
Por Breno Jacó
Antes de ver ‘O Céu da Língua’ no Teatro do Parque, no centro do Recife, em setembro do ano passado, almocei com Gregório Duvivier no Reteteu Comida Honesta, restaurante do chef Thiago das Chagas na Encruzilhada — desses lugares onde o Recife também se serve no prato. Conversa de mesa, sem hora marcada. A cidade, a equipe, a peça. Em algum momento ele falou de Amandinha Menelau (@amandinhamenelau), atriz e locutora local que virou fenômeno na internet explicando o jeito recifense de falar, e falou dela com uma admiração que não era gentileza de quem está de passagem. Falou do que ela faz com as nossas expressões, do humor que ela tira de uma palavra que a gente usa sem pensar. Achei curioso um carioca vir me explicar o valor do que eu tenho em casa.
Foi ali que entendi que a peça não passa pelas cidades do mesmo jeito. Gregório adapta um trecho ao lugar onde se apresenta. Escolhe uma palavra local e bota pra dentro do monólogo. E foi naquela mesa, entre um prato e outro, que a palavra do Recife apareceu. O “pronto”. Ficamos um tempo bom em cima dela, virando e revirando. Porque o nosso “pronto” encerra, mas também começa. Concorda, resolve, corta caminho, e ainda deixa tudo entendido sem precisar dizer mais nada. Pronto. Confesso que saí de lá com um orgulho meio bobo, desses que a gente não anuncia. Horas depois, a palavra que a gente escolheu no almoço ia subir ao palco.
Ele também deixou escapar uma expectativa sobre o trecho em que fala do frevo. Mas não quis entregar muito, pois eu ainda iria assistir à peça. Guardou a surpresa como quem segura o passo antes da orquestra começar.

À noite, no Parque, entendi o porquê. Quando o frevo chegou, o Recife respondeu com fervor. Gregório ficou olhando. Deixou acontecer.
O espetáculo é um monólogo, mas ele não está sozinho lá em cima. Theodora Duvivier, irmã dele, manipula as projeções ao fundo, acendendo palavras e desenhos como quem vasculha um retroprojetor antigo. Pedro Aune sustenta tudo no contrabaixo. A direção e a dramaturgia são de Luciana Paes, e dá pra sentir a mão dela na peça. O humor ali não serve de intervalo para o pensamento. Ele é o próprio pensamento, chegando mais rápido.
Um aviso ao amigo que ainda vai ver: fique atento. As palavras não param na boca de Gregório. Saem na velocidade de menino que chegou em casa doido pra contar uma novidade, e se você piscar perde uma piada boa. Não chega a ser defeito, mas a peça cobra de você a mesma escuta que ela está pedindo pro mundo.

Teve uma hora em que ele contou que uma das filhas dizia “papato” no lugar de sapato. E aí a coisa saiu do palco e veio pra mim. Sou pai de Rafael. Sei que existe um idioma que só se fala dentro de casa, com pouquíssimos falantes, sem gramática e sem futuro — uma língua que morre quando a criança aprende a falar direito. A gente aplaude o “direito” e não percebe que está enterrando uma língua.
Saí do Parque sem nenhuma vontade de estudar gramática. Saí querendo escutar melhor. O sotaque de quem vem do Sertão. A música que eu canto há anos sem reparar no que ela diz. Gregório não bota a língua portuguesa em altar nenhum. Devolve ela pra boca de quem fala, que é onde ela mora.
Agora a peça volta a Pernambuco, no Teatro Guararapes, depois de esgotar as sessões do Parque. Vai levar de novo um pedaço da cidade pra dentro do texto.
Pronto. Já disse tudo.



