O transporte aéreo é o setor onde as emissões de gases de efeito estufa crescem mais rápido no mundo. Dados do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança Climática da ONU) apontam que essa fonte de emissão foi responsável em 2018 por mais de 1 Gt de CO2e e as estimativas de crescimento são de 300% até 2050a caso nenhuma ação de mitigação ou compensação seja adotada. O planeta não suportará essa carga precisamos agir imediatamente para evitar que esse cenário se confirme.

Nesse contexto, o Ecopass surge como a ferramenta mais prática e acessível no combate aos efeitos da mudança climática onde o nosso usuário calcula as emissões de CO2 de viagens aéreas e as neutraliza com o planto de árvores de espécies nativas da Mata Atlântica e Caatinga tudo pelo seu smartphone. As árvores são plantadas em Unidades de Conservação em áreas georreferenciadas, garantindo transparência em todo processo. Para tanto, contamos com parceiros de expertise comprovada e, principalmente, que amam o que fazem, onde destacamos o CEPAN (Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste) a uma das ONGs ambientais de maior credibilidade no Brasil, coordenadora regional do Pacto da Mata Atlântica. Neste primeiro momento, as árvores são plantadas no Brasil, mas em breve iremos disponibilizar locais de planto na África, Ásia, Europa e restante das Américas, já que a Ecopass também atuará nesses mercados. A empresa é portuguesa, mas os empreendedores Luiz Roberto (LR) e José Carlos (JC) são de Recife, capital pernambucana. A MENSCH conversou um pouco com eles para saber um pouco mais.

Como surgiu a ideia do EcoPass? LR – A ideia surgiu em 2013, após uma viagem que fiz a Porto Alegre para participar de um workshop da Câmara Temática de Sustentabilidade da Copa do Mundo (na época eu ocupava a chefia do setor de Política de Baixo Carbono e Clima, na Prefeitura do Recife, e por isso representei o Recife em vários eventos pelo Brasil). Eu adoro viajar, mas sempre que voava sentia uma inquietação devido à quantidade de CO2 que emitia em cada viagem. Durante o voo de volta a Recife, a inquietação fez nascer o desejo de desenvolver algo para combater esse impacto ambiental negativo. A ideia inicial era criar um site com uma ferramenta web de cálculo e compensação de CO2 através da compra de árvores. O site foi colocado no ar, mas apenas divulgando os atrativos de Pernambuco e sem a calculadora de emissões, porque eu achava que isso teria um alcance limitado e decidi segurar a empolgação apostando no desenvolvimento da tecnologia dos aplicativos, pois eu queria ver a minha ideia, literalmente, nas mãos das pessoas – alguns anos depois, a minha aposta foi premiada.

Qual a função socioambiental do projeto? JC – A essência do Ecopass é promover a compensação das emissões de CO2 através do plantio de árvores e com isso promover também a inclusão social de povos tradicionais. Funciona da seguinte maneira: cada árvore que plantamos representa uma real possibilidade de melhoria na renda e, consequentemente, na qualidade de vida para muitas famílias, pois todos os envolvidos na nossa cadeia de plantio (desde a coleta de sementes ao monitoramento das áreas reflorestadas) são de comunidades tradicionais como indígenas, quilombolas, assentamentos rurais e outros povos da floresta. A responsabilidade socioambiental faz parte do nosso DNA.

Como isso pode gerar lucro e despertar o interesse dos empresários? LR – A sociedade, ou seja, os consumidores, estão mais conscientes do seu poder e das consequências de suas escolhas, onde os desafios ambientais e sobretudo a forma como as corporações se posicionam em relação a esses desafios, ganham cada vez mais peso nos processos de tomada de decisão. No mundo corporativo as empresas têm que se adequar a essa nova realidade, que chegou para ficar. O Ecopass é um serviço inovador e essencialmente comprometido com a promoção da sustentabilidade e responsabilidade social, princípios que atendem aos anseios da sociedade e, dessa forma, agregam valor institucional às empresas parceiras e todos os seus stakeholders. Este valor institucional, agregado à reputação da empresa, se constitui em vantagem competitiva sustentável, permitindo a diferenciação em relação aos concorrentes. Como sabemos, vantagem competitiva é um dos requisitos básicos para a captação de novos clientes e, como consequência, geração de lucro.

De maneira prática, como funciona o EcoPass? Qualquer pessoa pode participar? JC – Funciona de forma bastante simples e está disponível para qualquer pessoa com um smartphone. O primeiro passo é fazer o download gratuito na Apple Store e Google Play. Depois, basta fazer o login, calcular as suas emissões e fazer a compra das árvores. Em poucos cliques você resolve tudo de maneira prática e ainda fica apto para aproveitar os benefícios da Rede Ecopass, que garante descontos e outras vantagens em estabelecimentos parceiros do trade turístico em Portugal, Brasil e outros países como forma de bonificação por sua atitude sustentável.

Como se dá a seleção do tipo de árvore e local para plantio? LR – Nesse primeiro momento iremos plantar no Brasil, especialmente na área de Mata Atlântica e em Unidades de Conservação, de acordo com o Plano de Manejo Florestal de cada área, o que garante a sobrevivência dos indivíduos arbóreos e a manutenção da dinâmica e características de cada floresta. Os próximos passos são reflorestar áreas de Caatinga e Manguezais. A partir do próximo ano iremos fechar parcerias com entidades para plantar na Europa, sobretudo em Portugal, na América Central, na África e Indonésia que, assim como o Brasil, são locais que possuem hotspots ambientais globais ameaçados, como as florestas de montanha africanas e florestas tropicais de Bornéu.

Qual a importância de um projeto desse tipo para a sociedade? LR – O estado de emergência climática global é um fato inegável e a Natureza tem dado sinais de que a situação ainda pode ficar mais crítica. Só neste ano, eventos climáticos extremos causaram muitos transtornos, prejuízos bilionários e mortes em várias partes do mundo. Esses eventos climáticos extremos estão cada vez mais frequentes e mais intensos. Há poucos anos a necessidade de ação era justificada para garantir o bem-estar das gerações futuras. Hoje, precisamos agir para garantir o bem-estar da nossa própria geração. Assim, uma solução como o Ecopass mostra às pessoas que o poder para mudar essa realidade não está apenas nas mãos dos governos e grandes corporações. Eu, você, qualquer pessoa tem em mãos a chance de agir agora de forma realmente direta pelo planeta.

Como despertar nas pessoas mais consciência com o meio-ambiente? LR – Isso passa, invariavelmente, pela educação – formal e ambiental. Só uma sociedade bem informada a respeito da riqueza, do valor e da importância da biodiversidade é capaz de preservá-la, identificar as ameaças e agir de forma proativa.

De onde veio essa ideia e que dificuldades enfrentou até a implementação? LR – Como explicamos no início da entrevista, a ideia surgiu de uma inquietação toda vez que eu viajava e em uma dessas viagens transformei essa inquietação em ação a favor do meio ambiente. A primeira dificuldade foi o trabalho intelectual para transformar a ideia em algo prático, onde tivemos que nos debruçar sobre planilhas intermináveis com dados sobre todos os aeroportos do mundo e fatores de emissão de gases de efeito estufa. Quando finalmente a tecnologia dos smartphones permitiu o desenvolvimento do Ecopass, criamos um algoritmo de cálculo e saímos em busca de apoio para bancar o desenvolvimento do sistema e aplicativos, foi quando nos deparamos com a nossa maior dificuldade: a falta de apoio. Além de inovadora, o Ecopass era uma iniciativa inédita e por esse motivo, assim acreditamos, os investidores e instituições locais não se sentiram confortáveis em nos apoiar. Nessa época surgiu o José Carlos, que acreditou no potencial do Ecopass e nos fez uma proposta de sociedade, que deu match. Assim, o Ecopass começou a ganhar forma e em pouco tempo ele trouxe a possibilidade de inscrição no edital do Portugal 2020, um programa de financiamento da União Europeia e governo português, o qual submetemos o projeto e fomos aprovados.

Esse braço com Portugal se dá de que forma? É mais fácil trabalhar o mercado de lá? JC – Para concorrermos no Portugal 2020 tivemos que abrir uma empresa em Portugal, essa foi a primeira exigência do edital. A nossa empresa está sediada em Évora, uma belíssima cidade na Região do Alentejo, mas manteremos uma filial em Recife, a nossa cidade que tanto amamos. O Ecopass, foi aprovado no edital de empreendedorismo qualificado e criativo, onde a nossa empresa está qualificada como uma startup de tecnologia voltada para o desenvolvimento de soluções sustentáveis. Sobre o mercado de trabalho na área de meio ambiente em Portugal e na Europa como um todo, a facilidade é maior do que no Brasil devido ao maior nível de consciência e engajamento ambiental da população, além da situação econômica favorável, que dá mais tranquilidade para tocar qualquer negócio.

Como vocês enxergam essa questão do desmatamento de áreas florestais? LR – Enxergamos isso com muita preocupação e tristeza, ainda mais pela forma como o desmatamento tem avançado no nosso país. O Brasil é o único país do mundo com nome de árvore. Árvores que produzem água, estocam Carbono e servem de abrigo para inúmeras espécies. Quem jura amor à bandeira nacional sabe que o verde representa as nossas matas. Quem jura honrar a Constituição tem a obrigação de proteger o meio ambiente. Não adianta apenas falar que protege. É preciso agir, dar o exemplo. A ação e o exemplo são os “pequenos detalhes” que dão credibilidade ao discurso e, nesse sentido, o Brasil tem falhado feio.

Para projetos como o EcoPass o que é fundamental para existir? JC – O ponto fundamental é a capacidade de unir pessoas e organizações em torno da resolução do problema. O Ecopass só é uma realidade porque envolve uma cadeia de ONGs e povos que defendem o meio ambiente, envolve gente que pensa tecnologia para desenvolver soluções inovadoras e capazes de causar impactos socioambientais positivos, envolve gente que pensa e desenvolve as formas mais eficientes de comunicação para que as nossas propostas e ações sejam repercutidas e gerem um feedback positivo, envolve empresas engajadas ambientalmente e aquelas que queiram mudar a sua postura. Enfim, é fundamental essa condição de envolver pessoas e instituições em torno de um propósito.

Quais os planos para 2020? Onde desejam chegar? LR – Os nossos planos para 2020 são grandiosos. Queremos fazer do Ecopass a ferramenta de cálculo e compensação das emissões de CO2 mais utilizada na Europa e no Brasil para partirmos de forma segura em direção a outros mercados, especialmente o asiático e o norte americano. O nosso maior desejo é promover um reflorestamento massivo em todo o mundo e para isso vamos trabalhar firmes seguindo o nosso planejamento estratégico a fim de conquistar o apoio de um número cada vez maior de pessoas e empresas parceiras, para juntos construirmos um mundo melhor.

ACESSE: https://ecopassapp.com/app.html