Das águas doces do rio Paraguaçu, do mar morno de infinita riqueza aquática, das terras prósperas de uma fartura de caças e frutos de variações entre os doces e os cítricos na medida certa, à Tatuapara (Casa da Torre, de Garcia de Souza D’Ávilla, maior latifúndio brasileiro, na cidade da Mata de São João – praia do Forte) nasce o povoado.

Dos tratados e ambições territoriais escritos à pena e ódio dos povos ibéricos famintos por suas derrotas pelos acidentes naturais, fracassos de suas explorações marítimas e suas disputas e lutas com a pirataria dos povos franceses ficou marcado esse solo, devido à história invasiva e colonizadora que culminou em tantas perdas, que foram forjadas através dos sabres, gládios, floretes, langes schwert (espada longa) e tizonas (espadas tipicas da época) que foram marcadas em seu gume com o sangue dos reais donos daqui. Nem Caramuru (Diogo Alvarez), português audaz, primeiro a caminhar aqui como os índios Tupinambás, e ter suas intenções presumidamente exploratórias, em sua paixão à índia Paraguaçu (Catarina, de batismo) e à terra que já sentia em pátrio solo – a terra brasilis, impediu o rumo dessa história.

A Bahia de Todos os Santos nascia embaixo de lutas, crescimento fantástico, explosão demográfica, adaptações às normas do explorador e do explorado, das pragas e doenças naturais e vindas das naus sobre aspectos desumanos. Os povoados, as ruelas, ruas, terreiros, morros, casarios, igrejas infindáveis que sub-existiram até o prezado momento. Assim, está marcado o caminho e o propósito de seu povo.

Vendo a cidade, vamos mais além e imaginamos cada tijolo e telha que nos emanam uma lembrança afetiva arquitetônica, o labutar dos muitos escravos e escravas submetendo suas coxas ao barro lamacento para trazer à cidade sua maior legitimidade – A NEGRA. Assim, está por toda a parte impregnada a origem negada e velada do povo baiano. Uma origem que vem das índias laçadas e pegadas a ferro e corda, dos seios das negras, que derramaram seu leite nos filhos desse lugar. Das negras vindas da África. Nessa sociedade que, em sua maioria, vem de um pleito matriarcal, forçada por seus “senhores”. Desse povo que foi levado ao extremo da submissão, da falta de direitos, da negação de sua identidade e cultura.

A Bahia brota já cravada em um legado, uma missão. O seu POVO. Sua maior riqueza, uma gente que se construiu posicionando-se, equitativamente, à sua história. Ir a Salvador, caminhar nas rotas baianas, seja do dendê, do cacau, no universo baiano é tecer sobre a apropriação da palavra RE-EXISTIR, é RESISTÊNCIA.

Andar pelos altos e baixos da cidade é ter a certeza que os Iorubás, Ewé-fon, Bakongo-umbundo, de Angola, os Malês – ou mesmo, as origens denominadas pelos traficantes, NAGOS (ketu, Ijexá, Efon), EWÉ-FON (Jeje-mahi, Jeje-savalu e Jeje-nagô), BANTU (Congo-Angola), entre outras nações que aqui foram lançadas, que não vieram e sofreram em vão. É ter a certeza que temos uma eternidade para sermos libertos pelo perdão dos mesmos, por tamanha maldade, por tudo que passaram, e ainda passam. Mesmo assim, eles deixaram, entre tantas linguagens, suas presenças. Refizeram-se, fincaram seus pés e renasceram nas curvas dessas terras.

Seja sobre a música, a pintura, os modos das vestes, a linguagem própria da gleba à culinária, a marca afro está e é presente em todas as rodas, independentemente de classe social.

Da carne de baleia do passado, hoje não mais usada nas mesas opulentas, aos Aloás (bebida), os moquéns (moquecas), os beijús, as folhas de língua de vaca, maturis, os caranguejos, o arroz de hauçá, o caruru, o vatapá, o acarajé, efó, a farofa de dendê, pititinga, o abará, acaçás, a maniçoba, o sururu, o siri, as rodelas de cana, as cocadas do tabuleiro, os peixes coloridos e saborosos, como xaréu, garoupa, que rondam a mesa baiana de uma infinita quantidade e opulência. Mas o que vale para a Bahia são as mãos de quem a faz. E isso vem da tradição, dos costumes, preceitos e respeito ritualísticos que só as mãos sagradas das Yabasses dos terreiros, e dos seus devotos que aprendem como elas fazem – os cozinheiros(as) que pesquisam incansavelmente, que debruçam-se em autores como Manoel Querino, Nina Rodrigues, Thales de Azevedo e Jorge Amado. E assim, cozinham sobre acordes e brisas a la Caymmi, Maria Bethânia e Mariene de Castro. Que percorrem os becos da feira de São Joaquim, e entre balaios e caçuás escolhem os temperos, as favas de aridans, as pimentas de cheiros, os jatobás. Essas são as mãos que às quais credito os sabores comidos aqui, de sacra responsabilidade. A verdadeira comida com linguagem e preservação patrimonial. O ajeum. Salve dona Mariquita, Ana Celia do Zanzibar.

Constata-se que, nessas terras quentes a comida tem perfume, que não é só de dendê, de coco, mas de múltiplos insumos, das borbulhas do aquecimento que recebem na cocção certa. As bebidas ardentes, que harmonizam com perfeição com as preparações fortes e marcantes, que devem ser degustadas de praxe sem pressa, sem nenhuma comparação. É sentar, permitir-se e fartar-se. E no mais, rezar copiosamente numa rede, numa sombra, e vendo ao horizonte o mar do Rio Vermelho.

Essas terras daqui, foram feitas para se perambular, no melhor sentido da palavra, bater perna, principalmente no Pelourinho. E só subir o Elevador Lacerda e deparar-se com uma vila de casarios coloniais, com o Terreiro de Jesus, o Paço, o Carmo, as alamedas alicerçadas por caminhos de paralepípedos, ver os zambiapungas enormes (rito folclórico de origem Congo/Angola), deparar-se com as ciganas ávidas pelas leituras nos traços de suas mãos. Com as baianas e suas guias feitas de contas coloridas a seus santos, e elegantemente vestidas com roupas alvas e engomadas de rechilieu. É entrar nas igrejas e ver o trabalho feito a açoite dos escravos, e das mãos primorosas de vários artesãos de entalho, de pintura a folhas de ouro. E elevar seus olhos ao alto e ver os santos com seus rostos redondos, bochechas rosadas e angelicais.  É se fartar ao ir à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e ouvir o padre a cantar a missa em Iorubá (língua nagô), e sentir que é possível o respeito das diferenças.

 

Adentrar no baianês é ter certeza que se está na obra de Jorge Amado, um dos ministros de Xangó por mãe Aninha do Opofunjá. E se esbarrar com Tiêtas, Dona Flor, Manelas, mulheres fortes, fogosas, de sorrisos de satisfação, ancas cheias, peles douradas. Bebericar com Vadinho e fazer uma fé, depois ir à Ladeira do Taboão, com suas escadas escuras e ver o arerê de gente que compra e vende de tudo. E não se cansar de ver o corredor da Vitória que ainda esconde antigos sobrados requintados. Mas não deixe de passar na Rampa do Mercado, que já foi um comércio de saveiros vindos de Itapatica e do Recôncavo, onde ainda encontra-se a arte da pesca. E driblar os becos e chegar na Rua Chile, e ter a certeza que a aristocracia ali se fartava de luxo e glamour.

Ao estar nesses lados de cá, visite a orla e se atenha a elas – todas as praias têm seus charmes e enigmas. Ir à Lagoa do Abaeté, os Alagados, à Baixa do Sapateiro, que não são lugares de barões, mas detém o espírito mais autêntico da Bahia.

Não obstante, observe como aqui o assunto religiosidade teve outra conotação, e mesmo que as facetas e lutas foram iguais as das outras regiões do Brasil nos primórdios. Aqui, os caminhos adversos das crenças, em geral, respeitam-se, e a força da coletividade formou a sua própria linguagem, o candomblé que resistiu com suas essências e animismo. Orixás, voduns e iquinces são cultuados. Aqui as mães, os pais, seu povo, seus ilés, celebrações e preceitos são respeitados. Na Bahia, não se sai sem se sentir os banhos perfumados, a importância do axé. Nesse lugar do Brasil, os padres abrem as portas das igrejas para permitir a lavagem das escadarias pelas as Yás e louvam a Oxalá.

A atmosfera por esses lados inspira com seu mar azul cheio de barcaças e pleno como reino de Yemanjá, com suas águas doces e que entrecortam as terras traçadas por Oxum, com os bronzes de seus filhos, guerreiros de Ogum, com seus tererês entoando as alfaias, agogôs, atabaques e birimbaus a jogar capoeira.

A Bahia emana suas procissões que sobem e descem as ladeiras e que desde o princípio eram louvadas as suas graças, a seus cheiros fortes vindos dos caldeirões que há muito eram alcunhas para as negras se libertarem. As suas devoções e sincretismos ante sua miscigenação, seu povo crioulo, sua rica história, sua opulenta terra, sua valentia, a forte presença e beleza ímpares. Salve a Bahia!

Agradecimentos à Marília Freidenson que gentilmente ler os meus textos e os revisa com tanta gentileza. À Paloma Amado que em suas palavras me fez amar ainda mais esse caminho que decidir trilhar. Paloma como você me disse eu realizei. Burilei o texto à Sr. Jorge Amado. Ágò.