RAFAEL SILVEIRA APRESENTA SEU UNIVERSO EM ESPUMA DELIRANTE NO FAROL SANTANDER EM SÃO PAULO

Por Ivan Reis

“Quando esfregamos os olhos fechados, vemos imagens psicodélicas”, afirma Rafael Silveira sobre sua principal inspiração – a mente humana. O artista multilinguagem apresenta a mostra individual Espuma Delirante com curadoria de Baixo Ribeiro da galeria Choque Cultural. Aliando tradição, tecnologia e subversão, três ambientes expositivos abrigam pinturas, esculturas, paredes e telas animadas, além de objetos inspirados em seu conceito de sorvete derretido. Em conversa com a  MENSCH, o artista fala sobre o impacto da pandemia em seu trabalho, os planos para o futuro e o processo criativo de Espuma Delirante, nova experiência imersiva que fica em cartaz de 25 de março a 7 de agosto no Farol Santander em São Paulo.

ARTE IMPACTADA

A flexibilização dos protocolos de saúde devido à diminuição dos casos de Covid-19 propiciou o retorno às atividades presenciais, incluindo exposições de arte. Nesse tempo, artistas foram afetados e, para Rafael Silveira, essa realidade não foi diferente. “Por sorte, meu ateliê fica em casa mesmo, e isso foi um grande facilitador nesse período de isolamento”, afirmou. Nesse tempo, a conectividade ajudou a conceber a mostra. “Usei a tecnologia como nunca, especialmente no trabalho entre artista e curador no processo de criar a exposição Espuma Delirante. Com o curador (Baixo Ribeiro) em São Paulo e eu em Curitiba, as conversas aconteceram por meio de aplicativos”, disse o artista.

Rafael Silveira mora em Curitiba onde mantém seu estúdio. Começou a carreira na década de 1990 como designer gráfico, ilustrando fanzines, revistas e rótulos de bebidas. Já foi do circuito da publicidade, e teve seu trabalho no álbum Estandarte do grupo Shank, em 2008. O artista paranaense já levou mais de 90 mil pessoas ao Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, e passou por espaços e galerias de São Paulo, Rio de Janeiro, Londres, Nova Iorque e Milão.

A presença de várias linguagens sempre esteve presente em sua trajetória. “A coisa das multilinguagens é algo bem espontâneo, pois não consigo me ver preso a uma técnica específica e as ideias se manifestam em diferentes formatos”, esclarece. Com o tempo, começou a dominar ferramentas de computação gráfica, processos de impressão, criação e produção audiovisual. “Gosto muito de técnicas tradicionais, e tenho tendência autodidata de pesquisar e desvendar linguagens”, Rafael esclarece sobre a característica principal de suas obras. “Por não me prender a tradições, eu me permito expandir cada mídia para além de suas fronteiras e, assim, crio linguagens híbridas”. Por isso, a narrativa criada em 360 graus de Espuma Delirante nos faz mergulhar em seu universo de sonhos, fantasioso e subversivo em que imagem, som, luz e animação se complementam em obras e cenários.

SONHO EM CORES

Um corredor gráfico recebe o público no 20º andar do Farol Santander na capital paulista. No primeiro ambiente, nove pinturas-objeto apresentam formas fragmentadas e abstratas espalhadas pelo chão e parede. Simulando um sorvete derretido, as obras usam cores, luz negra e grafismos psicodélicos. No centro da segunda sala expositiva, uma escultura de seis metros revela um enorme sorvete derramado. Projeções animadas interagem com a escultura e completam a experiência no espaço, alternando momentos de excesso e introspecção. O terceiro e último ambiente apresenta cinco telas animadas com molduras esculpidas em madeira. “Quis explorar essas novas linguagens sem abrir mão do universo que venho construindo com pinturas e esculturas”, explica Rafael sobre o ambiente imersivo que gera mistério e instiga o público a participar da obra.

Esse surrealismo de contornos surpreendentemente reais e subversivos é inspirado em momentos da trajetória do artista, além de sua bagagem psíquica e cultural. “Se eu for citar influências clássicas, poderia dizer Arcimboldo, Magritte entre outros artistas e as artes gráficas dos séculos 19 e 20, especialmente anônimos que ilustravam impressos”, declarou. “Essa obsessão por impressos antigos vem da energia mental que esses materiais têm algo de inconsciente coletivo profundo”, disse se referindo a capas de revistas, embalagens e toda a sorte de impressos que circularam no passado.

A inspiração também veio do período envolvendo a pandemia e isolamento. “Eu me voltei para a introspecção, para o mundo interior, o microuniverso dos pensamentos. Fiquei refletindo sobre o cosmos e os mistérios da existência”, explicou. “Foi um período em que muita gente parou para pensar na vida. Eu quis trazer um pouco dessa reflexão, desse mergulho no mundo delirante dos pensamentos, das ideias criativas e ter um olhar para essa consciência cósmica”, ele explica sobre o impacto da pandemia em seu trabalho. Se a arte imita a vida, o artista parece ter encontrado a prova de que o ditado é verdadeiro em sua essência.

FUTURO DO PRESENTE

O artista inquieto também protagonizou a mostra Circunjecturas que já passou por São Paulo, Curitiba e Brasília. Voltando à capital paulista, reconhece que o pós-pandemia intensificou a participação do público. “A interação com a exposição pode ser sentida intensamente nas redes sociais. É muito gratificante ver as reações espontâneas dos visitantes”, diz Rafael sobre o impacto das redes sociais em seu trabalho. Em tempos de realidade digital, nada mais comum no universo de curtidas e hashtags. “Esse é o presente da arte. É um tipo de arte com muita demanda, tanto de público quanto de instituições”, afirmou sobre o número crescente de exposições imersivas produzidas no país e no exterior. Já sobre o futuro, Rafael Silveira declarou que, no final de julho e começo de agosto, deve expor pinturas inéditas na Galeria Choque Cultural em São Paulo.

SERVIÇO:

Onde: Farol Santander São Paulo (Rua João Brícola, 24 – Centro).

Quando: de 25 de março a 7 de agosto de 2022, de terça-feira a domingo, das 9h às 20h.

Ingressos: R$ 30,00.

Compra online: farolsantander.com.br (vendas também na bilheteria local).

Classificação: livre

Imagens: Divulgação/Farol Santander