
Com quase quatro décadas de carreira, Luciano Quirino (@lucianoquirinoxx) segue reafirmando seu talento ao transitar com naturalidade entre televisão, cinema, streaming e teatro. Reconhecido pela versatilidade e pela intensidade com que constrói seus personagens, o ator vive uma fase especialmente produtiva, conciliando grandes produções do audiovisual brasileiro com projetos que resgatam importantes capítulos da memória e da cultura nacional. Nesta entrevista à MENSCH, Luciano fala sobre os desafios de interpretar personagens complexos como Pascoal, em A Nobreza do Amor, e seu trabalho em Dona Beja, reflete sobre a expansão do mercado audiovisual, a importância da representatividade negra e o compromisso em dar voz a histórias que ampliam o olhar sobre a sociedade. Uma conversa marcada por maturidade, sensibilidade e a paixão de um artista que continua encontrando novos caminhos para emocionar e provocar reflexão.
Você vive um momento raro na carreira, com projetos simultâneos na TV aberta, streaming e teatro. Como enxerga essa fase e o que ela representa dentro de uma trajetória de quase quatro décadas? Vejo essa fase como uma espécie de colheita e, ao mesmo tempo, de recomeço. Depois de quase quatro décadas de carreira, estar presente simultaneamente na TV aberta, no streaming e no teatro me mostra que o artista precisa permanecer em movimento, curioso e disponível para novos encontros. É um momento que representa maturidade, mas também renovação. Sinto que hoje consigo colocar minha experiência a serviço de personagens mais complexos e histórias que dialogam com o tempo em que vivemos.


Pascoal, em A Nobreza do Amor, é um personagem movido pela estratégia e pela ambição. O que mais despertou seu interesse na construção desse antagonista tão silencioso e imprevisível? O que mais me interessou foi justamente o silêncio do Pascoal. Ele não é um personagem impulsivo, não age pela explosão, mas pela observação. É alguém que entende rapidamente as engrenagens do poder e sabe esperar o momento certo para agir. Como ator, construir alguém que comunica tanto através do olhar e da presença quanto através da palavra é um desafio fascinante.
Qual a importância pra você em participar de uma novela que resgata a nobreza da ancestralidade? Como esse trabalho tem te tocado? Tem um significado muito profundo. Durante muito tempo fomos apresentados quase exclusivamente a narrativas que associavam personagens negros à dor, à marginalidade ou à subalternidade. Participar de uma obra que coloca reis, rainhas, princesas e estrategistas negros no centro da narrativa é também um gesto de reparação simbólica. É emocionante perceber crianças negras se reconhecendo nesses lugares de poder, inteligência e protagonismo.
Você comentou que Pascoal o levou a explorar “zonas mais sombrias” da interpretação. Até que ponto personagens moralmente ambíguos desafiam e enriquecem o trabalho de um ator? Acho que são justamente esses personagens que nos obrigam a abandonar julgamentos e buscar compreensão. Nenhum personagem se considera vilão da própria história. O desafio do ator é encontrar a lógica interna daquela existência, entender suas feridas, seus desejos e suas justificativas. Isso amplia muito o trabalho artístico porque nos aproxima das complexidades da condição humana.

Já em Dona Beja, seu personagem vive conflitos entre amor, honra e desejo. Como essa nova adaptação dialoga com o público contemporâneo sem perder a essência da obra original? A nova adaptação preserva a força dramática da obra original, mas revisita essas relações a partir de um olhar contemporâneo. Meu personagem vive conflitos muito humanos e bastante atuais, porque amor, desejo, ciúme, frustração e ambição continuam fazendo parte das relações humanas. O que muda é a forma como olhamos para esses temas e as perguntas que fazemos sobre eles hoje.
Estar simultaneamente em produções da TV Globo e da HBO Max evidencia um mercado audiovisual cada vez mais plural. Como você percebe essa transformação e as oportunidades que ela abriu para os atores brasileiros? Vivemos um momento muito interessante do audiovisual brasileiro. As plataformas ampliaram os espaços de produção, diversificaram as narrativas e criaram oportunidades para histórias e personagens que talvez não encontrassem espaço anos atrás. Isso beneficia não apenas os atores, mas roteiristas, diretores, técnicos e todo o ecossistema criativo do país.
No filme Uma Garota de Classe, inspirado no caso Elize Matsunaga, você interpreta o delegado responsável pelas investigações. Qual foi o maior desafio de retratar um personagem ligado a uma história real tão conhecida pelo público? Quando lidamos com histórias reais existe sempre uma responsabilidade adicional. O desafio é encontrar equilíbrio entre rigor documental e criação artística. Meu trabalho foi buscar humanidade e verdade naquele homem, evitando caricaturas e respeitando tanto os fatos quanto as pessoas envolvidas naquela história.


Ao longo da sua carreira, você transitou com naturalidade entre televisão, cinema e teatro. O que cada uma dessas linguagens continua lhe oferecendo como artista? O teatro me oferece o encontro imediato com o público e a possibilidade do risco e do presente absoluto. O cinema me convida à intimidade e à precisão dos pequenos gestos. Já a televisão me ensinou sobre ritmo, continuidade e alcance popular. São linguagens diferentes, mas complementares, e cada uma delas continua me ensinando algo novo.
O espetáculo Os Irmãos Timotheo da Costa resgata a trajetória de importantes nomes da arte brasileira. Qual a importância de levar ao palco histórias que ajudam a ampliar a memória cultural e a representatividade no país? Existe uma dimensão política e afetiva em recuperar essas histórias. João e Arthur Timótheo da Costa foram artistas fundamentais para a arte brasileira e, ainda assim, permanecem pouco conhecidos do grande público. Levar essas trajetórias ao palco é contribuir para corrigir apagamentos históricos e ampliar a nossa memória coletiva.


O retorno do monólogo Maestro Selvagem – Um Encontro com Carlos Gomes marca uma nova circulação nacional. O que essa obra ainda tem a dizer ao público brasileiro e como ela amadureceu desde a primeira temporada? Carlos Gomes continua sendo um personagem extremamente atual porque sua história fala sobre pertencimento, reconhecimento, identidade e o lugar do artista dentro do próprio país. A peça amadureceu junto comigo. Hoje ela está menos interessada apenas na biografia do compositor e mais nas perguntas humanas que atravessaram sua existência: o sucesso, a perda, a solidão, o amor e a necessidade de ser lembrado.
Depois de quase 40 anos de carreira, com personagens marcantes e novos desafios surgindo em diferentes plataformas, o que ainda desperta sua curiosidade artística e quais histórias você faz questão de contar daqui para frente? Ainda me interessa aquilo que me desloca. Gosto de personagens que me obrigam a olhar o mundo por outros ângulos e de histórias que ampliem nossa percepção sobre quem somos. Tenho um interesse especial por narrativas que tragam protagonismo negro, revisitem personagens históricos esquecidos e apresentem novas possibilidades de existência para corpos negros na arte e na sociedade.
Para conquistar Luciano Quirino basta… …ter curiosidade pelo mundo, senso de humor, inteligência emocional e generosidade. Admiro pessoas que sabem ouvir, que respeitam as diferenças e que ainda conseguem se encantar com as pequenas coisas da vida.


Fotos Marcio Farias (@marciofariasfoto)
Assessoria de imprensa MercadoCom (@mercadocombr)
Assessor Ribamar Filho (@filhoribamar)


