Allan Souza Lima é daquele tipo de ator que você olha e sabe que conhece não sei de que papel. Só sabe que o personagem atual é incrível. Daí quando você vai ver, o cara já fez diversos papeis que você acha o máximo. No final você conclui “pô, esse cara é foda mesmo! Nem parece o mesmo daquele papel!”. E é exatamente isso que sentimos ao analisar a trajetória de Allan até aqui, eu disse, até aqui (!!). Pernambucano nascido em Recife, logo cedo se jogou no mundo atrás do seu encontro com a arte. Se mudou para o Rio e de lá não mudou mais. Aliás, mudou-se bastante! Morou numa tribo, no morro e até Turquia, graças a seus personagens. É esse Allan que reencontramos agora, quatro anos desde sua primeira capa aqui na MENSCH, um cara ainda melhor e um ator ainda mais mutante.

Allan, fazendo uma retrospectiva da sua trajetória até aqui é incrível como você tem personagens tão diversos na sua linha do tempo. De índio à muçulmano, de cantor de funk à mutante. Como é isso rapaz? Foi escolha sua ou do acaso? No meu ponto de vista, eu acredito que nada é por acaso, somos responsáveis pelas nossas escolhas. Eu sempre tive gosto pela criação, sempre gostei de me desafiar, sair do cômodo. O ator tem que ser um camaleão. É isso que eu acho maravilhoso da nossa profissão. Eu vejo muitos atores sempre fazendo as mesmas coisas, com as mesmas manias. Acho chato, sem forma, sem potência, me parece um grupo de preguiçosos que não se esforçam para criar algo relevante. E no fundo, a maioria não esforçam para isso. Acho tão bonito ver um ator com esse poder de se transmutar em seus personagens. Meu desafio sempre é ir em busca do novo, lugares desconhecidos na criação. É instigante. Um ator que eu tenho uma enorme admiração e respeito é o Daniel Day Lewis, ele caminha maravilhosamente nesse lugar de mutação em seus personagens, digo que ele é minha inspiração como ator. É isso. Somos responsáveis pelo nosso caminho, e até aqui, eu sou feliz pelas minhas escolhas.

Talvez você seja um dos atores mais mutantes hoje em dia. Como é esse processo de transformação, de criação do personagem? A criação de um personagem é o mais difícil. E mais difícil ainda é conseguir se desapegar dos nossos vícios corporais e emocionais. Quando eu começo um processo de trabalho, eu me exijo a começar tudo do zero, é basicamente se desapegar do próprio ego, do seu eu, e isso exige uma grande responsabilidade. Eu super respeito o processo de preparação de atores nos projetos, mas eu sempre tenho meu processo particular paralelo ao laboratório. Tenho gosto pela vivência real, quando tenho essa oportunidade, não abro mão. Lembro que meu primeiro laboratório que fiz, eu fiquei trabalhando durante 2 meses de barraqueiro na praia da barra da tijuca para levar essa experiência ao personagem que fiz no Preamar chamado Raí. Foi a partir daí que tomei gosto pelos meus processos de imersão. Eu praticamente vivo um mundo paralelo da minha realidade quando estou imerso em um personagem. 

Para viver o Cacique Ubirajara você tinha que pintar o corpo quase todo e gravar quase que sem roupa por meses. Foi um processo complicado? O trabalho em si foi maravilhoso, elenco incrível, equipe fantástica. Mas no decorrer dos meses, o processo de pintura se tornou bem cansativo, eu chegava sempre uma hora antes de todos para fazer o processo de caracterização. Nossa locação era no meio do mato, nas locações externas do Projac. Foram quase 8 meses de trabalho. Deu pra cansar bem. Mas foi um lindo aprendizado ter feito esse personagem. Levo comigo até hoje o que aprendi com os índios: “somos todos um só.” Esse é o belo da nossa a profissão, viver uma vida temporária que não é a nossa, mas, com ela, se leva sempre um grande aprendizado. 

Falando nisso, mal estreou e sua caracterização de Christian Cravinhos para o cinema chamou atenção. Foi desafiador encarar um personagem pesado da vida real? Chegou a conversar com o Christian na real? Como foi esse processo de construção? Gostaria de ter tido esse encontro com o Cristian, mas a produção não permitiu essa possiblidade. Foi um trabalho bem denso, um processo delicado. Retratar uma história dessa tem um peso muito grande dentro das filmagens e fora dela. Emocionalmente o trabalho mexeu comigo, foram dias que exigia uma densidade emocional e energética muito grande. Lembro que no primeiro dia de encontro de preparação, quando ouvi os áudios do julgamento do tribunal, fiquei muito atento a voz do Cristian enquanto ele falava, ele chorava compulsivamente e tinha voz infantil que ia contra o estereótipo dele, daquele homem todo tatuado. Foi ali que comecei o meu processo de estudo, naquela voz que me chamou tanta atenção. Lembro de ter colocado o medidor de nota musical para saber qual nota era a voz dele, lembro bem, Fá sustenido. (risos). Foi a partir disso que comecei meu processo de criação numa mistura de realidade e liberdade poética. 

Quando você se sente desafiado por um personagem? Isso depende muito. O Cristian Cravinhos, por exemplo, eu senti medo dele, dessa história, mas ao mesmo tempo, me senti encorajado para tentar entender psicologicamente a cabeça de um ser humano para chegar numa situação limite como essa tão cruel. Me senti desafiado por esse personagem, por essa psicologia, de querer chegar nesse entendimento. Foi ali que me apeguei e embarquei nesse trabalho. Por exemplo, fim do ano passado, rodei um filme “La Salamandre” em Recife com uma coprodução francesa. Nesse filme eu falava francês e contracenava com atrizes francesas. Lembro que carregava comigo uma professora de francês o dia inteiro comigo para aprender e entender a musicalidade desse idioma. Foi uma experiência incrível. Existem diversas formas de ser desafiado por um tal personagem. Mas uma coisa é certa: quando me encontro com esse tal personagem, a gente nasce e morre juntos no seu ápice. 

Existem limites para um trabalho? Algo que não faria mesmo por trás de um personagem? Essa pergunta eu sempre faço antes de embarcar no processo de criação de um personagem. Posso dizer que, até hoje, não saberia te responder qual seria o meu limite para uma criação. Um dia eu disse, morreria feliz por uma bela criação! Não sei até que ponto isso seria bom ou não. (risos) 

Seu corpo é instrumento do seu trabalho. Como cuida dele e da mente? Exercício físico e alimentação é meu foco principal. Falando em cinema, me comparo ao Forrest Gump, pelas suas corridas. Sou quase isso. A corrida, além de ser um belo exercício físico, me coloca também em processo meditativo. É ali que descarrego e renovo todas as minhas energias.  

Esse ensaio feito para nossa capa traz uma certa dramaticidade e um clima de boas energias para iniciar bem um novo ciclo. Como você encerra esse ano e espera começar o novo? Esse ano foi e está sendo muito delicado, de muitas incertezas e inseguranças para todos nós, como nunca aconteceu. O que nos resta é desacelerar um pouco, se reavaliar como ser humano. Venho conseguindo transitar bem, na medida do possível, esses tempos pandêmicos.  Precisamos ter esperança para o novo que virá. Dias melhores virão, é necessário acreditar.  

E como foi esse momento de isolamento social e pandemia? Como isso tudo te pegou? Em me desapaguei por completo. Não assisti a um filme sequer, nenhuma série. Tirei esse tempo para me desconectar de tudo, até da minha arte. Foi necessário. É nesse lugar de “zerar” que o ator precisa viver da mesma forma que a vida. Eu sempre uso desse falso verbo “zerar”. Esse verbo exige uma grande responsabilidade. Precisamos nos despegar de muita coisa parar dar lugar ao novo. Esse ano foi um bom momento de recomeçar de novo, de forma diferente. E pra recomeçar, é necessário zerar. 

Sua última novela, “Órfãos da Terra”, focava nos imigrantes e falava de preconceito de várias formas. O que ficou dessa experiência e como você enxerga tudo isso? Para mim essa novela foi uma dos trabalhos que eu fiz e vi dos últimos tempos que mais retratou tão fortemente a realidade do mundo em que vivemos. Não sou pessimista – longe disso, mas a realidade está cada vez mais cruel. A intolerância e a ganância estão matando o nosso mundo. As pessoas estão cegas cada vez mais. Por que tantas guerras? O que eu levo disso é cada vez mais a conclusão de que a religião e a política estão destruindo a humanidade. Mas isso já seria assunto para uma próxima pauta. 

Falando nisso, vivemos num momento de muita intolerância, seja política, religiosa, de cor e por opção sexual. Chega parecer que estamos regredindo. Você também tem essa impressão? Gostaria que fosse somente uma impressão, mas é a realidade em que estamos vivendo.   

Acredita que a falta de barreiras que a tecnologia proporcionou por conta das redes sociais terminou criando isso? Quanto mais acesso mais divisão de grupos por conta do radicalismo? Acredito que as redes sociais conseguiram juntar com muita facilidade os grupos sociais de acordo com seus valores e ideais. Os idiotas avançam a passos firmes e os intolerantes também. Esse tempos eu li sobre isso que dizia o seguinte: os grupos sociais de internet criam bolhas epistêmicas (um comunica o outro), e através do “ecum” – teoria da repetição, se ganha valor. Eu digo que a terra é plana, eu sou idiota isolado. Mas agora eu tenho cem mil idiotas dizendo que a terra é plana. Ora, logo os cem mil não podem estar errado, certo? Brechet falava no passado: A voz do povo é a voz de Deus. Mas que povo? Que Deus? Porque o povo pediu Barrabas e não Jesus. E o povo também Hitler. Se o povo é a voz de Deus, temos que entender que o número não caracteriza o argumento. Mas nesse caso, nas redes sociais, os números estão caracterizando o argumento.

O que traz inspiração e transpiração no meio disso tudo? Como recarrega suas baterias? No meio desse caos, o que me reconecta são as minhas corridas e minhas plantas. Nessa quarentena – se é que pode se dizer que houve alguma quarentena, fiquei em contato direto com a natureza respirando verde.  

Você é um pecador convicto de que? Não sei se caberia essa resposta, mas digo que sou um anarquista convicto. Gosto do caos. Acredito que o caos é gerador de força como fonte de transformação e reflexão na sociedade.

Com tantas mudanças de visual você se considera um cara vaidoso? Até que ponto e do que não abre mão? Acredito que todos nós somos vaidosos, principalmente dentro desse universo artístico. Mas acredito que eu seja uma cara tranquilo com isso. Minha vaidade é saudável. Dizem por aí que a vaidade é o pecado predileto do diabo, pois ela é a mais fácil do ser humano se afogar. 

Qual sua melhor qualidade e o que tenta deixar pro lado negro da força? Minha lealdade acima de tudo, comigo e com os meus bons, isso levo comigo. Sempre! Todos nós temos um lado obscuro. Nesse caso, eu mantenho o silêncio, melhor assim. 

Quem é Allan hoje comparado com o Allan que deixou Recife aos 18 anos e se jogou no mundo? Eita… tanta coisa. Quando sai de Recife eu era um adolescente querendo ganhar o mundo. Hoje estou aqui. Mas, olhando para o meu passado, e o que conquistei, fico feliz pela minha trajetória e minhas conquistas. Sempre mantendo minha essência e meus ideais, e com os pés no chão.  

Quais os próximos passos? Com tantas incertezas que estamos vivendo, pela primeira vez na minha vida, posso dizer, realmente não sei.

Fotos Adri Lima

Edição de Moda Ale Duprat

Produção de moda Kadu Nunnes

Produção Executiva Pedro Paulo Loureiro

Maquiagem Yago Maia

Locação Barra Brisa Hotel (@rialehoteis)

Allan veste Ricardo Almeida (blazer, camisa branca e gravata) e Flower Homme (blazer vermelho metálico)