Pedro Henrique Gonçalves da Silva, mais conhecido como Pepe Gonçalves, de 28 anos, natural de Piraju, interior de São Paulo, o canoísta tem no quintal de casa as corredeiras dos últimos 8 km do trecho natural do Rio Paranapanema. Rio onde começou sua paixão pela canoagem aos 12 anos. Dessa paixão nasceu um atleta dedicado que na Rio 2016, foi sexto colocado no K1 (caiaque individual), melhor resultado de um atleta do país na história. Além de ter sido bicampeão do Pan-Americano de canoagem e prata no Pan de Toronto. Pepê agora está em Tóquio, daqui a três dias irá cair em campo, quer dizer, no canal de Tóquio para começar a trilhar seu percurso atrás da sonhada medalha olímpica. Porém, nosso querido Pepê passou por um baixa susto antes de embarcar rumo Tóquio. Mas isso ele nos conta ao longo da entrevista concedida a MENSCH, onde nos fala também sobre suas expectativas, seus treinos e a admiração por Ayrton Senna, seu eterno ídolo.

Pepê, antes de mais nada, como anda a expectativa para estrear nas Olimpíadas de Tóquio? Essa será sua 2a participação em Olimpíadas. Estou muito realizado por participar pela segunda vez das Olimpíadas, espero por esse momento desde o fim das Olimpíadas do Rio. As minhas expectativas com certeza são as melhores, com máxima animação para essa competição porque me preparei muito durante estes 5 anos, seguindo uma rotina rígida com treinos diários. Agora sinto que chegou o momento e vou dar o meu melhor, quero muito representar os brasileiros com a conquista do primeiro ouro olímpico da modalidade no meu país.

Recentemente você divulgou que usará um capacete igual ao usado por Senna. Será seu “amuleto da sorte”? Senna continua sendo seu ídolo e referência de superação? Senna sempre foi uma inspiração muito importante durante toda minha trajetória na canoagem, um ídolo que me ensinou muito sobre persistência, humildade, amor e fé! Ele me inspirou como pessoa e esportista, até o meu jeito mais agressivo na água veio da influência de ter a garra de aprimorar e dar o meu melhor, assim como ele fazia na pista. Por isso faço essa pequena homenagem, para que seu legado continue sendo cultivado cada vez mais. Nos meus piores momentos, sempre peguei sua história como motivação para nunca desistir e seguir em frente e isso me garantiu ótimos resultados, Tóquio é o melhor exemplo disso. Então sim, acredito que posso contar com mais sorte durante a competição, fico feliz por ter esse grande amuleto comigo.  

Como avalia o Pepê das Olimpíadas Rio 2016 desse Pepê Tóquio 2020? Como evoluiu de uma pra outra? Mudou alguma tática? Posso afirmar que o Pepê de Tóquio 2020 está muito mais preparado que qualquer outra versão anterior. Nas Olimpíadas de 2016 consegui um resultado que pessoalmente foi muito satisfatório, fui o primeiro atleta brasileiro da canoagem a chegar na final olímpica, conquistando o sexto lugar. Minha meta é sempre evoluir, por isso desde então me preparo para Tóquio. Estou vivendo os Jogos há muito tempo e acredito que essa foi a principal diferença, durante a pandemia resolvi trabalhar os pontos que precisava evoluir, também busquei fortalecer a mente. Me isolei e adaptei o que tinha em mãos como ferramenta de treino, desliguei a TV e aproveitei os rios de Piraju, minha cidade natal, para conseguir treinar, montei uma academia em casa para me exercitar diariamente, além de pedalar pela cidade sem contato com ninguém. 

No começo do ano também tive a oportunidade de me preparar em Praga, contando com o suporte do Vávra Hradilek, um atleta incrível e que eu admiro muito, o que tornou tudo mais especial. E ainda consegui aproveitar as competições da Copa do Mundo da Canoagem, que aconteceu em junho deste ano na Alemanha, foi uma competição que enfrentei todos os meus adversários de Tóquio, isso foi primordial para alcançar meu 100% e vencer em primeiro lugar na competição. Já sei como funcionam os Jogos e agora quero ir para conquistar o ouro inédito, hoje sinto que estou pronto.  

Pepê e como começou essa paixão pela canoagem? Meu interesse pela canoagem começou aos 12 anos de idade, foi por meio de um projeto social que trouxe a seleção brasileira de canoagem até a minha cidade, na época dos Jogos de Atenas em 2004. Ao ver os atletas competindo, comecei imediatamente a sonhar em ser um canoísta. Lembro que acompanhava todas as competições de canoagem, imaginando que um dia eu poderia ser um dos atletas que representava o Brasil. Mas não foi tão fácil de início, treinei por um ano apenas a modalidade de Vela e quando finalmente pude mostrar minhas habilidade aos professores, migrei para o caiaque. Desde então esse sonho só cresceu e foi se transformando em uma incrível oportunidade para alcançar todos os meus objetivos, toda essa paixão junto com a minha história dentro do esporte, me trouxeram mais impulso para competir em busca da medalha de ouro em Tóquio. 

Quais os maiores desafios encontrados no início e como superou? Quando completei 16 anos fui convidado para morar em Foz do Iguaçu onde se encontrava a primeira pista artificial da América Latina, o que era um grande diferencial para minha evolução no esporte. Mas o convite foi sem nenhuma estrutura e ajuda financeira. E esse foi o meu primeiro desafio: conseguir me manter em outro estado para crescer profissionalmente. Vim de uma origem humilde e, mesmo assim, minha mãe resolveu fazer uma vaquinha com os meus amigos e familiares, arrecadando 200 reais mensais para custear os gastos de alimentação e pessoal. Precisei comer arroz com ketchup e miojo por um ano. Mas depois desse período a minha vida mudou, ganhei ainda mais determinação, que me motiva até hoje em dar sempre o meu melhor.  

Já passou por algum perrengue durante alguma competição? Estava escalado para ser um dos primeiros atletas brasileiros a embarcar para Tóquio, junto com a Ana Sátila, canoísta da seleção feminina. Mas faltando dois dias para o embarque, meu teste de Covid-19 deu negativo por um erro do laboratório. Meu mundo caiu no momento que soube, vi toda dedicação que tive durante os 5 anos de preparo irem por água abaixo, chorei muito e fiquei extremamente abalado, justamente por me cuidar em tempo integral na intenção de não ser infectado e, portanto, não estava preparado para essa notícia. Mas depois de refazer os testes descobriram que era um falso positivo. Foram os dois dias – que antecederam os demais testes – mais tristes da minha trajetória. Mas acredito que tudo tenha um propósito, no final acabou dando tudo certo e isso me deu mais resiliência para entrar na competição e ir em busca do 1º lugar no pódio.  

Falando em competição, recentemente você participou da Copa do Mundo de Canoagem Slalom Extremo na Alemanha, conquistando a medalha de ouro. Modalidade que entrará para as Olimpíadas de 2024. O que dificulta mais no Slalom e como foi pra você conquistar essa medalha? A canoagem Slalom Extremo é considerada a mais radical dentro da modalidade, sua largada é dada com duas a quatro embarcações que escorrem da rampa e descem simultaneamente para o percurso com as balizas. E conquistar o ouro na Copa do Mundo da Canoagem mês passado me deu um gás extra para Tóquio, é muito bom vencer uma competição próximo das Olimpíadas, ainda mais contando com os mesmos adversários que vou enfrentar nos Jogos, sinto que estou no caminho certo com meus treinos e preparativos. A novidade veio para somar, acredito que vai atrair mais jovens dentro do esporte, além de ser mais uma chance de conquistar a medalha, além do K1. 

Como é sua rotina de preparação para uma competição? Como é seu treino? Em que intensifica mais? Treino diariamente, com horários regrados para acordar, comer, treinar e dormir. Com ajuda da minha equipe, verifico os pontos que preciso melhorar para trabalhar em cima disso, intensificando nos treinos com o propósito de sempre evoluir. 

E a dieta, como é? Alguma restrição fora do normal para manter o físico em forma e ágil? Sigo uma dieta balanceada para ir de acordo com as necessidades do meu corpo, como melhorar minha disposição nos treinos, conseguir mais força e uma rápida recuperação após as competições, além de garantir uma boa qualidade de sono, ingerindo alimentos líquidos e sólidos com os nutrientes que preciso durante o dia. 

No esporte sabemos que disciplina é algo fundamental. Você sempre foi ou conquistou isso com o tempo? Sempre me considerei um cara disciplinado, mas quando estamos de frente para uma grande competição, isso exige uma disciplina maior. Todos os atletas que são de alto nível, sabem do poder de ter uma rotina com foco e disciplina. Comigo ela veio naturalmente junto com a vontade de ganhar, sou muito competitivo e quero sempre vencer os torneios que participo, então consequentemente trabalho ao lado da disciplina de forma contínua. 

Em Tóquio num momento de lazer (se tiver), o que gostaria de fazer? Infelizmente não podemos sair da Vila Olímpica por causa da pandemia. Mas nos momentos de lazer, gostaria de caminhar pela vila, jogar tênis de mesa e conversar com meu treinador, que também é meu amigo. 

Você é um cara vaidoso? Do que não abre mão? Me considero um cara vaidoso, gosto de me cuidar e não abro mão do meu estilo. Tento me expressar por meio dele e também experimento coisas novas com o que vejo nas tendências e revistas de moda, sempre adaptando aos meus gostos. 

Fora a canoagem, algum outro esporte faz sua cabeça? Sou apaixonado por esportes radicais e amo sentir uma adrenalina, então sempre busco praticar esportes que me trazem essa sensação, desde o kayak até mesmo o salto de paraquedas. Quanto mais adrenalina melhor! 

E na hora de relaxar, o que curte? Gosto de conhecer novos lugares e registrar por onde passo, tenho como hobbie a fotografia e edição de vídeo e imagens, e fico feliz em passar meu tempo fazendo isso, mas também sou muito apaixonado pela água, mesmo nos dias de descanso, procuro remar e de descobrir novos rios para relaxar. 

O que vai representar o ouro olímpico para você? Quando resolvi ser um canoísta era para um dia conseguir ser um atleta olímpico, me lembro em 2008 quando vi o Cielo ganhando o ouro em Pequim, eu assisti no sofá de casa chorando, mas minutos depois já corri imediatamente para treinar, pois queria ser um campeão um dia. Representar meu país é a minha maior honra e isso traz à tona todo meu sonho de infância que com muita perseverança, hoje pode se tornar realidade. É a realização de um sonho e também acredito que posso inspirar outros jovens a entrarem no esporte e nunca desistirem dos seus objetivos. 

Fotos Márcio Farias

Styling Paulo Zelenka

Beleza Yago Maia