Depois de morar boa parte da sua vida na Bélica e ter o francês como sua segunda língua, Pedro Alves, de 26 anos, resolveu voltar para o Brasil e correr atrás da sua vocação que é ser ator. Logo de cara dois bons desafios, um atuar em francês na série sobre Santos Dumont e em seguida encarar um protagonista que ao longo da história se descobre gay na atual temporada de “Malhação”. Interpretando o jovem Guga, Pedro pode contar um pouco a sua história e de certa forma combater o preconceito sobre um assunto ainda delicado para o horário. “Por incrível que pareça, o Guga não gerou preconceito nenhum nas ruas, pelo contrário, sou abraçado com muito amor, sempre!”, comentou Pedro durante a entrevista para a MENSCH. Um belo desafio e uma bela lição de vida. Vai em frente Pedrão!

Pedro, quer dizer que você morou na Bélgica e atuou em francês na série sobre Santos Dumont!? Conta como foi isso. Morei sim! Saí do Rio com 8 anos sem saber nada da língua francesa. Cheguei lá e pra minha surpresa eram três idiomas. Eles falam francês, holandês e alemão. Foi uma mudança de cultura muito brusca, mas eu me adaptei muito rápido. Quando se é criança você consegue absorver as coisas em pouco tempo. No primeiro semestre eu já era o melhor aluno da sala, inclusive em francês, (risos). Sobre “Santos Dumont”, eu realmente não imaginava que meu primeiro trabalho no audiovisual seria uma série em francês, com um personagem histórico como o “Sem” – Georges Goursat. Fiz o teste com meu celular, sozinho no meu banheiro e parece que deu certo.

Você morou na Bélgica por muitos anos. O que trouxe na bagagem da vida quando se mudou de volta para o Brasil? Eu acho que essa mudança de cultura é importantíssima pra formação humana. Se abrir pra novos mundos só faz a gente abrir a mente pra novas formas de se viver e conviver. Acho que voltei com essa noção de que cada país tem seu valor! Eu precisava do Brasil, redescobrir nossa cultura, nosso povo, desse calor humano que sentia falta por lá, dessa fé que a gente carrega, esse lado espiritual. Mas voltei com lições muito importantes que aprendi. Questões que vão desde o comprometimento com horário e trabalho ao comprometimento social para que a cadeia social funcione bem. Eles costumam ser bem organizados, o sistema social, educativo e público é muito eficiente. Gostaria que tivéssemos isso aqui. Menos diferenças sociais e e um Estado mais presente.

Quando descobriu que ser ator era o que você queria para vida profissional? Eu sempre soube! Tem um vídeo do meu último aniversário aqui no Rio, com 8 anos, em que eu entrevistava as pessoas e brincava de fazer novelas com meus irmãos. Sempre cresci sabendo que seria ator. Foi um caminho inevitável! Aí, com 12 anos, comecei a estudar na Academia de Artes do Estado da Bélgica para me profissionalizar.

Atuar em francês ou em português, alguma diferença? O frio na barriga é o mesmo na hora que fala “gravando!”? Acho que existe uma diferença sim, porque cada língua tem seu tempo e sua musicalidade. Mas realmente, o frio na barriga é o mesmo! A vontade de fazer é a mesma!

Atualmente está em “Malhação”, num programa de muita audiência, e mais responsabilidade. Como chegou até isso e como tem sido a experiência? É um presente! Eu devo muito, de verdade, ao diretor geral Adriano Melo e ao autor Jacobina, por terem me escolhido. Eu gosto assim, fazer um papel que seja instigante para o público, que mexa com a cabeça das pessoas e o Guga consegue isso. Ele consegue tocar o coração dos mais sensíveis e fazer com que as pessoas repensem seus preconceitos. Tem coisa melhor para um ator? A resposta do público é sempre impressionante. Essa semana estive em Padre Miguel, Zona Oeste do Rio, na quadra da Mocidade. Eu fui parado a cada passo que eu dava, com pessoas emocionadas, homens me beijando e todos sensibilizados com a história. Acho que o Guga resgatou o amor pelo próximo que certas pessoas haviam perdido.

Logo de cara um personagem homossexual. Como tem sido o desafio? Algum preconceito nas ruas? Muitos fazem personagens héteros a vida toda, eu tive a honra de fazer um gay iniciando a carreira televisiva. O desafio se dá pela não aceitação da homossexualidade, o que gera uma trama instigante. Por incrível que pareça, o Guga não gerou preconceito nenhum nas ruas, pelo contrário, sou abraçado com muito amor, sempre! Nos olhares, só enxergo compaixão e amor.

Ainda tem o drama racial por seu personagem ser apaixonado por um negro. Como tem lidado com tanto drama? (risos) Acho que precisamos lutar por todas as causas. Eu, enquanto Pedro Alves, acredito que lutar por todos é o ideal. Toda causa que luta contra a agressão moral, verbal e física vai ter meu maior apoio. Racismo no Brasil tem raízes profundas. Uma erva daninha que precisa ser arrancada com força. Acho que o autor conseguiu juntar três grandes causas: a luta contra o racismo, a homofobia e a diferença de classes.

Quando sai do estúdio de gravação o que faz para relaxar? Onde recarrega as baterias? Eu considero meu trabalho um hobby, então eu me divirto por lá, quando falam “gravando”.  Antes do gravando, geralmente, sou bem concentrado e muito profissional. Faço questão, por mim e por respeito as pessoas da produção. Mas é preciso se distanciar, não dá arte, mas do que ela gera. Eu procuro me afastar em lugares reclusos, fazenda, água do mar. Eu gosto de estar sozinho as vezes.

Com o destaque em “Malhação” como tem sido o assédio? Como lida com tudo isso? Esse é o lado que vem e que temos que entender. Eu estou ator de televisão, serei reconhecido e assediado nas ruas. Entendo e lido bem com tudo isso. Havendo respeito de ambas as partes, está tudo bem. Geralmente dou um jeito de contornar a situação.

Você é um cara muito vaidoso? Como cuida da aparência? E como cuida do corpo e da mente? Eu sou vaidoso sim, mas depende do momento. Acho que o teatro me trouxe um desapego com roupas (risos). Hoje em dia me preocupo mais quando vou a eventos. Gosto de passar produtos no rosto para limpar, gosto de passar perfume e atualmente me preocupo bastante com a estética do meu corpo pra conseguir moldá-lo conforme o personagem.  Da mente eu sempre procuro estar em um local com bastante natureza para rezar. Rezar me faz muito bem!

O que faz uma pessoa interessante ao seus olhos? Eu sempre reparo muito na forma que tratam os outros, fico atento em cada ação. Tratar bem quem você quer é muito fácil. O físico também fala, mas não tenho um ideal físico que me atrai mais do que o outro. Mas ver que a pessoa tem compaixão pelo próximo e tem afeto com todos ao redor me cativa demais. Se vier com preconceito, egoísmos, vaidades extremas eu já me desinteresso.

É mais da noite ou do dia, o que faz sua cabeça? Eu gosto de acordar tarde. Umas 10h. Curto mais a noite, nem sou de sair muito, porém a noite me traz uma energia diferente que eu gosto. Podia aproveitar mais isso né? Meus amigos reclamam que sou muito caseiro.

Lá na frente, quando já tiver anos e anos de carreira, como quer ser reconhecido pelo público? Quero ser reconhecido pela minha atuação, mas também pelo que tenho a dizer, pela mensagem que quero passar enquanto artista. Acho que temos esse dever, levar uma mensagem como pessoa pública. Deixar um legado que influencie positivamente na vida das pessoas.

Quando encerrar essa temporada de “Malhação” já tem planos para o futuro? Quais os próximos passos? Acho que acaba em maio e depois só o destino dirá. Quero continuar trabalhando, já tenho sinais de trabalhos, mas acho que antes disso preciso passar na Bélgica para rever minha família!

 

Fotos Márcio Farias

Styling Dayana Molina

Beleza Elcides Freitas

Produção Faby Pernambuco