Alguns fotógrafos resolveram lidar com a quarentena de um jeito diferente. Arte sempre foi resistência e eles seguem resistindo a essa claustrofobia necessária sem perder a sensibilidade do olhar, aproveitando tudo o que a tecnologia e a vontade de inovar podem fazer. A liberdade de poder criar além dos limites. Sair do lugar comum e se aventurar numa intimidade ainda maior com seu modelo foi o que pudemos conferir no projeto “#ByMyCel” do fotógrafo carioca Sergio Santoian, um velho amigo e parceiro nosso aqui na MENSCH. Serginho quebrou seu isolamento criativo quando viu no primeiro click o resultado do seu trabalho. Entre famosos e anônimos, ensaios que trazem a intimidade e o momento de cada um em belas imagens para recordar esse momento.

Serginho, vamos logo pra ideia inicial… Como surgiu o “#byMyCel”? Surgiu sem a intenção de virar um projeto. Após 35 dias de isolamento, comecei a sentir falta de fotografar, do contato e da troca com outras pessoas. Vi alguns fotógrafos fazendo foto pelo facetime, pelo computador, pelo celular… demorei a “aceitar” essa ideia, mas a quarentena foi se prolongando e acabei me convencendo de fazer. Tive então a ideia de fazer “mini ensaios”, explorando esse momento de cada um: nas suas casas, com seus objetos, suas histórias… Fui convidando alguns amigos, outras pessoas começaram a demostrar interesse… fui fazendo cada vez mais fotos… e naturalmente, acabou virando um projeto.

Você ficou conhecido por retratar os atores em situações não convencionais, como pelados, riscados ou jogados na lama (literalmente). (risos) Como isso repercutiu no fotógrafo que você é hoje? Não acho que estar pelado seja uma situação não convencional. O nu faz parte do nosso dia a dia, faz parte da história, faz parte da moda. Então o não convencional, se dá pra mim, aos atores na lama, rabiscados, com sangue e etc… Eu sempre busquei no meu trabalho, uma estética bem particular, uma assinatura que fizesse as pessoas reconhecerem uma foto minha, no meio de tantas outras. Num geral, pelo menos do que chega pra mim, as pessoas gostam bastante. Se identificam, querem fazer também. Claro que não existe uma unanimidade e existem pessoas que não se identificam com meu trabalho … E tudo certo! O mais legal disso tudo é saber que, nesse ano em que completo 10 anos de carreira, tenho total consciência de que estou sempre em aprendizado. Hoje, com 35 anos, eu estou muito menos afoito. Tenho mais calma pra escolher o que quero fazer nos meus projetos e para o rumo que quero dar a minha carreira.

Nesse projeto atual você também convidou alguns atores, o processo tem sido natural já que conhecem o seu trabalho? Isso facilita ou é uma história nova? Facilita completamente! O fato de já conhecer a pessoa e a ela curtir meu trabalho, faz o convite ser “menos formal”. Vira uma parceria mesmo. A pessoa confia no meu olhar e eu confio que terei o melhor dela naquele momento. Nesse projeto “by my cel” também venho fotografando pessoas que nunca havia trabalhado e mesmo que eu nem conhecia pessoalmente. A abordagem é outra, mas o resultado é tão bacana quanto com alguém que eu já conhecia.

Alguém se recusou a posar via FaceTime? Como convencer? Sim! Eu convidei um ator e um modelo. Ambos me disseram que não estavam em dias bons, por conta da quarentena e eu super entendi. Algumas pessoas que posaram para o projeto, toparam de imediato, mas também pediram uns dias, para estarem melhores, mais dispostas. Faz parte do processo, pois estamos passando um período bem difícil. Não sei se a palavra certa seria “convencer”… pois me dá a sensação de que estou tentando manipular a pessoa a fazer algo que talvez ela não queria. Sou mais reto e direto: convidei, expliquei o projeto … topou, topou … não topou, não topou. E tudo certo!!!

Quais os desafios que você como fotógrafo tem enfrentado com esse novo formato de fotografia? Já tinha feito algo parecido antes? Nunca tinha feito nada assim. Acho que a questão técnica é o principal desafio. Ter um aparelho com uma câmera legal, uma internet boa… e claro, iluminação de onde a pessoa está, tudo isso define a qualidade da imagem que vou conseguir registrar com a minha câmera, fotografando o meu telefone. 

Como fotógrafo, com rotina agitada, ficar trancado em casa não deve ser fácil? Como tem sido para você e como tem ocupado o tempo além da fotografia? A minha rotina de trabalho é bem puxada, mas no dia a dia, fora trabalho, sou bem caseiro. Talvez por isso eu não esteja sentindo tanto o fato de estar a quase 70 dias em casa. E com o projeto estou ocupando quase que todos os meus dias. Quando não estou clicando, assisto muitas séries e filmes e amo cozinhar também.

Entre famosos e anônimos, como você tem percebido o dia a dia dessas pessoas? Age um pouco como terapeuta em algum momento? Pois é! Em todos os ensaios rola um papo muito gostoso. Sempre surgem assuntos relacionados ao dia a dia no isolamento, ao momento crítico que estamos passando, tanto na saúde, quanto na política. Acho que eu viro um pouco psicólogo de quem estou fotografando e eles viram meus psicólogos também, com certeza.

Já teve algum que você sentiu que não ia rolar e teve que administrar para no final ter um bom resultado? Nesse projeto especificamente, não! Já ao longo de 10 anos clicando… 

E já teve caso de você achar que com aquela pessoa seria perfeito e no final se sentir que não rolou? Sim e é muito frustrante.

Aliás, o que o “modelo” precisa fazer ou ser para rolar um belo registro? A pessoa que vai ser fotografada, precisa ser sincera com ela mesma e se aceitar.

Acredita que sairemos dessa fase para o “novo normal” modificados? Sente que você mudou algo na forma como encara o mundo pós-pandemia? O que será o novo normal? A mudança precisa acontecer em cada um de nós, verdadeiramente. Não adianta falarmos em um “novo normal” se algumas atitudes e escolhas continuam antigas. O mundo num geral está mudando e acho que vai evoluir pra algo melhor. Precisamos acompanhar, crescer como pessoas, evoluir e dar valor ao que tem que ser dado. Eu estou me redescobrindo a cada dia e redescobrindo meu ofício. Revendo as coisas que são importantes pra mim. Estou me dando tempo e respeitando esse tempo, pra tentar entender todas essas mudanças.

Como a criatividade tem aflorado nessa fase de isolamento social? Tem dias que são mais fluidos e dias que são mais emperrados. Varia de como acordo, como durmo, do que vejo no jornal. Desde que comecei a clicar o “by my cel” venho tentando me blindar um pouco das notícias. Pelo menos dois dias na semana eu não vejo nada de TV, jornal e fico o dia vendo arte, assistindo filmes, me inspirando. Tem me feito bem e tenho conseguido colocar a criatividade em prática nos ensaios por vídeo chamada.

Do que tem sentido mais falta, tanto na vida pessoal como na profissional? Na pessoal, da minha mãe, com certeza. Eu moro em SP e ela no RJ e nunca havíamos ficado tanto tempo sem nos vermos. Na profissional, do dia a dia do set.

Qual o maior desejo (como pessoa e como profissional) para quando sair do isolamento social? Não acho que quando sairmos do isolamento poderemos sair por aí abraçando todo mundo, então, quero andar pela Avenida Paulista e ver gente. E, como profissional, quero voltar a clicar presencialmente logo. Embora esteja amando fazer as fotos pelo telefone.

Quem você gostaria de fotografar e quem você gostaria que te fotografasse? Adoraria que o Bob Wolfenson me fotografasse. Eu tinha o sonho de fazer um retrato do Bob também. E isso eu já realizei. Agora, tenho vontade de clicar o Pedro Andrade.

Planos futuros? Algo que possa nos adiantar? Sim! Assim que puder voltar a clicar presencialmente, vou retomar o “#feitotatuagem”, que é o projeto que tenho em parceria com minha amiga e maquiadora Louise Helene. Nós queremos fazer uma exposição do material no próximo ano e também lançar um livro com as imagem que fazem parte do projeto.