Pela longa trajetória de trabalho de Cláudio Lins, ele teria no mínimo 10 anos a mais que seus 38 anos diante de tantos trabalhos em peças de teatro, novelas, musicais, trabalhos esporádicos como diretor e apresentador. Trabalho e dedicação são o combustível que faz de Cláudio um cara que vive se aprimorando em tudo que faz, seja atuando ou cantando, o seu talento somado a simplicidade de ser fazem dele um profissional exemplar. Se seu talento foi herdado da genética dos seus pais Lucinha e Ivan Lins, ou mesmo despertado ao longo do passar dos anos. O que sabemos ao certo é que a música e a atuação sempre estiveram presentes em sua vida. Com muita disponibilidade e atenção Cláudio nos recebeu para responder as nossas perguntas no intuito de sabermos, e até aprendermos, com esse grande homem e profissional que é um pouco mais sobre sua vida.

Vamos começar pelo início… Quando criança você estudou piano, participou de peças infantis, e já maior estudou teoria musical. A que você deve esse interesse pela música? Foi algo instintivo? Influência familiar?

Acho que a influência dos meus pais aconteceu naturalmente, como acontece por exemplo numa família de médicos. Desde muito pequeno eu gostava de sentar ao piano com meu pai. E uma das brincadeiras de infância era ligar um gravador K7 e ficar inventando música. Me lembro de uma em que eu citava todos os super-heróis que conhecia!
Atuar e cantar, isso vem da mistura do seu pai ser cantor e sua mãe atriz?
Talvez… Mas acho que essa puxada pra atuação aconteceu mais por influência do meu padrasto, Claudio Tovar. Foi ele que, junto com minha mãe, produziu a primeira peça em que eu participei, aos 11 anos: o musical “Sapatinho de Cristal”. Era uma produção familiar: tinha uma música do meu pai, e meus irmãos também participavam.
Você faz a linha multimídia: fez peça, televisão, direção de teatro e de musical e ainda canta. Como consegue fazer tudo e tudo bem feito?

Bom, música e teatro eu pude estudar… o resto vem como desdobramentos. Mas não me considero efetivamente um diretor… Apenas posso dirigir eventualmente.

Quais dos seus personagens de TV tinham mais de você?
Pergunta difícil… O Bruno, de “História de amor”, tocava piano como eu, mas era bonzinho demais! O Rodrigo, de “Perdidos de amor”, já tinha uma personalidade bem parecida com a minha… mas era empresário no setor de siderurgia!!! Em “Chiquinha Gonzaga”, a minha personagem tinha acabado de chegar de Portugal, e eu também! Já o francês Claude, de “Uma rosa com amor”… bom, o Claude não tinha nada a ver comigo!
Você atuou por várias emissoras diferentes. Considera isso uma experiência importante para a expertise do ator? É um bom exercício de liberdade profissional?

Sem dúvida a passagem por várias emissoras me fez conhecer as diferentes realidades na TV brasileira. E me fez aprender que não há nada mais importante que o profissionalismo. O julgamento do trabalho de ator tende a ser subjetivo: uns gostam, outros não. Mas o seu profissionalismo é algo sólido, palpável. Se você é um bom profissional, você é reconhecido por isso, e ninguém pode tirar isso de você.

Sua passagem pelo teatro é marcada pela diversidade de temas e diretores, da “Visita da Senhora Velha” (1993) à “Ópera do Malandro” (2003). O quando dessas experiências teatrais trouxeram para você como artista? Tem algo que veio diretamente do teatro e influenciou você?
É no palco que eu me sinto em casa. Tenho contato com ele desde muito novo. Mas acho que a diversidade de temas e estilos é normal na carreira do ator brasileiro. Além disso, eu próprio tenho um gosto diversificado: posso me emocionar tanto com o teatrão do Jorge Takla quanto com um texto do Nick Silver montado pelo Felipe Hirsh. Mas tem algo que o teatro – e só o teatro – me ensinou: não tenho medo do erro, pois o erro não existe!
Que atores e autores você mais admira e tem como exemplo?

Uau! Essa resposta poderia ocupar uma página inteira… Mas vou aproveitar pra falar da turma nova. No teatro, os autores Julia Spadacini, Rodrigo Nogueira, Jô Bilac. Na televisão, Tiago Santiago, João Emanuel Carneiro, Fernanda Young. E tiro o chapéu pros colegas Paola Oliveira e Eriberto Leão, os mocinhos de “Insensato Coração”. Fazer os mocinhos pode ser muito ingrato, mas eles estão arrasando.

Você será protagonista da nova novela do SBT, “Amor e Revolução”, que se passa durante a ditadura militar. Nossa presidente, Dilma Roussef, foi uma personagem de destaque na luta contra a repressão, como você encara isso?

Acho incrível essa sincronia entre a ficção e a realidade. Apesar de a novela se passar na década de 60, ela está mais atual do que nunca. Quem poderia imaginar que teríamos uma presidente ex-guerrilheira? E ainda tem toda a polêmica em torna da Comissão Nacional da Verdade, que pretende esclarecer os crimes cometidos durante a ditadura militar. Por esses e outros motivos, acredito que a novela será um sucesso.
Ainda sobre o seu personagem, ele um militar que é contra a ditadura e se envolve com uma líder do movimento estudantil gerando todo um conflito entre familiares e uma história de “amor impossível” à moda do Romeu e Julieta. Essa ainda é a receita para grandes folhetins? O amor impossível?
Acho que essa é umas das receitas, talvez a mais tradicional. E que deve perdurar ainda por muito tempo. Mas em “A Favorita”, por exemplo, o João Emanuel Carneiro nos mostrou uma nova maneira de se fazer novela, mais dinâmica, sem grandes apelações sentimentais, e que deu muito certo. Nos mostrou que a teledramaturgia brasileira ainda pode evoluir e se reinventar.
Em 2010, você fez projetos em parceria com seu pai e sua mãe, pretende repetir a dose este ano?
Estou compondo algumas canções com o meu pai, coisa que fizemos raramente ao longo da nossa vida. Está sendo muito legal. E temos um projeto de participarmos da programação de uma rádio digital. Com a minha mãe já fica mais difícil, pois estou no SBT e ela está na próxima novela da Record. Mas nada é impossível…

Você canta e atua, isso ajuda na hora da conquista?

Não tenho idéia!!! Sempre fui um conquistador meio desligado, daqueles que não percebe quando tem alguém a fim. E como sou casado, aí é que não me ligo mesmo!
Na música “Ciúme” você fala de coisas que deveriam ser feitas e não são porque o a alma de palhaço do “personagem” abre um abraço na volta da mulher amada. Você perdoaria uma traição?
Depende das circunstâncias da traição. Se ela acontecer, espero que seja feita com o máximo de respeito, e que eu não fique sabendo. Mas posso ser flexível e conciliador, se a pessoa ainda for interessante pra mim!

 

Você é um homem vaidoso? Quando a vaidade bate? Como lida com isso?
Acho que tenho uma vaidade controlada, sem exageros. Mas como lido com a minha imagem, tomo meus cuidados. Pratico esportes, uso protetor solar, gosto de me vestir bem, essas coisas… nada de botox, silicone e lipo!
Quais seus desejos e medos quando pensa no futuro próximo?
Num futuro próximo, tenho que terminar a novela, e não é pouca coisa! Mas os meus maiores desejos são os de realizar minhas aspirações profissionais. Fazer cinema, produzir as peças que eu amo, gravar meus discos. O meu maior medo é não conseguir realizar tudo o que eu quero. Mas quando penso que grandes artistas faleceram e deixaram projetos incompletos, sinto um alívio e penso: “bom, a vida é assim mesmo… não vou realizar tudo, então vou fazer o que puder”.
Que valores você mais cultiva e que qualidades persegue?
O respeito ao próximo e a noção de que não devemos transferir pro outro as nossas responsabilidades são os valores que eu mais cultivo. E a qualidade que mais persigo é a disciplina: sempre tive facilidade pra aprender as coisas, desde o tempo da escola, então não tinha muita disciplina pra estudar. Resultado: não aprendi a ter disciplina. E no dia-a-dia, ela me faz falta.
O que é fundamental para sua qualidade de vida?
Disciplina, ora!!! HAHAHAHA!!!
Entrevista: André Porto e Nadezhda Bezerra
Fotos: Robert Schwenck
Revisão: Dulce Porto
Agradecimento: Bia Serra – Montenegro & Raman
Agradecimento especial à Cláudio Lins