.

Esse é seu 3o trabalho na TV e já rendeu ótimas críticas ao seu trabalho. Já existe algum convite para TV aberta? Quais os planos pós “Desalma”? Depois dessa série, surgiram algumas possibilidades, alguns testes etc… Alguns projetos não pude dar continuidade por não conseguir conciliar com a segunda temporada de “DESALMA”, mas como estamos passando por um momento de pandemia, as coisas estão um pouco mais complexas. É muito recente, então sinto que o mercado está entendendo como se adaptar a essa nova realidade. Inclusive, me sinto muito privilegiado, porque é um momento muito difícil e doloroso para os artistas em geral. Eu ainda não pensei muito nos planos pós segunda temporada. Tomar a vacina, talvez, seja meu maior sonho (risos). Como as coisas estão muito incertas, prefiro não ter grandes planos e me frustrar. Mas minha intenção é continuar com novos trabalhos no audiovisual e voltar ao teatro assim que for possível. Sinto falta de, para além de estar em cena, ir ao teatro. Talvez, seja minha maior falta nesse momento.

Pelo que já soubemos seu trabalho como ator vai além de atuar, pois você tem escrito muita coisa e possui projetos para o teatro. O que mais você deseja fazer com a arte? Como ela te move? Abrir possibilidades sempre! Acho que ainda tenho muita lenha para gastar, no teatro e no cinema. Muita coisa para aprender, para descobrir, para explorar e investigar. Um dos meus grandes objetivos é conseguir trabalhar em processos artísticos que me inspirem com artistas que eu acredito. Amigos e amigas de profissão e de vida. Ainda tenho muitos desejos, mas talvez hoje esse seja o maior deles. Ter a possibilidade de fazer teatro e cinema com pessoas que eu acredito e que estão na luta também. A realidade do teatro está cada vez mais complexa e difícil. Eu desejo ser mais um agente de mudança significativa e importante na cultura do nosso país. Eu acho que, para além de todo desejo e prazer pessoal de fazer o que eu escolhi fazer, o que me move também são novas possibilidades de mundo e principalmente os artistas que estão comigo. Fazer isso ao lado de pessoas admiráveis e inspiradoras.

Como foi essa transição do teatro para a TV? Ela aconteceu de maneira muito espontânea e toda experiência traz novas ferramentas para realização do trabalho. São linguagens muito diferentes, mas mesmo dentro do teatro, as linguagens são infinitas. Então, encaro como a pesquisa de mais uma possibilidade diferente. E o teatro, por ser uma arte muito antiga, eu acredito que é a base de sustentação para qualquer pesquisa e desenvolvimento autoral.

Qual o maior pecado do ator e qual a maior virtude? Esse é o tipo de pergunta que vou ter uma resposta diferente, dependendo do momento em que estou na minha vida. Talvez, eu leia essa resposta daqui dez anos e discorde de mim. Sinceramente, até prefiro que isso aconteça (risos). Mas hoje, eu diria que a virtude do ator é o seu pecado e vice-versa. Encontrar consigo, se perdendo de si (ou do que acreditamos que somos). Acho que essa é a maior virtude e o maior pecado. Precisamos observar o mundo. Sempre!

Esse momento de isolamento social foi um momento de muita aprendizado para muita gente. Como foi para você? Eu, honestamente, não gosto muito de romantizar o momento em que estamos vivemos. Eu acho que estamos passando por uma transformação muito dolorosa e com perdas irreparáveis. Me encaro como muito privilegiado nessa situação toda. Mas sem dúvida, o isolamento foi uma experiência nunca antes imaginada e de muita transformação, pois nos obrigou a olhar de fato para o mundo e para o que restou dele. Isso de alguma forma me move! Isso me move enquanto artista e enquanto ser humano. Infelizmente, majoritariamente, pela dor. Mas eu acredito que, uma das nossas obrigações enquanto seres humanos e não apenas artistas, é olhar para além do mundo presente e, sim, para possibilidades de mundo. E o que devemos fazer com isso a partir do que acreditamos: enxergar a possibilidade e fazer alguma coisa, porque é inegável que algo precisa ser feito.

Na hora de relaxar o que faz sua cabeça? Você é mais do dia ou da noite? É engraçado, porque ao escolher ser ator, parece que as possibilidades de hobbies e relaxamento se esvaem, pois tudo acaba sendo também em função do seu trabalho: ler, assistir séries e filmes; estudar piano; tudo resvala no meu trabalho. Então, é como se eu tivesse sempre em função disso! O que é ótimo, mas assumo que, às vezes, sinto falta de sentir prazer em algo que não tenha nada relacionado à minha profissão. É um pouco difícil separar o ator de mim. Mas tenho gostado muito de cozinhar, acho que é uma outra vertente dentro das artes (risos). Eu, absolutamente, sou mais da noite. Isso não significa que adore sempre sair para festas, baladas etc… Mas sinto que funciono mais à tarde e à noite.

Consegue traçar algum plano para 2021? Olha, 2020 foi um ano com tanta quebra de expectativa que na virada do ano eu não desejei nada, apenas agradeci por estar com a minha família e estarmos todos bem e unidos. Eu planejo esse ano estar mais presente, no sentido de entender em que maré estou e aproveitar ela. Tudo está muito incerto, então prefiro aproveitar o presente de uma maneira mais genuína e entender em que momento vivo. Por hora, meu plano é me dedicar ao máximo a segunda temporada de “Desama”. Planejo retomar meus laços com o teatro mas não sei quando isso será possível! E claro, tomar a vacina o mais rápido possível (risos).

Fotos Gabriel Bertoncel
Produção The Project / Another Agency
Beleza Yan