Por Augusto Branco

A jornada do nordestino que migrou aos 18 anos com o coração cheio de sonhos e esperança e conquistou a indústria do entretenimento em Hollywood. Pioneiro do MMA, Frederico Lapenda se tornou cineasta e hoje em dia é uma referência internacional no entretenimento americano.

Você saiu do Brasil com destino aos Estados Unidos ainda muito jovem. Como foi sua jornada? Quais dificuldades você enfrentou e como as portas se abriram pra você? Quando olho em retrospectiva, entendo porque minha jornada nos Estados Unidos fluiu tão bem. Deus foi muito generoso comigo, pois me deu pais maravilhosos. Meu pai, Luiz Carlos, era um Major Dentista da Policia Militar e foi um grande homem, bom caráter, espiritualizado caridoso e simples. Minha mãe era uma artista talentosíssima, extremamente inteligente, visionária e muito firme. Eles se empenharam muito na minha criação, o que não foi tarefa fácil. Eu era muito travesso, curioso e destemido, tão destemido que em 1987, aos 18 anos de idade, com menos de 1000 dólares, órfão de pai e contra a vontade da minha mãe, peguei um visto de estudante e imigrei para Los Angeles. Fui morar com a família de um amigo/irmão William Hansen. Fiz High School, entreguei pizzas, vendi carros, fui para a faculdade e me formei em Televisão e Cinema. Graças ao fato de ter seguido os sábios conselhos do meus pais de fazer faculdade tive êxito na minha trajetória. Na faculdade aprendi três lições que mudaram a direção da minha vida. A primeira foi que conteúdo de ação gerava altíssima audiência, que no futuro existiriam canais para interesses específicos, e que quem fosse dono de conteúdo teria muita alavanca no mercado; a soma dos conhecimentos que obtive na faculdade e, sobretudo, as orientações que recebi de meus pais foram fundamental para que eu conseguisse êxito em minha trajetória nos Estados Unidos.

Como você começou sua carreira no mundo da luta? Tive a sorte de estar presente no dia do nascimento do Ultimate Fighting Champioship (UFC), no dia 12 de novembro de 1993, em Denver, Colorado, a convite de um integrante da família Gracie. Cheguei até a assistir uma das lutas do Royce na primeira fila junto de Hélio Gracie. Aquela noite foi muito marcante e mudou a história das artes marciais para sempre. Quando eu vi aquilo, uma luz acendeu na minha cabeça, pois o MMA reunia exatamente as lições que aprendi na faculdade. Imediatamente pensei que se eu produzisse eventos de luta e filmasse eu seria dono de conteúdo de ação e poderia vender para canais de interesse específicos, como o SporTV. Em 1994, Rickson foi convidado para lutar e me chamou para uma reunião em que me convidou para trabalhar no evento. A essa altura eu já era formado e prestei assessoria ao evento, recebendo meu primeiro crédito como produtor.

Em 1995, decidi me tornar um produtor de televisão/promotor de MMA ao invés de fazer cinema. Eu trouxe Carlson Gracie e Vitor Belfort para Los Angeles e abri uma academia em Westwood, junto da UCLA aonde estudei. Foi um sucesso imediato, pois a faculdade tinha 40 mil alunos. Também comecei a empresariar alguns atletas de MMA, dentre eles o Marco Ruas. Neste mesmo instante, durante o UFC V, Rorion Gracie se desentendeu com seus sócios e saiu da sociedade do UFC. Entrei em contato com Art Davie, o criador do UFC (que posteriormente se tornaria meu sócio) e ofereci Marco Ruas, e o Art o contratou para participar no próximo evento. Durante o UFC VI, eu tive o prazer de apresentar meu atleta para o mundo. Essa ação chocou o mundo da luta no Brasil. Pois naquela época Ruas era o maior rival do Jiu-Jitsu e o primeiro e único lutador completo da época, foi um marco, e depois daquela momento o mundo das artes marciais não seria o mesmo. Ali nascia o MMA, pois ficava provado que um lutador tinha que ser completo para ganhar aquele tipo de torneio, e então todos começaram a cross training. Ruas lutou no UFC VII e ganhou.

No dia 8 de Setembro de 1995, ali estava eu, com 26 anos, controlando o melhor lutador do mundo e campeão do UFC. Eu também era dono de uma academia com o fenômeno Vitor Belfort, que seria o próximo campeão do UFC. O mundo era meu! Porém, a partir daquele dia começava um etapa muito agitada e desafiadora, pois o êxito no mundo do entretenimento atrai muita energia ruim e inveja. Em 1996 criei meu próprio evento, batizado de World Vale Tudo Championship (WVC). Na época, o UFC tinha coroado 6 campeões, e eu contratei 03 deles (Oleg Taktarov, campeão do UFC VI; Steve Jenum, campeão do UFC III; e Marco Ruas, campeão do UFC VII), e em 14 de agosto 1996, no NK Hall, em Tokyo, nascia a criança. Casa lotada, evento televisionado na Band, e as imagens correram o mundo. Sem dúvida, foi a maior noite da minha vida. Naquela noite começava minha carreira de produtor de televisão/promotor de lutas de MMA. Meu evento chegou a ser o mais visto do mundo, pavimentou o caminho para o Pride, no Japão, revelou vários talentos e levou o nome do Brasil e dos brasileiros para o mundo, pois os DVD’s eram vendidos por todo o mundo. Foi uma trajetória desafiadora porque as pessoas não acreditavam no esporte. Foi uma década da minha vida de muitas viagens internacionais, aprendizado e formação de grandes alianças. Alianças essas que se provariam muito valiosas nos anos em seguida. O maior desafio que enfrentei foi o fato de que os executivos não acreditavam no esporte. Em 2004 eu tentei vender o UFC a várias pessoas, mas ninguém enxergava com a minha óptica. Resumindo: o grupo que comprou por US$ 2 milhões vendeu por 4,4 bilhões de dólares. Não baixei a cabeça, pois minha mãe dizia, “meu filho, na vida temos a obrigação de ser feliz.” Então eu co-criei um time de lutas chamado Golden Glory com meu sócio Bas, sai do circuito de lutas e fui fazer cinema que era o que eu realmente queria.

Como foi o início de sua carreira como cineasta? Quando sonhei em fazer cinema no final do anos 80, isto era um sonho inatingível, meus amigos até me zoavam. No começo dos anos 90, uma das primeira vezes que fui a Recife em férias, fui a uma festa em Carneiros, me reencontrei com um amigo na entrada que me perguntou debochando e rindo da minha cara ‘cadê os teus filmes, Lapenda?’ Pouca gente conseguia fazer cinema, uma minoria conseguia entrar na faculdade, que era caríssima, os filmes eram feitos em película a um custo altíssimo, e acesso às estrelas nem pensar! Mas meu pai me ensinou que o que é de gosto, regala o peito, e com essa lição, meu diálogo interno (que sempre me impulsionava) e com uma personalidade na qual desafios são inspiração, realizei meu sonho.  O MMA abriu as portas do cinema para mim, e em 2002, quando tentava colocar no ar o primeiro canal de lutas que eu tinha criado, o Combat Channel, fui a uma reunião na Mandalay Sports para oferecer parceria. Eu tinha conteudo e a patente do nome, mas precisava de um sócio de peso para me dar respaldo, pois lançar um canal de televisão era uma coisa complicada. O dono da empresa, Peter Guber, era um Maverick. Eu tinha lido sobre ele quando estava na faculdade. Um self-made man que chegou ao cargo de CEO da Sony Pictures, Columbia TriStar, dono do Golden State Warriors, etc. Era o nome certo. Eles, entretanto, não toparam a ideia. Porém, criei o relacionamento, e quando sai do MMA convidei o criador do UFC, Art Davie, para ser meu sócio e formamos a WOW Productions. Com essa empresa, fizemos uma joint venture com a Mandalay Sports para criarmos conteúdo. Agora era oficial: eu estava oficialmente em Hollywood. Com 35 anos, experiencia de produção global e escritório dentro da gigante Mandalay, eu começava minha carreira de cineasta. Conheci um stock broker aposentado que tinha escrito um livro e queria transformá-lo em filme. Levei ele para a Mandalay, formamos uma nova produtora, da qual me tornei sócio, a Mandalay-Lonne Runner, para produzir o filme The Perfect Game (Colin Jr., Cheech Marin). Para mim era inacreditável, que eu estava me tornando sócio do executivo que eu tinha lido e me inspirado na faculdade. Este é o poder de visualizar e realizar. Lembro que ao me dirigir à Mandalay para a assinar o contrato, eu estava gritava no carro.   No ano de 2005, formei minha própria produtora, a Paradigm Pictures. Meu primeiro filme com ela foi Bad Guys (Kate del Castillo, Dan Strong), depois O Homem do Pesadelo (Luciano Szafir), Ataque da Loiras (Pamela Anderson, Denise Richards) e vários outros depois. Sou grato a Deus por ter me guiado, e aos meus pais por terem se empenhado tanto na minha formação, por terem me dado as ferramentas para eu enfrentar tudo no Novo Mundo. Hoje a indústria mudou muito, e fico feliz de ter presenciado a democratização da sétima arte, pois com a tecnologia disponível para produção e distribuição via internet todos têm oportunidade, e quem é bom chega lá. O segredo é não desistir!

Como você se tornou Presidente do Beverly Hills Film Festival? Meu envolvimento com o Beverly Hills Film Festival (BHFF) começou em 2008, quando meu filme Bad Guys ganhou três prêmios, e no ano de 2010 outra produção minha, Sequestro, ganhou o prêmio de melhor documentário. Eu continuei frequentando o festival nos anos seguintes, e em 2013 tive a ideia de fazer uma etapa do Beverly Hills Film Festival no Japão, onde o vencedor entraria no BHFF em Los Angeles. Meu objetivo era fortalecer a categoria de filmes estrangeiros. Apresentei a ideia ao fundador do festival, Nino Simone, fizemos o evento e foi um sucesso. Como venho do ramo de competição, festivais estão no meu DNA. O festival me dá a oportunidade de conhecer gente nova e garimpar novos projetos. Além de que é uma sensação muito boa entregar um prêmio a um colega que está batalhando. Um prêmio tem grande valor na carreira de um cineasta. É um ramo muito disputado, e as vezes um prêmio inspira o cineasta e faz com que ele não desista. Eu não esperava ser convidado para presidir o festival. Quando o fundador do BHFF me ligou, pensei que ele estava brincando. Mas gosto muito da função. Esse ano marca nosso aniversario de 20 anos, então o evento será cheio de surpresas e atrações.

Recentemente, você foi nomeado Embaixador pelo governo brasileiro. Como você pretende promover o Brasil? Embaixador… Bem, eu fiquei muito honrado em estar junto de Ronaldinho Gaúcho, Romero Britto, Renzo Gracie e Vitor Belfort ao ser convidado pelo presidente da Embratur, Gilson Machado, para ser Embaixador do Brasil. Saber que o presidente do meu pais chancela minha jornada é muito gratificante. As coisas que mais me atraíram foram o fato de ser um cargo não remunerado e a possibilidade de poder usar meu know how para ajudar a promover o Brasil. Como dizia JFK, ”Não pergunte o que seu país pode fazer por você, e sim o que você pode fazer por seu pais.” Quando nos reunimos em Los Angeles, Gilson falou que me escolheu porque eu já promovo o Brasil para o mundo com minhas lutas, filmes, e trazendo celebridades internacionais para o Brasil há mais de duas décadas, e que era um título mais do que merecido. Assim, vou me empenhar para criar conteúdos interessantes e trabalhar com meus relacionamentos no mundo para divulgar imagens do Brasil para fomentar o turismo a fim de fortalecer o PIB do país para que o Brasil se desenvolva e o povo brasileiro possa viver melhor. A primeira produção será um programa mostrando as belezas do Brasil. O nome do programa e o Rei do Rolé, e será rodado em fevereiro. Nesse programa um apresentador vai viajar por todo o Brasil para mostrar lugares e experiencias que temos a oferecer.

Condecoração dos Embaixadores Frederico Lapenda, Renzo Gracie Gilson, Romero Britto e Vitor Belfort

Como surgiu sua amizade com o Stan Lee e a criação dos “Aliados da Amazonia”? A ideia dos Aliados da Amazônia surgiu em 2014 quando eu estava no avião, voltando de Tokyo para Los Angeles. Eu vi o Rei Leão passando na tela, e ao analisar o filme eu entendi que a fórmula do projeto era baseada em Hamlet, de Shakespeare, vivida por animais na Savanna da África. Tive um estalo e falei ‘vou criar uma história com animais que tenham super poderes e coloca-los na Amazônia.’ No ano 2000, eu estava procurando um carro no jornal e liguei para um rapaz grego chamado Terry Dougas, que estava vendendo um Suzuki. Eu não comprei o carro, mas ficamos amigos. Ele é 10 anos mais novo que eu, e na época ele estudava na mesma faculdade que eu tinha estudado. Para encurtar a história, Terry se tornou o CEO de três fundos que financiam 10 filmes por ano, e criou a Stan Lee Kids Universe junto a Stan.  Ofereci o projeto que concebi e ele topou na hora. Em seguida nos reunimos com o Stan Lee, criador dos maiores super heróis do mundo, dentre os quais destacam-se Capitão América, Homem de Ferro, e o Homem Aranha, que tinha sido meu super herói favorito na infância. E lá estava eu no escritório daquele gênio vendendo minha ideia. Antes da reunião parei no banheiro para lavar minhas mãos, olhei no espelho e pensei “wow, que coisa louca!”. Enfim, ele amou, concordou e falou para eu sugerir um escritor. Depois de ler o livro do Gabriel Chalita chamado ‘A Ética do Rei Menino’ tive um feeling de que ele era a pessoa certa. Chalita era amigo de um diretor amigo meu, John Christian, que nos apresentou. Gostei muito da energia dele, falei da nossa ideia de fazer um livro de animais com super poderes que protegiam a Amazônia, ele topou, veio a Los Angeles para uma reunião com o Stan Lee e o encontro foi maravilhoso! Ele escreveu o livro, a FTD (dona dos colégios Maristas São Luís onde estudei) vai publicar, e a Amazon vai vender. A história traz uma mensagem de união e de consciência ambiental que tocará os corações e mentes de pessoas de todas as idades. O livro será lançado agora 12 de novembro, um ano depois da morte de Stan Lee.

Instagram: @fredericolapenda