Henri Castelli é aquele tipo de ator mutante, meio kamikaze, mergulha de cabeça sem nem saber o que vai enfrentar. Prova maior disso foi seu mais recente personagem, o Madureira, um professor de muay thai que terminou levando Henri a tatuar o nome muay thai na cabeça tamanha sua empolgação. Mas ele pode muito mais, engorda, fica sarado, loiro platinado, barbudo… Seja o que for, Henri está entregue para o personagem de peito aberto e sem amarras. Na vida pessoal ele vive seu melhor papel, o de pai. Daquele pai coruja, que quer estar presente em tudo. Fora isso sua paixão por esportes e natureza completam o pacote de um cara de bem com a vida e preparado para o que a vida lhe oferecer. Nesse segundo papo com ele, a primeira vez foi em 2015, ele tinha acabado de encerrar seu trabalho em “Malhação”, onde voltou a atuar 17 anos depois da sua estreia. “Esse personagem foi um presente pra minha carreira, uma realização pessoal”, comentou ele durante a entrevista que você confere agora.

Henri, do nosso último papo, em 2015, pra cá muita coisa aconteceu. Na TV vou foi o bicho grilo Ralf em “Sol Nascente”, o deputado Teodoro em “Tempo de Amar e agora o professor de muay thai Madureira em “Malhação”. Três tipos bem diferentes entre si, três belos desafios como ator. Como você avalia esses trabalhos? Foram três personagens bem diferentes em pouco tempo. Isso é bacana. Na verdade, eu só consigo trabalhar assim, a profissão de ator pra mim é isso. Precisamos mudar e me preocupo muito com isso. Faço laboratório, tem o presencial. Como o bicho grilo que era tatuador, motociclista, então voltei a andar de moto por causa desse personagem. Me internei em um estúdio de tatuagem. No Teodoro eu fui buscar referências na política, ela era o grande vilão da novela. As coisas não mudaram muito nesses 20 anos, mas temos que ter um tempo de estudo.

Com o Madureira, em “Malhação”, também foi outro mergulho de cabeça. Voltei a fazer luta, de uma forma diferente. O professor é um mestre que foi ensinado por quem o tirou da rua, por isso tem a vontade de ajudar a comunidade que ele mora. Ele não tem família. O muay thai é o raiz, da Tailândia, então fui buscar uma academia raiz pra poder levar isso para dentro do trabalho. Conheci muita gente que virou amigo. Tenho grupo no WhatsApp do pessoal da academia. Mergulhei no personagem, é como se fosse um mestre mesmo de muay thai. Só assim a gente consegue imprimir um personagem e dentro desse a gente vai criando coisas, referências.

 

Como é o processo de criação? Só convivendo com eles e observando. Um ator é um ladrão de coisas (risos) somos muito observadores, a gente rouba e acrescenta na construção do personagem. Esse processo é muito gostoso.

Falando em Madureira, como foi essa volta à “Malhação” depois de 17 anos que você participou da novel teen? Como você encarou dessa vez? Era algo que eu já buscava há quatro anos. Esse personagem foi um presente pra minha carreira, uma realização pessoal. Eu nunca me imaginei estar na TV Globo até hoje, são quase 23 anos e voltar a fazer um projeto que eu fiz e que continuou no ar, foi inexplicável.

Algo em comum fora o gosto por esportes? Tem essa coisa da ONG, de querer tentar ajudar. Acredito que é uma obrigação ajudar. Eu faço bastante coisa, mas não fico divulgando. Falo só quando é preciso, até porque caridade a gente faz e não divulga. Tem essa coisa das redes sociais, mas acho importante fazer sem parecer que você está fazendo com o objetivo de se promover. Sempre fiz da minha maneira, dentro do que eu posso. Quando eu me olho no espelho e vejo que tenho a minha casa, saúde, minha família, eu tenho a obrigatoriedade de ajudar o próximo. É assim que eu fui criado e é assim que eu entendo a vida.

Seus três últimos personagens te fizeram mudar o visual radicalmente. Do cabeludo tatuado Rafl, ao platinado Teodoro até o visual mais atual de Madureira. Sem vaidades quando o assunto é um novo personagem? Eu sempre cuido muito disso. Tem o estudo, o mergulho no universo do personagem. O visual te ajuda muito. Eu engordei 10 quilos para fazer o Ralf, aquele personagem tinha que ter aquele jeito, porque pra mim era um cara que não tinha essa vaidade. Não seria um cara que queria ficar com um tanquinho rasgado. Discutir isso é delicado, porque as pessoas pensam que pode ser um cara relaxado, mas às vezes quem quer ficar rasgado toma o que não tem que tomar, ou faz alguma coisa radical pra ficar com um determinado corpo. Isso também não é saudável. Quis dar uma mudada e me ajudou muito. Depois eu raspei a barba e fui para o loiro, com a figurista e com o Jayme Monjardim decidimos mudar radicalmente.

O que não faria, ou não ficaria à vontade de fazer por um personagem? Eu faço qualquer coisa para um personagem que eu me apaixono. Não tenho limite pra fazer. Inclusive quando eu estou namorando, minhas namoradas comentam que eu mudo. A gente muda e não percebe, mas quem está do nosso lado percebe. Já escutei que a pessoa gostava mais do Henri como era o Ralf ou o Teodoro, por exemplo. A gente escuta isso de quem está de fora e é uma recompensa muito rica.

Você chegou a declarar que treinou muay thai quase que como um atleta profissional. E chegou até tatuar a palavra muay thai na cabeça. Como foi isso? Fiz a tatuagem em homenagem ao esporte, que eu amo, e a minha volta para a “Malhação”. Eu quis coroar isso no meu corpo. Tenho poucas tatuagens e todas tem um significado muito forte pra mim.

Você declarou que é intenso em tudo que faz. Isso sempre fez parte de você? Talvez por isso te escolham para papéis tão diversos? A tatuagem já responde. Pensa em uma pessoa que tatua na cabeça um personagem. Todo mundo me perguntava no começo se era real. As pessoas diziam que eu sou doido, mas é uma homenagem ao meu personagem.

Agora na reta final dessa temporada de “Malhação” já tem algo previsto pela frente? Infelizmente a gente acabou um pouco antes. Como foi tudo de forma abrupta não conseguimos nos despedir de ninguém, mas como havia a necessidade disso, até pelo o que estamos vivendo, não tinha outra saída. A empresa tomou a melhor decisão e é obvio que temos que ficar em casa e se cuidar. Tenho minha mãe que tem 74 anos e meus filhos. Quando você recebe uma notícia dessa da noite pro dia que o trabalho que você estava se dedicando vai parar e não consegue se despedir das pessoas, você tem um baque.

Chorei muito quando recebi a notícia e ainda não digeri que acabamos um mês e meio antes. Foi uma história linda, valeu a pena, foi muito bem contada, muito bem construída. Viramos uma família. Todo mundo fala que “Malhação” é muito longa, 300 capítulos, mas sente falta. Eu estou morrendo de saudade de cada um que trabalhou comigo. Somos uma família.

Contrato fixo ou trabalho por obra. Como você ver esses formatos? Depende de cada um. Tem gente que gosta de ficar livre pra fazer outros projetos, como cinema ou trabalhar fora do país, então é uma opção de cada um. Eu amo trabalhar na TV Globo, vai fazer 23 anos que estou lá. Sou funcionário, mas respeito também quem não queira ser. Cada um tem uma história diferente. Eu amo estar lá e quem tem contrato tem que trabalhar. Jamais nego trabalho, eu amo fazer o que eu faço. Por mais cansado que eu estiver que quero trabalhar, quero um projeto novo ou me reinventar dentro no mesmo. Eu trabalhava com a Mariana Santos que é uma comediante maravilhosa e aprendi muito com ela, depois fui trabalhar com a Paloma na mesma novela. Ela é de um naturalismo genial, atriz esplendida. Tive a oportunidade de fazer par com as duas no mesmo trabalho, me reinventei. Estou na expectativa de já fazer um novo trabalho, então isso é o contrato. O contrato das duas partes, da minha de trabalhar e da empresa de ter o ator como funcionário que está disposto a fazer tudo pela empresa e pelos projetos que estão ali dentro.

TV fechada e streaming tem sido uma ótima alternativa para não depender de TV aberta. Como você vê isso? Já surgiu algum convite neste sentido? Tem gente que quer fazer outros projetos e tudo bem, cada um segue o seu caminho. Vivemos em uma democracia e temos a liberdade de fazer o que queremos, de experimentar coisa diferentes. Dentro da TV Globo ainda tenho muita coisa pra experimentar e fazer, então continuarei lá.

Quando conversamos em 2015 fazia pouco tempo do nascimento da sua filha. Como é ser pai de uma menina? Como é o Henri paizão? Eu adoro ser pai e estar com os meus filhos. O tempo que eu tenho procuro estar com eles, sem tirar a rotina de cada um. Sou um pai presente. Procuro ficar perto sempre que posso, dar carinho e atenção. O mundo está complicado e por isso tento estar muito presente, criar um elo de ligação com eles. Eles precisam sentir que podem confiar em mim.

Sempre em boa forma física, o que faz para manter tudo em dia? É adepto de dietas e treinos regulares? Eu gosto de praticar exercício físico e de me alimentar bem. Tem dias que estou cansado, mas acabo treinando. Além de gostar, hoje preciso estar bem para a novela. Uma coisa acaba puxando a outra.

Fotos Marcio Farias

Styling Samantha Szczerb

Beleza Vivi Gonzo

Assist. de Fotografia Douglas Jacó

Agradecimentos Hotel Grand Mercure Riocentro

Henri usou Amil Confecções, Érica Rosa Atelier, King & Joe, J’adore Luxe