Nossa estrela de capa da vez é um desejo antigo nosso. Talvez o grande público que vive ligado só na TV ainda esteja descobrindo Mariana Nunes agora que ela está participando da novela “Quanto mais vida melhor”, atual novela das 19h da TV Globo, onde interpreta a cirurgiã cardíaca e cardiologista pediátrica Joana, braço direito do vaidoso Dr. Guilherme (Mateus Solano). Mas para quem não sabe Mariana já possui 26 anos de carreira e conta com 17 longas-metragens no currículo. Aos 41 anos, Mariana traz ânsia por se expressar, realizar e se sustentar através da sua arte. Cria do cinema nacional, Mariana prova o sabor de praticamente pela primeira vez viver uma personagem numa novela do começo ao fim. Com seus dilemas, anseios e mutações inerentes do ser humano, Mariana segue sua trilha se descobrindo e sendo feliz pela pessoa que tem se tornado. Reflexo disso foi esse gostoso bate-papo com a MENSCH que você confere na sequência.

Mariana, primeiramente muito prazer em tê-la aqui conosco na MENSCH. Faz um tempinho que queríamos conversar com você. Acho que desde a época de Carcereiros, onde você interpreta Janaína, um papel forte e marcante. Aliás, papeis fortes são com você mesma, né isso? (risos) Para mim também é um grande prazer conversar com a MENSCH! Estava mesmo querendo esse encontro (risos)! É verdade que muitas vezes sou “convocada” a interpretar personagens que as pessoas entendem como fortes. Não sei se a maioria dos personagens que faço são realmente fortes ou se, ao “emprestar” minha intensidade aos personagens eles acabam parecendo fortes.  A Janaína de Carcereiros, por exemplo, tinha uma certeza muito grande de querer ser mãe e, ao mesmo tempo, mostrava uma grande dependência emocional do marido. Apesar de ser uma mulher decidida, mostrava muita vulnerabilidade na maioria das cenas. 

Curioso que pelo que lembramos essa novela Quanto Mais Vida Melhor é a sua primeira novela completa (com uma personagem do início ao fim), sendo você um grande destaque no cinema nacional. Muito premiada por sinal. Mesmo tendo participado de diversas séries e seriados, esta é praticamente a “primeira” novela. Digamos que a teledramaturgia demorou a enxergar seu potencial? Ou foi questão de oportunidades? Já me fiz muitas vezes essa pergunta porque sempre quis fazer novela. Fiz meu primeiro longa em 2007 e por ele, fui premiada algumas vezes. Mas acho que isso não deveria contar, pois o que vale é o trabalho que você entrega, e não um “selo” que um seleto grupo de pessoas decide se você merece ou não receber. Quanto mais saudável é a sua relação com a autocrítica, quanto mais propriedade você tem de sua trajetória, quanto mais autoconhecimento e mais consciência você tem de suas vitórias (precisamos aprender a comemorar sempre nossas vitórias, por menores que sejam), mais noção teremos do nosso potencial. Ninguém melhor do que nós mesmos para saber dos nossos potenciais.

Mas vejo também um fator racial e um fator de padrão de beleza que falam muito alto. É muito difícil um produto da TV apostar em uma cara nova, sendo essa cara nova uma mulher preta que, apesar de bonita, não se encaixa facilmente em padrões já apresentados pela televisão. O cinema oferece mais possibilidades na construção de personagens, mas, ainda assim, vemos muitos tipos de personagns negros se repetindo o tempo inteiro, como o policial, o traficante e a mãe que perde o filho… Ainda existe muito fetiche nisso. Acho que as oportunidades, dentro do audiovisual, são criadas por um grupo pequeno de pessoas que ainda pensam de forma bem homogênea.  

Ainda sobre Quanto Mais Vida Melhor, onde você interpreta a Dra. Joana, como surgiu o convite? E como foi a preparação para gravar, interromper as gravações e depois voltar por conta da pandemia? Me chamaram para fazer um teste na véspera de uma viagem para o festival de cinema de Rotterdam e na mesma semana, meu pai tinha sofrido um acidente e precisaria ser operado. Lembro que foi uma correria danada – deixar minha cachorra no hotel, passar no Projac para fazer o teste, ir pra Brasília pra ver o pai, voltar pro Rio e viajar pra a Holanda. Aí, depois, veio o convite para Amor de mãe enquanto eu ainda estava fora. Voltei para o Brasil e fui, praticamente, direto pra a prova de figurino e para a viagem até às locações das cenas da novela. Essa experiência foi ótima e inesquecível, até porque foi meu último trabalho antes do longo e caótico período de pandemia. Em novembro de 2020, veio o convite para a novela e gravamos ao longo de um ano. A preparação foi basicamente online, com poucos encontros presenciais. No início, o ritmo das gravações era mais lento que o normal de uma novela e a interrupção, no meio do processo, deu uma sensação de tornar nosso trabalho um pouco ralo, mas com a vacinação, recuperamos o ritmo. 

A personagem é intensa e forte. Se identifica com a Joana em algum ponto? Será que a Joana é mesmo um personagem forte? Acho que até então o que estamos vendo, ela e uma mulher decidida e muito fiel a seus princípios, porém, é também uma mulher que passa por um momento de vulnerabilidade no amor. Talvez seja um mau hábito classificar personagens de mulheres negras como fortes, sem direito a uma análise mais complexa sobre seus sentimentos e suas subjetividades. A Joana é extremamente sensível e doce quando está plena em seu trabalho como voluntária no Hospital Público Lobato Filho e seus pacientes a têm em muita alta estima. Isso me interessa muito em um personagem – a leveza que é, muitas vezes, furtada dos personagens negros. A fase atual da Joana me irrita bastante, confesso (risos)… Se fosse eu, já teria explodido há muito tempo. Podendo escolher – eu nunca faria uma parceria com a esposa do meu chefe (por quem sou apaixonada) em um projeto que é meu. É uma situação pronta pra dar errado (risos)… Mas tenho sempre que lembrar – é só uma novela, Mariana (risos)… Talvez, o que tenhamos em comum, seja a paixão e a entrega em sua profissão. Eu amo muito o que faço – e a Joana também. 

Falando em personagem forte – em geral, suas personagens são assim, né isso? A que se deve isso? Personagens assim de instigam mais? Sou uma pessoa muito intensa e ao mesmo tempo, muito sensível. Aprender a manipular essas qualidades, me ajuda a acessar a profundidade de alguns personagens. Acho que tem a ver com a minha personalidade. Também existe uma lógica cruel de que personagens de mulheres negras são naturalmente fortes. No caso da Dra. Joana vemos uma mulher normal, estabelecida em sua profissão e bem financeiramente. Ela não é forte ou fraca. O que me irrita na real é ver o seu apagamento no amor – uma mulher negra, médica, bem sucedida “pagando paixão” por um homem branco e casado. Isso é muito pra mim, não estou sabendo lidar… (risos)! Mas, enfim, é novela, Mariana…  Tomara que ela tenha uma reviravolta! Quanto mais vida melhor foi um espaço maravilhoso para trabalhar um personagem que não está diretamente ligado à causa racial, mas será possível não racializar um corpo negro em cena, assim como fazemos com os corpos brancos que nunca são racializados?  

Você nasceu e viveu boa parte da sua vida em Brasília, até ganhar o mundo. Mudou-se para o Rio de Janeiro, passou uma temporada estudando interpretação em Madrid e não parou mais. Como foi esse processo inicial? Me formei em Brasília, na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e lá, fiz muitas peças de teatro e alguns curtas. Fiz a Oficina de Atores da Globo em 2003, quando participei do elenco de apoio da novela Mulheres Apaixonadas, passei uma temporada em São Paulo, onde fazia muitos testes para publicidade (e só consegui passar em um) e lá, também, trabalhei como hostess num restaurante e como barista num café de gente bacana. Depois disso, voltei pro Rio, arrumei uma agente, entrei pro elenco de uma peça e recebi o convite para meu primeiro longa-metragem. Antes de rodar O Homem Mau Dorme Bem, passei uns meses em Madrid onde estudei um pouco de interpretação pra TV e cinema. Voltei para o Brasil, perdi a peça de teatro, filmei O Homem Mau Dorme Bem no Mato Grosso do Sul, voltei pro Rio e cá estou. 

Que recordações e aprendizados guarda do período em que passou no Coletivo Irmãos Guimarães, dos irmãos Adriano e Fernando Guimarães? Era maravilhoso! Era como uma companhia de teatro. Foram muitos os processos e peças que fizemos juntos. Eu trabalhei com os Guimarães em diversos formatos desde a faculdade, onde foram meus professores e, depois, profissionalmente. Viajamos para diversos lugares no Brasil e fomos pra Vigo, na Espanha. Aprendi muito com eles, muito sobre as palavras, sobre falar o texto, sobre a estética da cena. Tenho saudades e estou sentindo muita falta dos palcos. 

Como tudo isso moldou a atriz que você é hoje? Acho que ter tido uma educação um tanto rígida, ter estudado no Colégio Militar de Brasília, ter feito aulas de ballet clássico, ter trabalhado com os Guimarães e ter feito aulas de evangelização me tornaram também a atriz que sou hoje. Não que eu defenda todas essas instituições que citei acima. Nem tudo foi bom, mas me ajudaram a saber o que eu quero e, principalmente, o que não quero para mim. Tudo isso ajudou a constituir quem sou hoje. E eu gosto do que sou hoje.  

É impressão nossa ou é no cinema que você encontrou “moradia” para sua arte? Como o cinema te toca e qual a importância dele na sua vida? Eu sempre quis fazer televisão, né?! O cinema me quis e eu aceitei ficar com ele. Aí foi uma paixão, uma prioridade, um planejamento de carreira. O cinema me possibilitou dar muitos “nãos” a papeis ruins na TV. Em geral, os personagens dados a atores negros na TV ainda são muito estereotipados. Já vemos mudanças, mas ainda é pouco. No cinema temos mais margem, mas, ainda assim, existe um fetiche muito grande pela miséria e violência que recai sobre os corpos negros. Quando mais nova, eu via o cinema com mais encantamento. Hoje, a maioria dos personagens que escolho fazer no cinema vêm acompanhada de grandes conflitos e dilemas. 

Você observa uma mudança no comportamento do público, autores e diretores em relação ao destaque dados para atores negros no audiovisual hoje em dia? Tem evoluído positivamente? Sim, tem evoluído, porém muito lentamente. Sinto um pouco de vergonha de ainda estarmos onde estamos no quesito equidade racial nos elencos. Acho que nos streamings os atores pretos estão tendo cada vez mais oportunidades, mas ainda existe uma resistência grande em escurecer as telas. Acho que o colorismo poderia ser mais debatido – e ele não vem para dizer quem é preto ou não. Acho que ele serve para entendermos melhor as escolhas feitas na formação de um elenco. Escolher uma atriz light skin para interpretar uma protagonista é muito diferente de escolher uma atriz retinta para o mesmo papel. A narrativa muda. A questão é quando estaremos, ou melhor, quando estarão prontos para ter uma atriz retinta protagonizando um produto do audiovisual que não tenha como tema polícia e bandido, favela, tráfico, pobreza ou racismo?   

Na sua opinião o que falta para isso mudar mais? Alguma barreira a ser rompida dentro do seu universo, que é o audiovisual? A diversidade precisa acontecer de uma forma real, na frente e atrás das câmeras, e não apenas ter um ator “não branco” ou um ator trans, por exemplo, em cada núcleo. Precisamos ter ‘diversidades’ (no plural, mesmo) em todas as equipes. Outra barreira é a repetição dos temas e narrativas que envolvem corpos de atores ‘não brancos’ e ‘não normativos’. Não estamos acostumados a ver esses corpos em sua integridade e, sim, em fragmentos relacionados à sua “condição” que, em geral, é definida pelo outro, e não pelo próprio indivíduo/personagem. 

Este ano você vai estrear três longas. Diria que mesmo sem incentivos, o audiovisual nacional continua a todo vapor? Como percebe isso? Bem, dois desses longas foram filmados antes da pandemia e, por isso, o atraso nas estreias. O Grande Sertão: Veredas é a retomada. Começamos as leituras antes da pandemia, houve uma pausa longa e filmamos no segundo semestre de 2021 sob uma série de protocolos. As produções estão voltando a todo vapor, porém com muitas restrições feitas para a própria segurança da equipe. 

O que é arte e como ela te completa? Para mim, a arte é um lugar de exposição de ideias, e logo se torna um lugar propício para o debate e a reflexão. Ela pode também ocupar o lugar do alívio, do lúdico e da leveza do entretenimento, como acontece na novela Quanto Mais Vida Melhor

E quem é Mariana longe das câmeras? Onde vive, do que se alimenta? (risos) Essa é uma das perguntas mais complexas e mais presentes na minha análise e nas minhas sessões de thetahealing – Quem é a Mariana? Aos 41 anos de idade não sei bem responder a essa questão. A ânsia por me expressar, me realizar e me sustentar através da minha arte, através da minha profissão, sempre deixaram a minha vida pessoal em segundo plano. Achei que na idade em que estou, as coisas já teriam caminhado naturalmente para um “normal” que fomos educadas a acreditar que era “o normal” –  estar casada, num relacionamento hétero, com pelo menos dois filhos, um cachorro e morando numa casa com piscina. Hoje moro num apartamento com paredes amarelas, tenho a cachorra mais legal e sociável do mundo e namoro a moça mais linda da cidade, a atriz Tati Villela. 

Tô bem feliz descobrindo outra realidade do amor afrocentrado. O amor da escolha, o amor do seu corpo, o amor do que você acredita e quer construir. É muito difícil desapegar de padrões antigos de relação que já nos fizeram muito sofrer. Mas quando você entende que amar é uma escolha, é um movimento, que não é fácil, mas é possível, muita coisa boa, muita realização e descobertas (tardias também) magicamente acontecem. O nosso feminino é muito potente e estar em contato com ele, traz alegria e saúde. 

Nas horas vagas o que curte ler, ver e ouvir? Vejo Quanto Mais Vida Melhor (muitas vezes, mais de uma vez – sou nerd!). Atualmente leio o livro de Bell Hooks Erguer a voz, pensar como feminista, pensar como negra, e tenho compulsão por ouvir a mesma música infinitas vezes seguidas, em looping, (risos)… Atualmente ouço as músicas híbridas da Dembaia, Tarde em Itapuã, da Mahmundi, e uma ou outra da Alice Caymmi. 

Para este ano o que deseja? Até onde pretende ir? Desejo poder respeitar mais meus limites, sem grandes sofrimentos.

Fotos @fernanda.candido

Make @mari.walsh

Styling @tiagolunaa

Tranças @trancadajo